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O adeus a Barcímio Sicupira, o maior ídolo do Furacão e o rubro-negro mais apaixonado

Sicupira é o maior artilheiro da história do Furacão e contribuiu para o fim da seca mais dura, mas sua representatividade vai além: é o amor incondicional pelo rubro-negro

* Parte do texto foi originalmente publicada em maio de 2019, na ocasião dos 75 anos de Sicupira, e reeditada

Em 12 de maio de 2019, a Arena da Baixada se adornou de maneira especial. Centenas de torcedores usaram bigodes postiços, enquanto outras tantas homenagens foram realizadas nas arquibancadas e no campo. O carinho não era destinado a um personagem qualquer: os rubro-negros celebravam os 75 anos de Barcímio Sicupira Júnior, maior artilheiro do Athletico Paranaense em todos os tempos e considerado por muitos também como o maior ídolo do clube. Uma lenda que escreveu sua história não apenas nos gramados, mas que também se misturava à própria multidão como um torcedor. Dias antes, pela Libertadores, ele estava no setor visitante da Bombonera apoiando o Furacão, como um a mais, mesmo sendo o maior. Era isso que a lenda representava: a dedicação incondicional, que não se resumiu aos lances mágicos e à raça em campo. É assim que Sicupira seguirá adorado por todo o sempre, depois de sua triste perda neste domingo, falecido aos 77 anos.

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Nascido em 10 de maio de 1944, Sicupira cresceu em Curitiba. Tinha um grande incentivador em sua própria casa: o pai, apaixonado por futebol e ansioso por ter um filho jogador. “Eu jogava porque tinha prazer de jogar. Qualquer peladinha eu queria fazer gol. Foi assim desde o começo da minha vida até o fim da minha carreira”, relatou à Tribuna do Paraná, em 2018. “Um dos primeiros presentes que o meu pai me deu foi uma bola. Eu amava tanto o futebol que eu vivia com uma bola no pé. Meu irmão até para andar pisava torto, então meu pai quando viu que eu tinha jeito, me incentivou”. Já à Placar, ainda na década de 1970, o então atleta brincou: “Meu pai gosta tanto de futebol que meu primeiro sapato foi uma chuteira”.

A estreia do garoto na Baixada aconteceu quando tinha somente 11 anos. Na época, o Athletico realizava torneios a equipes infantis em seu estádio e o guri pôde aproveitar a experiência. No entanto, seu coração era justamente do rival, o Coritiba. Vizinho de Fedato, o menino se deslumbrava com um dos maiores ídolos da história do Coxa. Passou a frequentar o Alto da Glória e jogava nas escolinhas do clube. Só que o rapaz franzino não foi aproveitado nas categorias de base alviverdes e, time onde seu pai trabalhava, terminou no Ferroviário – força da capital na época e uma das agremiações que dariam origem ao atual Paraná Clube. Vestiria a camisa 9 do Boca Negra, apresentando a sua ousadia nos arremates e a sua qualidade técnica.

O prodígio não demorou a destacar-se no Ferroviário. Logo na estreia, anotou três gols contra o Operário. Já em seu tento mais célebre, aplicou chapéus em três defensores sem deixar a bola cair, antes de emendar a canhota às redes. Com tamanha fama, o jovem se transferiu ao Botafogo, após o vice no Paranaense de 1963. Novato em meio a uma porção de feras, o meia defendeu os alvinegros até 1967. Dividiu a cancha com craques do porte de Didi e Gérson, além de muitas vezes substituir Garrincha. Foi a passagem pelo Rio que moldou seu posicionamento, de centroavante a meio-campista, mas sem perder a virtude nas finalizações. Saindo do banco, disputou duas finais do Torneio Rio-São Paulo.

Depois, Sicupira teve uma curta passagem pelo Botafogo de Ribeirão Preto. Tempo suficiente para ficar na história do Pantera, autor do primeiro gol do Estádio Santa Cruz. Abriu o placar na goleada por 6 a 2 sobre a seleção da Romênia, em amistoso. Já em 1968, insatisfeito no interior de São Paulo, decidiu retornar ao Paraná. O craque quase assinou com o Coritiba, mas seu antigo clube do coração levou o negócio em banho-maria. O Athletico demonstrou mais interesse na contratação e acertou com o meio-campista, de volta ao estádio de sua infância.

Sicupira integrou um período importante do Furacão. Naquele ano, os rubro-negros contavam com uma série de veteranos na Baixada. Djalma Santos, Dorval e Bellini encabeçavam o grupo, mas logo o novato deixaria claro seu toque de qualidade. O camisa 8 sabia bater na bola como poucos e tinha uma propensão enorme a anotar golaços. Não à toa, mesmo atuando na faixa central, logo se tornou artilheiro do time. Havia uma enorme pressão sobre os athleticanos, que não conquistavam o Campeonato Paranaense desde 1958. Pois foi graças ao craque de bigodes negros e cabelos longos que os torcedores começaram a acreditar na redenção.

A taça ainda demorou um pouco para vir. Sicupira estreou em setembro de 1968, semanas após a derrota para o Coritiba na final do estadual. Contudo, sua primeira partida deixou a melhor impressão possível: anotou um golaço de bicicleta, determinando o empate por 1 a 1 contra o São Paulo, pelo Robertão. E a proximidade com a massa facilitou sua adoração. “Eu fazia muitos gols, e a torcida gostava disso, então era cumprimentado por todo mundo, era uma sensação ótima. Antes das partidas, assistíamos às preliminares na arquibancada, conversando com os torcedores. Isso criou uma proximidade que não existe mais hoje. Os atletas eram amigos da torcida”, contou ao Globo Esporte, em 2014.

Sicupira, ídolo do Furacão (Foto: Reprodução)

No ano seguinte, ainda não teve sucesso no Paranaense, com a modesta quinta colocação. O fim da espera aconteceu em 1970. Enquanto Djalma Santos era a grande liderança na defesa, Sicupira se encarregava de arrebentar no ataque. O camisa 8 esteve especialmente inspirado durante aquela campanha e anotou 20 gols. Além de ganhar o prêmio de artilheiro, teve sua maior recompensa com a taça de campeão, aquela que encerrou o hiato de 12 anos na Baixada. Já seria o suficiente para colocá-lo como um gigante na história do Furacão, por toda a sua representatividade.

Curiosamente, aquela seria a única taça de Sicupira no estadual. Continuava destruindo na Baixada, mas sua fase excepcional coincidiu com o início da hegemonia do Coritiba em 1971. Os alviverdes emendariam o hexacampeonato paranaense naquele período, com um time fortíssimo. Os gols empilhados pelo camisa 8 rubro-negro não seriam suficientes. Em 1972, ele melhorou ainda mais sua marca. Chegou a balançar as redes 29 vezes no estadual. Não bastou para ir além do vice, em finais apertadas. Durante o segundo semestre, o meia deixaria o Furacão brevemente, passando alguns meses emprestado ao Corinthians. Apesar dos poucos jogos com a camisa alvinegra, foi fundamental na campanha pelo Brasileirão de 1972, anotando o gol que valeu uma vaga nas semifinais.

Sicupira logo voltou a Curitiba e permaneceu como a referência do Athletico até 1976. Naquela temporada, aos 32 anos, decidiu pendurar as chuteiras. Estava insatisfeito com as promessas que não eram cumpridas pela diretoria athleticana, sobretudo com os atrasos salariais. “Simplesmente resolvi parar, sem um jogo de despedida, sem nada. Não tenho nada pra falar contra a instituição – nem contra a torcida que sempre me tratou muito bem. Tenho sim contra algumas pessoas que passaram pelo clube. Mas a gente passa e o Athletico fica, eu sou muito grato a esse clube. O Athletico faz parte da minha vida”, declarou, em 2011, durante uma conversa com torcedores athleticanos.

Os 157 gols de Sicupira com a camisa rubro-negra permanecem até hoje como uma marca inalcançável. A torcida athleticana vibrou com muitos atacantes nas décadas seguintes. Washington, Assis, Oséas, Paulo Rink, Alex Mineiro, Washington Coração Valente, Kléber Pereira, Nikão e ainda outros eternizaram os seus nomes na Baixada. Nenhum deles capaz de repetir a fome de gols do antigo “Craque da 8”, como é carinhosamente chamado pelos fãs.

Enquanto ainda jogava, Sicupira conciliou os treinos com os estudos e se formou em Educação Física pela UFPR, em 1971. Chegou a lecionar em escolas da capital, mesmo na ativa com o Athletico Paranaense. Depois da despedida dos gramados, todavia, manteve sua fama como comentarista esportivo no Paraná – sobretudo nos microfones da Rádio Banda B. E também permaneceu como um enorme embaixador do Athletico, por mais que não fosse necessariamente próximo de alguns dirigentes.

Em 2019, numa homenagem mais do que justa, Sicupira nomeou um dos turnos do Campeonato Paranaense. Enquanto a Taça Dirceu Krüger relembrou o maior ídolo do Coritiba, a Taça Barcímio Sicupira Júnior era a digna honra à lenda athleticana – que entregou o troféu ao Toledo. Dois velhos adversários em campo e amigos fora dele. Depois dos clássicos, Sicupira e o Flecha Loira muitas vezes se encontraram e tomaram cerveja juntos. Representavam a grandeza do futebol na cidade, com a fraternidade acima da rivalidade. E o “Parabéns pra Você” cantado na Arena da Baixada em maio daquele ano, aos oito minutos, ficou na lembrança do veterano ao completar seus 75 anos. O reconhecimento em vida de toda a sua grandeza.

Já neste domingo, de maneira solene, o Athletico Paranaense mudou seus símbolos para se despedir de Sicupira. O escudo do Furacão ganhou um singelo bigode e a camisa 8 do craque indica o infinito, da memória que resistirá. A notícia do falecimento foi confirmada durante a vitória sobre o Red Bull Bragantino, em Bragança Paulista, mas os jogadores ainda fizeram uma oração nos vestiários depois do encontro. Nesta segunda, o velório ocorrerá naquela que foi a segunda casa do ídolo: a Baixada. Uma figura que representa além de seu talento dentro de campo e que continuará sendo venerada, porque seu amor pelo Furacão transcendeu.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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