Brasil

Os 70 anos do falecimento de Cardeal, uma lenda quase esquecida do futebol brasileiro

Por Vlademir Lazo*

Há muitos craques brasileiros da primeira metade do século passado cujas memórias permanecem relegadas ao ostracismo. Um deles é uma lenda quase esquecida, Sezefredo Ernesto da Costa, o Cardeal. Em seu tempo reconhecido de norte a sul, e um orgulho para os gaúchos, respeitado pelos paulistas, e amado pelos cariocas.  Por longos anos foi considerado o maior jogador surgido no Rio Grande do Sul. Oswaldo Brandão, durante uma de suas primeiras passagens como técnico da seleção brasileira, chegou a invocá-lo como o maior que houvera no Brasil em uma entrevista pouco antes do surgimento da era Pelé.

O clássico Gigantes do Futebol Brasileiro, de João Máximo e Marcos de Castro, dedica-lhe ao menos um parágrafo destacando as suas qualidades. Mario Filho dizia que Cardeal dignificara o profissionalismo no país, depois de quase uma década de luta pela sua implantação contra os defensores do regime amador. E que era difícil encontrar um centroavante com tantos recursos, com tanta inteligência, e que ele tinha tudo para ser um rei da posição, não fossem os problemas físicos e de saúde.

Sezefredo nasceu em 7 de novembro de 1913, em Santa Vitória do Palmar, interior gaúcho, na fronteira com o Uruguai, município que hoje ostenta seu busto esculpido em bronze, na entrada do ginásio que leva o seu nome. Iniciou seus primeiros passos no futebol ainda na adolescência, no Esporte Clube Santa Cruz, transferindo-se depois para o Grêmio Sportivo Brasil, ambos de sua cidade.

Alto e esguio, tinha um fino bigode que lembrava Zorro, e geralmente com uma boina vermelha – daí o apelido –, e depois uma rede na cabeça da mesma cor, que era usada por muitos que praticavam o futebol na época. O talento o levou em 1933 para o 9º Regimento de Infantaria do Exército, um time de soldados conhecido apenas por Regimento, um dos clubes que buscava romper a supremacia absoluta da dupla Bra-Pel (Brasil e Pelotas) nos últimos dez anos no campeonato de futebol da cidade de Pelotas. A estratégia do Regimento era convidar jovens talentos dos municípios vizinhos para o serviço militar e engrossar as fileiras de sua equipe esportiva.

Cardeal, em cima, à direita

O plano funcionou, e ninguém brilharia mais no futebol de Pelotas do que Cardeal. No ano seguinte a sua chegada, num confronto decisivo contra a equipe do Pelotas na reta final do campeonato da cidade, o jogo seria suspenso depois de confusão e invasão de campo quando da marcação de um pênalti contra o Regimento no último minuto. Dias depois, a Liga municipal deliberou pela cobrança do pênalti, o que poderia decidir o campeonato a favor do Pelotas em caso de gol. A cidade entrou em ebulição.

O batedor do pênalti seria o atacante João Pedro, conhecido como “Canhão Pelotense”. Cardeal chamou o goleiro Brandão (que anos depois seria contratado pelo Botafogo do Rio de Janeiro) para um canto e lhe prometeu: “Vamos treinar até tu pegares todas!”. Foram muitos dias ensaiando cobranças de todo tipo. Bolas chutadas de tudo quanto é jeito. Cardeal atuava como um verdadeiro preparador de goleiros.

Até chegar o momento da decisão. Estádio quase lotado, os dois times uniformizados, bem como os bandeirinhas e o juiz, que colocou a bola na marca, sob grande expectativa, para a cobrança da penalidade. O livro “O Futebol em Pelotas”, de Eliseu de Mello Alves, conta que o vento de primavera chegou a deslocar a bola do lugar e João Pedro tornou a arrumá-la. O goleiro Brandão saiu rápido da meta e foi cumprimentar o adversário, o que provocou aplausos do público. O Canhão Pelotense se preparou, correu e chutou com força e … Brandão defendeu!

O Regimento ganharia aquele e os outros dois campeonatos seguintes, tornando-se tricampeão da cidade sob o comando de Cardeal. No primeiro ano, foi vice-campeão gaúcho, perdendo por 1 x 0 para o Internacional, em Porto Alegre, sob uma atuação discutível do árbitro que marcaria um pênalti até hoje contestado pelos pelotenses e que resultaria no gol do título colorado. Dentre tantos ânimos exaltados, ficou a história de que ao fim da partida, Cardeal teria pego a bola e se dirigido ao juiz: “Voltaremos o ano que vem e passaremos por cima de qualquer um”.

E o Regimento chegou à final contra o poderoso Grêmio no campeonato gaúcho de 1935, no ano em que se disputava o Campeonato Farroupilha, em comemoração ao centenário da Guerra dos Farrapos. Foram três jogos em Porto Alegre. No primeiro, o Grêmio do zagueiro Luiz Luz e do meia Foguinho venceu por 3 x 1. O Regimento ganharia o segundo, por 3 x 0, e a finalíssima, por 2 x 1, com um dos gols marcados por Cardeal. O título foi tão marcante que alguns anos depois o clube mudou de nome e passou a se chamar Farroupilha.

Cardeal foi convocado para a Seleção Gaúcha, num tempo em que o campeonato brasileiro era disputado por seleções estaduais. Ganhavam sempre os paulistas ou os cariocas. O selecionado gaúcho até então jamais conquistara uma vitória sequer sobre ambos. O campeonato de 1936 teve alguns jogos em Porto Alegre. Cardeal foi o destaque da competição e tido como a maior revelação do futebol do país naquele ano. Depois de desclassificar a poderosa seleção carioca com Leônidas da Silva, o Rio Grande do Sul foi à final com São Paulo.

No primeiro jogo, em Porto Alegre, ganharam os gaúchos por 2 x 1. Cardeal fez o gol da vitória, durante anos cantado em prosa e versos até mesmo em poema da época. Os paulistas venceriam em São Paulo, e no jogo-desempate no Rio de Janeiro, onde foram campeões, com Cardeal fazendo o gol de honra e sendo aclamado, depois de avançar numa jogada toda pessoal, correndo célere para o gol, desvencilhando-se da defesa paulista, que não o alcança e inutilmente tenta lhe atravancar o caminho, até o centroavante gaúcho num chute bem colocado aninhar a bola no fundo da rede.

O time do Sul-Americano de 1937

Os quatro grandes clubes do Rio de Janeiro tudo fizeram para contratá-lo. O Nacional e o Peñarol brigaram pelo seu passe. Cardeal foi convocado para jogar o Campeonato Sul-Americano (atual Copa América), realizado em Buenos Aires, competição que a seleção brasileira voltava a disputar depois de mais de uma década ausente. Disputando a concorrência pesada de outros grandes centroavantes brasileiros da época, foi guardado para o final, quando disputou os dois jogos decisivos contra a Argentina, que apresentava a que viria a ser a melhor geração de futebolistas de sua história.

A final entre os dois países se tornaria lendária, um jogo bastante conturbado em que a violência correu solta, com brigas em campo e intervenções da polícia, e os donos da casa vencendo por 2 x 0 na prorrogação.  Cardeal saiu carregado de maca pouco antes do jogo acabar. A El Gráfico destacaria: “De los centrares, el mejor resultó Cardeal”. Uma partida histórica que faria nascer a rivalidade Brasil x Argentina, depois de muitos anos de inimizades com as duas seleções preferindo não se enfrentarem, sendo que até então as maiores rivalidades do continente eram entre argentinos e uruguaios, e destes com os brasileiros.

Valorizadíssimo, Cardeal, em uma transação milionária, foi para o Nacional do Uruguai. Virou ídolo por lá, mas foi quando começaram os seus problemas físicos e de saúde. Boêmio, com uma facilidade e aptidão incríveis para tudo quanto é jogo, desde o pano verde da sinuca até as casas de jogatina e carteado onde varava noites, não se sabendo exatamente quando passou a conviver com o fantasma da tuberculose.

Jornais exaltam Cardeal

Sofreu também com a violência dos adversários, que não conseguiam o parar dentro das quatro linhas, sobretudo depois da transição do regime amador para o profissionalismo, quando as partidas se tornaram ainda mais acirradas. Foi vice-campeão uruguaio, com o título escapando de seu clube nas últimas rodadas, porém deixando grandes recordações.

O então juvenil Luis Ernesto Castro, que seria um dos astros da melhor fase do Nacional e da seleção uruguaia pelas décadas de 40 e 50, no mais insuspeito dos depoimentos, por não se tratar de uma matéria sobre o centroavante gaúcho ou sobre o futebol brasileiro, e sim numa homenagem a ele próprio, depois de citar alguns dos principais atacantes que vira ou com quem jogara, concluiu: “Tive a sorte de ver Cardeal jogar, e se esse homem tivesse vindo dez anos antes de quando veio, velho e doente, teria sido um professor de futebol, dando aulas”.

No ano seguinte, foi negociado com o Fluminense, que reunia as maiores estrelas da época e base da seleção brasileira. Era nome certo para a Copa de 1938, e foi requisitado pela CBD para os treinamentos, mas chegou doente e impedido de jogar pelo Departamento Médico. Uma ausência bastante sentida em sua carreira. A seleção brasileira viajaria com dois centroavantes, Leônidas, que se consagraria no Mundial, mas não suportando a sequência de jogos desfalcou na semifinal contra a Itália (verdadeira final antecipada), e Niginho, também um craque, mas que por ter fugido do futebol italiano dois anos antes (para não ser recrutado pelo exército do ditador Benito Mussolini), foi impedido de entrar em campo na Europa depois dos protestos da Federação Italiana que reclamava o seu passe. O que levou à improvisações forçadas no ataque do Brasil que não teriam resultados frutíferos. Com Cardeal em campo, é possível que a história tivesse sido diferente.

Cardeal, pelo Fluminense

O Fluminense tudo fez para recuperar a sua saúde física. Cercou-lhe de todos os cuidados e esforços, e o jogador ganhava um dos dois ou três maiores salários dentre os atletas do país sem poder manter uma sequência de jogos. Mario Filho dizia que o caso Cardeal dignificara o profissionalismo brasileiro, porque até então um jogador que caísse enfermo ou parecesse inutilizado pelo futebol, simplesmente era abandonado ou teria seu contrato rescindido, o que gerava um pânico nos futebolistas.

Com Cardeal ocorria uma mudança profunda, com o clube amparando o atleta e não lhe deixando faltar nada mesmo sem saber quando poderia vir a contar com ele, e também continuando a pagar seus altos salários. O que honrava e humanizava a relação atleta e entidade esportiva para além dos rendimentos que se podia extrair dentro de campo. Sua estreia no tricolor levou alguns meses para acontecer, sendo diversas vezes adiada.

Quando finalmente vestiu a camiseta do Fluminense em campo, marcou o gol do time numa derrota de 3 x 1 para o Botafogo, pelo Torneio Municipal. No jogo seguinte, num dos Fla-Flu que costumavam incendiar o mundo esportivo carioca, contribuiu para a vitória da sua equipe por 3 x 0, e foi marcado por Fausto dos Santos, outra lenda da época e das vítimas mais tristes e famosas do futebol brasileiro.

Cardea,l porém, sofreria uma contusão no joelho num choque casual, mas desastrado, com o argentino Válido, que se desesperou e saiu chorando de campo. Cardeal permaneceria um ano sem jogar, retornando num amistoso contra a seleção de Niterói, marcando gol e sendo substituído pelo ídolo Preguinho, que também anotaria o seu e anunciaria após a partida a sua despedida do futebol. Cardeal atuaria pelo campeonato carioca numa derrota por 3 x 0 para o Bonsucesso treinado por Gentil Cardoso, e numa vitória pelo mesmo placar sobre o Bangu, atuando de maneira receosa, fugindo das divididas e dos confrontos pela bola, mas quando esta chegava a seus pés, sabia o que fazer com ela, contribuindo para as jogadas que resultavam nos gols de sua equipe. Ao final do ano, foi vetado em definitivo pelo Departamento Médico da Liga Carioca, em decisão do famoso médico Lelio de Castro, sob protestos do Fluminense, que defendia a possibilidade de uma recuperação mais plena à longo prazo sob os seus cuidados.

Determinado a continuar no futebol, voltou ao sul e ao Regimento, que depois virou Farroupilha. Já não era mais o mesmo jogador, nem sempre conseguindo manter uma sequência de jogos ou correspondendo às expectativas da torcida. Continuava evitando as divididas, e num tempo em que o futebol não era tão dinâmico, passou a correr ainda menos que os demais, diversas vezes brilhando ou sendo decisivo quando a bola chegava aos seus pés. Já não corria sequer para comemorar os seus gols, apenas caminhando lentamente e retirando a boina vermelha quando a ostentava em saudação ao público.

Levou o Farroupilha a mais um título no citadino de Pelotas, em 1943, e à semifinal do campeonato gaúcho contra o Rolo Compressor do Internacional, num jogo de alto placar, 8 x 5, e cheio de alternativas. No mesmo ano, a seleção gaúcha perdera um primeiro jogo para os baianos por 3 x 0, e precisava vencer a segunda partida ao menos para se confirmar como a terceira força no futebol brasileiro. Adãozinho, renomado craque colorado, adoeceu inesperadamente, e Cardeal foi chamado, depois de anos de ausência no selecionado. Tomou um avião para São Paulo, mesmo com um quadro avançado de doença pulmonar, e com somente uma perna boa para o futebol, na última de suas grandes atuações, marcou dois dos gols que valeram a classificação dos gaúchos em jogo no Pacaembu. Pouco depois encerraria a sua carreira.

Em 1949, demasiado doente, sem esperanças, encontrava-se internado num hospital de Montevidéu, com ajuda financeira do Nacional. Do Brasil, houve o recolhimento de doações em seu auxilio, sob a liderança de Leônidas da Silva, durante os treinos da seleção brasileira para o Sul-Americano. O Sindicato dos Atletas Profissionais de São Paulo, bem como a Federação Gaúcha de Futebol, também enviaram préstimos em dinheiro. Mas o mal há muito estava incrustado em seus pulmões, e o antigo craque faleceria em 4 de agosto daquele ano. Todo o seu tratamento, assim como o enterro, foi pago pelo Nacional, num gesto de reconhecimento e gratidão ao seu antigo grande jogador.

*Vlademir Lazo é escritor e pesquisador, autor de “Cardeal – O Guerreiro do Futebol” (no prelo). E-mail: [email protected]

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