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Os 70 anos de Zico: 20 atuações marcantes que exaltam a excelência do Galinho pela Seleção

Diante do aniversário de 70 anos de Zico, apresentamos uma coleção de exibições inesquecíveis do craque com a camisa do Brasil

“Fintou, ganhou, invadiu… Olha o gol, olha o gol… Gol! Gooooooooooooooooooool! Não há palavras pra descrever o gol de Zico! É de placa, é de placa, é de placa! Ele é fenomenal! Ele é gênio, gênio, gênio. Impressionante, Zico!”

A narração inesquecível de Luciano do Valle é um dos marcos da grandeza de Zico pela Seleção. O camisa 10 disputou 71 partidas oficiais e anotou 48 gols, ainda hoje a quinta maior marca da história da Canarinho. Só ficava atrás de Pelé e, desde então, apenas Romário, Ronaldo e Neymar o ultrapassaram. O Galinho de Quintino protagonizou momentos geniais e vitórias sublimes, em tempos nos quais servia como um símbolo da arte do Brasil no futebol. Porém, também é natural que sua relação com a amarelinha seja contada a partir das Copas do Mundo. Justamente a grande lacuna na história do craque.

Zico não foi bem na Copa de 1978, quando até perdeu a posição. Seria um dos melhores do torneio em 1982, presente em vários dos times ideais eleitos por especialistas, mas a frustração no Sarrià é dolorosa – quando o craque atuou no sacrifício e ainda assim deu uma assistência sublime. Já em 1986, quando o veterano lutava contra seu corpo, o pênalti perdido no tempo normal contra a França basicamente encerraria sua trajetória na Seleção. Uma caminhada que, apesar disso, teve bem mais partidas excepcionais, gols mágicos e um magnetismo que o tornava expoente mesmo dentro de uma geração tão talentosa.

No dia em que Zico completa 70 anos, relembramos 20 grandes atuações do Galinho pela Seleção. Foram considerados apenas os jogos oficiais contra outras seleções nacionais, sem contar duelos contra combinados ou clubes. A lista inclui somente a equipe adulta do Brasil. Valorizamos não apenas o peso das ocasiões, mas também o nível apresentado pelo craque – com base nas notas dadas pelo jornal O Globo na época. Há uma coleção de vitórias inesquecíveis, mesmo em amistosos e competições continentais. E a Copa do Mundo ainda ofereceu partidas maiúsculas do craque – mesmo quando a Seleção sucumbiu. Cabe dizer ainda que nem todos os gols mais bonitos foram contemplados, por isso vale conferir o vídeo com os 48 tentos de Zico pela seleção brasileira, postado ao final do texto.

Uruguai 1×2 Brasil, fevereiro de 1976

Zico estreou pela seleção principal às vésperas de completar 23 anos. Era apenas um duelo pela efêmera Copa do Atlântico, mas a ocasião se fez grandiosa: um desafio contra o Uruguai em pleno Estádio Centenário, que dentro de cinco anos tanto representaria à carreira do Galinho, na conquista da Libertadores pelo Flamengo. E ele seria um claro protagonista na vitória do Brasil por 2 a 1, com contornos épicos. A Seleção de Oswaldo Brandão tinha Rivellino como capitão e grande referência, mas muitos novatos. Nelinho e Marinho Chagas possuíam um pouco mais de rodagem, enquanto Zico acumulava a primeira chance ao lado de nomes ascendentes como Waldir Peres, Chicão e Lula. Já o Uruguai, também com um time relativamente jovem, reunia Darío Pereyra e Fernando Morena entre suas figuras de maior relevo.

Quatro dias antes, o Brasil havia empatado com a seleção brasiliense com Geraldo Assoviador no meio-campo. A promessa rubro-negra daria espaço a Zico contra o Uruguai e o Galinho vestiu a camisa 8, com a 10 de Rivellino. Não sentiu a ocasião. “Já nos primeiros minutos de jogo, Zico demonstrou que sua entrada faria crescer a seleção. Sua movimentação constante entre o meio-campo e o ataque, os passes precisos e a vontade com que procurava o jogo criavam novas opções para a equipe brasileira”, descreveu o jornal O Globo. Durante o primeiro tempo, o craque deu um passe para Rivellino acertar a trave, sofreu a falta que gerou o gol de Nelinho e testou o goleiro Héctor Santos.

A partida seguiu para o intervalo empatada, com falha de Waldir Peres no gol do Uruguai. E a situação ia se complicando. A virada da Celeste era mais madura, enquanto Nelinho e Rivellino foram expulsos pela rigorosa arbitragem. Mesmo com nove, a Seleção seguiu lutando, muito graças às tentativas de Zico. E, aos 39 minutos, uma falta sofrida por Palhinha no bico esquerdo da grande área foi a chave para o Galinho. O craque bateu uma bola no capricho, com curva, que venceu de novo o goleiro Santos. No fim, Zico ainda forçou a expulsão de Nil Roque Chagas, segurado pelo adversário após aplicar um chapéu.O jornal O Globo deu nota 10: “Foi, ao lado de Rivellino, a grande figura da equipe. No segundo tempo, principalmente depois de o time estar com nove jogadores, cresceu muito, mostrando disposição de veterano numa seleção. Fez um belíssimo gol de falta, decidindo a partida”.

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Argentina 1×2 Brasil, fevereiro de 1976

O Brasil continuou em excursão e, apenas dois dias depois, já estava em campo para encarar a Argentina no Monumental de Núñez, pela Taça do Atlântico. Geraldo voltava ao time no lugar de Rivellino, mas quem vestiu a 10 com méritos foi Zico. Já a Albiceleste reunia diversos jogadores que logo conquistariam a Copa do Mundo, entre eles Mario Kempes e Alberto Tarantini, além de alinhar também Ricardo Bochini entre os titulares de César Luis Menotti. Era outro embate titânico que Zico conseguiu colocar no bolso, independentemente da pressão dos adversários. Outra vitória da Seleção por 2 a 1.

Melhor de início, o Brasil abriu o placar com o ponta Lula e depois caiu de ritmo. A Seleção dependia da individualidade e tantas vezes a resposta era com Zico. Entretanto, a Argentina era melhor e desperdiçava seguidas chances de empatar, ora pela falta de pontaria, ora pelas grandes defesas de Waldir Peres. E, diante da inaptidão da Albiceleste, Zico ampliou aos 21 do segundo tempo. Foi outra cobrança de falta imparável, desta vez do lado direito da grande área, com o chute no ângulo oposto que deixou o goleiro Ricardo La Volpe estático. Somente depois disso é que os argentinos descontaram, num pênalti convertido por Kempes, mas não foram além.

Zico recebeu outra nota 10 no jornal o Globo: “Mais uma vez, o grande jogador do Brasil. Ficou isolado no ataque durante o primeiro tempo, quando o meio-campo foi envolvido pelos adversários. Mas criou jogadas individuais de grande perigo. No segundo, recuou e lutou bravamente, com a categoria de um verdadeiro craque. Fez um gol maravilhoso”. O periódico elogiava ainda como o Galinho foi ótimo mesmo fora de posição, jogando como homem mais adiantado no ataque. Movimentava-se bastante e deslocava a defesa com isso. Depois, com a entrada de Palhinha, é que o camisa 10 recuou à sua posição original e fez o time melhorar. Chegou a receber aplausos da torcida no Monumental, ao aplicar um lençol em Bochini. “De resto, Zico, novamente um portento, alternando dribles curtos e longos, atacando e defendendo, abrindo e ocupando espaços e mais uma vez fazendo o gol da vitória. Se antes Brandão tinha que encontrar um lugar para Rivellino, agora ele tem outro jogador com vaga certa, na frente ou atrás”, escreveu o colunista Sérgio Noronha.

Brasil 2×1 Uruguai, abril de 1976

A estreia de Zico com a camisa da Seleção dentro do Maracanã aconteceu ainda pela Taça do Atlântico, no reencontro com o Uruguai. Brandão tinha mais alguns novatos que ganhavam cancha, como Toninho, Gil, Enéas e Roberto Dinamite. De novo, o Brasil se mostrou forte o suficiente para derrotar a Celeste por 2 a 1, mesmo sem atuar tão bem. E quem causou um impacto tremendo foi Zico, outra vez. De volta com a 8 por causa da companhia de Rivellino, o craque desfilou em campo, com várias jogadas de efeito. Uma pena que a ocasião acabe muito mais lembrada pela enorme pancadaria no final, protagonizada pelo uruguaio Sergio Ramírez.

Logo de cara, Zico entortou Ramírez na ponta direita e cruzou para uma cabeçada por cima de Enéas. O camisa 8 distribuía passes com muita facilidade, alguns deles de trivela. Os melhores lances do Brasil vinham com o camisa 8, entre tabelas e sequências de dribles, sem que os companheiros aproveitassem. As finalizações do meia, porém, também não estavam calibradas no primeiro tempo. E Daniel Torres deu a vantagem ao Uruguai, com direito a vaias dos torcedores à Seleção. Durante o segundo tempo, as chegadas do Brasil se tornaram mais contundentes. Zico continuava fazendo estrago, limpando os marcadores com enorme facilidade em seus dribles. O empate saiu num chute potente de Rivellino. Já a virada foi num pênalti sofrido por Dinamite, que Zico guardou.

No final, o lance que deixou os uruguaios possessos foi protagonizado por Zico. O craque recebeu uma bola no meio do campo e começou a fazer fila. Conseguiu passar por quatro e, na entrada da área, recebeu um carrinho violento de Ramírez. Rivellino foi tirar satisfação e, depois do apito final, o defensor saiu correndo para bater em Riva, o que desencadeou a pancadaria. Zico já tinha saído contundido e precisou fazer uma radiografia, mas por sorte não houve fratura. “Ele entrou violentamente, quando eu me preparava para invadir a área e marcar o gol. Tinha que fazer a falta para evitar que eu concluísse a jogada, mas não precisava bater tão forte. Depois do jogo, quando olhei do túnel do Brasil, todo mundo estava brigando e eu não tinha como entrar, porque a perna doía muito. O Nocaute é que saiu correndo e também entrou na briga”, contou o Galinho na época, mencionando Nocaute Jack, massagista da Seleção que também foi pugilista durante a juventude. Zico de novo ganhou uma nota 10 do jornal O Globo: “O grande destaque da partida, com quatro jogadas individuais maravilhosas, que não foram aproveitadas pelos companheiros. Ele é o organizador do time, o jogador que procura tocar a bola de primeira e distribuir o jogo”.

Brasil 4×1 Itália, maio de 1976

A Seleção conquistou a Taça do Atlântico com uma campanha praticamente impecável, somando cinco vitórias e um empate. Outro título faturado pelo Brasil em 1976 veio no Torneio Bicentenário, organizado nos Estados Unidos para comemorar o aniversário da independência. Os brasileiros venceram seus três compromissos na competição, que incluía também Inglaterra, Itália e “Team América” – o combinado com os melhores jogadores da NASL, a liga local. O grande resultado aconteceu diante dos italianos, no duelo que ratificou o troféu no quadrangular: goleada por 4 a 1. Rivellino seguia com a 10 e a faixa, num time que também acrescentava Leão no gol. De qualquer maneira, era um elenco que seguia sua renovação com Falcão, Gil, Roberto Dinamite, Givanildo e, claro, Zico. Passaram por cima de uma Itália que ainda trazia Giacinto Facchetti na defesa, mas já reunia figuras como Dino Zoff, Marco Tardelli, Giancarlo Antognoni e Francesco Graziani – todos futuros titulares no Sarrià.

Apesar da goleada, o Brasil não fez bom primeiro tempo. Fabio Capello abriu o placar logo de cara e Leão evitava uma diferença maior, até Gil empatar. A Seleção melhorou, com participação ativa de Zico nessa reação. E nem a expulsão de Lula atrapalhou. Com um homem a menos, Gil virou no segundo tempo e depois Roberto Bettega foi expulso. A igualdade numérica facilitou ainda mais aos brasileiros. Zico já tinha feito fila numa jogada em que quase marcou, antes de deixar o seu aos 28 minutos. O Galinho passou no meio de três, incluindo o veterano Facchetti, e bateu no canto de Zoff. Por fim, Roberto Dinamite fechou a conta, antes de Franco Causio também ser expulso.

Zico desta vez não foi apontado como o melhor em campo, com Rivellino e Gil mais elogiados. Ainda assim, mereceu uma nota 8 do jornal O Globo: “Muito recuado e longe de suas características no primeiro tempo, foi mais à frente depois e criou várias oportunidades, além de fazer um bonito gol”. Já o Jornal dos Sports avaliava: “Em quatro ou cinco arrancadas, foi o Zico de sempre: habilidoso, ágil, criativo. Fez um e poderia ter marcado outro”. O periódico também fazia a ressalva de que, no primeiro tempo, uma pancada no tornozelo e outra na cabeça deixaram o craque atordoado. Mas, no geral, seu desempenho no Torneio Bicentenário foi abaixo das maravilhas vistas na Taça do Atlântico – algo que o próprio craque reconhecia.

Brasil 8×0 Bolívia, julho de 1977

Com Oswaldo Brandão substituído por Cláudio Coutinho no comando da Seleção, o Brasil cresceu na sequência das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1978. E a partida de números mais dilatados de Zico pela equipe nacional aconteceu nesta campanha, nos impiedosos 8 a 0 sobre a Bolívia realizados em Cali, na Colômbia. O 11 inicial brasileiro dispunha de figuras mais experientes, como Luis Pereira, Zé Maria e Leão, além do onipresente Rivellino – que, com 107 partidas (oficiais e não oficiais) pela Canarinho, igualava o recorde mundial de Bobby Moore por equipes nacionais. Zico chegava a 16 aparições com a amarelinha e liderava uma geração acrescida de Roberto Dinamite, Dirceu, Reinaldo e Toninho Cerezo. A Bolívia treinada por Wilfredo Camacho sofreu naquela noite.

Foi o jogo que selou a classificação do Brasil para a Copa do Mundo. A Seleção foi elogiada pelo futebol veloz e também objetivo, com muita seriedade diante da Bolívia. Zico resumiu esse espírito. O primeiro gol do craque saiu numa cobrança de falta, com colaboração do goleiro Carlos Jiménez. Logo depois, o Galinho assinou uma pintura, em chute violento de fora da área, desta vez indefensável. Zico deu o terceiro de presente para o amigo Dinamite, numa tabela belíssima por elevação. E um cruzamento de Zico para Luis Pereira gerou o quarto, de pênalti, cobrado pelo próprio Zico. No segundo tempo, o Galinho começou com uma assistência para Gil, em passe na medida por baixo. Zico tabelou com Rivellino no sexto, com um chute do jovem que beliscou a trave. O sétimo, de Cerezo, foi num rebote do chute de Zico. O craque só não participou do oitavo, porque já tinha saído de campo. Mas foi justamente seu substituto, Marcelo Oliveira, quem guardou após receber de Reinaldo.

Zico saiu de campo ovacionado pela torcida colombiana e, depois da partida, desabafou: “Vinha recebendo críticas que me desagradavam. Diziam que eu não marcava, que me limitava aos lances de área e outras coisas que nem quero repetir. Mas contra a Bolívia provei que também posso participar do bloqueio e ao mesmo tempo ter presença na área adversária. O que querem mais? Fiz quatro gols e participei de outros. Estou realizado”. Obviamente, recebeu uma nota 10 do jornal O Globo: “Pefeito. Autor de quatro gols, teve participação direta em mais três”.

Brasil 6×0 Paraguai, maio de 1979

Zico não foi bem na Copa do Mundo de 1978. Seu lance mais lembrado aconteceu na estreia contra a Suécia, com o infame gol não validado depois que o árbitro apitou o fim do jogo com a bola no ar, após uma cobrança de escanteio. O Galinho perdeu a posição e seria limitado ao segundo tempo das partidas, com seu único gol de pênalti, na segunda fase, diante do Peru. O início de sua recuperação aconteceu no primeiro compromisso do Brasil depois do Mundial, quase um ano depois, em maio de 1979. Cláudio Coutinho iniciava o novo ciclo, num time que promovia as estreias de Júnior, Sócrates, Nílton Batata e Éder. Falcão e Carpegiani eram outras figuras importantes nesta nova etapa, com Leão servindo de nome mais experiente. Zico vestia a 10 sem empecilhos, após o adeus de Rivellino. O Galinho fez o Paraguai de sparring no amistoso dentro do Maracanã, mesmo com parte da base guarani que seria campeã da Copa América meses depois.

O Brasil jogou por música no primeiro tempo. O entendimento entre os ases de 1982 seria imediato e gerou o primeiro gol. Zico lançou Sócrates, que serviu a conclusão de Éder. O Galinho se encarregou do segundo, de pênalti. E a verdade é que o placar já poderia ter se transformado em goleada, não fossem as repetidas chances desperdiçadas pela Canarinho, por puro preciosismo. Foi só no segundo tempo que o massacre se delineou. Nilton Batata anotou um golaço por cobertura, antes de Zico fazer mais um, num rebote do goleiro Gato Fernández. Nilton Batata assinalou outro, enquanto coube a Zico fechar a contagem e completar sua tripleta. Foi uma pintura do craque, que passou por três, inclusive pelo goleiro Gato Fernández, antes de bater às redes vazias.

Presidente da CBD, Heleno Nunes elogiava Zico depois da partida: “Esse menino é um craque inigualável. Fala outra língua dentro de campo. Difícil é encontrar quem esteja à altura de dialogar com ele”. Já o Galinho exaltava o entendimento com os novos companheiros: “O mais importante é que esse novo meio-campo nos dá muitas opções de jogadas. Todo mundo sabe concluir e armar, o que dificulta a marcação adversária. Foi isso que faltou na Copa. Eu e Reinaldo ficamos isolados no ataque e acabamos presas fáceis para os zagueiros europeus”. No jornal O Globo, Zico levou nota 9,5, a mesma de Falcão como melhores em campo: “Zico marcou três gols e, no último, mostrou toda sua categoria, quando driblou o zagueiro e o goleiro. Ainda realizou outras jogadas e iniciou a do primeiro gol”.

Brasil 2×1 Argentina, julho de 1979

A Copa América de 1979 não traria grandes lembranças ao Brasil, com o troco do Paraguai nas semifinais, as quais Zico não jogou. No entanto, a Canarinho deixou pelo caminho na fase de grupos do torneio a Argentina. Era uma equipe renovada da Albiceleste, é verdade, sem a maior parte dos campeões mundiais no ano anterior. Mas contava com Daniel Passarella e com um garoto chamado Diego Armando Maradona. No embate entre os camisas 10, o Galinho se deu melhor na vitória por 2 a 1 no Maracanã. Cláudio Coutinho promovia outros novatos na Seleção, entre eles Tita, Zenon, Zé Sérgio e Juary. Coube ao camisa 10 orquestrar a equipe.

Por ser um time do Brasil sem os eventuais titulares, a atuação morna foi poupada pela crítica. Zico fez a diferença desde cedo, diante de 120 mil no Maracanã. O Galinho abriu o placar logo aos três minutos, depois de um presentaço de Zé Sérgio. Maradona causava perigo constante e a Argentina conseguiu o empate na sequência do primeiro tempo, com Hugo Coscia. O gol da vitória do Brasil surgiu apenas na etapa final, e com a assinatura do Flamengo. Tita avançou pela ponta esquerda, recebeu uma magistral devolução de Zico no meio dos beques e deu um lindo toque por cobertura.

Zico ganhou nota 8 do jornal O Globo, abaixo de Amaral e Leão no Brasil, que seguraram as pontas diante das dificuldades impostas por Maradona: “Como atacante foi muito bom. Marcou um gol logo no início graças ao oportunismo e deu excelente passe para o gol da vitória. Como apoiador, porém, jogando muito adiantado, esteve sempre mal colocado. Ainda mais porque Carpegiani e Zenon se complicaram durante todo o jogo”. Depois da partida, o Galinho ainda avaliava: “Para uma equipe que só fez um coletivo, acho que fomos muito bem. Joguei mais avançado porque sofri sempre marcação individual e procurei abrir mais espaços. A partir do intervalo, principalmente, acho que melhoramos muito e fizemos um bom jogo. Merecemos ganhar”.

Brasil 6×0 Paraguai, setembro de 1980

A primeira grande atuação de Zico sob as ordens de Telê Santana aconteceu em outubro de 1980, em mais uma pancada para cima do Paraguai, agora no Serra Dourada. Pouco importava que os visitantes tinham acabado de conquistar a Copa América. A Seleção ganhava corpo pensando nas Eliminatórias. Luizinho, Oscar e Júnior formavam a zaga, o meio tinha Batista e Cerezo, Sócrates aparecia adiantado no ataque. Outros como Pita, Tita, Renato Pé Murcho e Reinaldo também estavam em campo. Foi a primeira goleada desde que o novo treinador assumira o comando no início daquele ano.

O Brasil ainda levou um tempo para engrenar, mas Zé Sérgio e Tita (numa cabeçada que acertou o lado de fora da rede, mas entrou por um furo e terminou validada) marcaram os dois primeiros gols após os 30 minutos. No segundo tempo, Zico arrebentou. O terceiro gol já foi lindo, numa jogada fulminante de Zé Sérgio, que rolou para o Galinho fazer fila na área e passar pelo goleiro Gato Fernández antes de guardar. Sócrates marcou o quarto de voleio e o quinto foi de Luizinho, com um fantástico giro. Zico ainda daria o toque final de arte, num chute por cobertura que entrou direto na gaveta. Era como uma cobrança de falta com bola rolando. No banco, Telê sorria.

“Para o segundo tempo, estava reservado o grande show da noite. Um show duplo. Um individual, de Zico, que fez jogadas excepcionais e marcou dois gols de craque. O outro show foi coletivo, de toda a seleção, com jogadas precisas, bem tramadas, velozes, disputadas com empenho e dedicação”, noticiava o jornal O Globo, com nota 10 para Zico. “Excepcional. Fez dois gols fantásticos, cobrou uma falta na trave, foi organizador da maioria dos ataques, criativo e esforçado. Uma atuação para ser lembrada por muito tempo”, avaliaram. O Galinho ainda elogiou o gramado do Serra Dourada, pelas condições que ofereceu à exibição de gala.

Brasil 3×1 Bolívia, março de 1981

O Brasil não teve dificuldades nas Eliminatórias para a Copa de 1982, num grupo que reunia Bolívia e Venezuela. Zico teve sua melhor atuação no qualificatório diante de La Verde, no Maracanã, num triunfo por 3 a 1 no qual o Galinho se encarregou dos três tentos contra a equipe dirigida por Rubén José Saldaña. Zico tinha a companhia de Sócrates e Tita na criação, com Éder e Reinaldo formando mais à frente. Eram testes sem tantos desafios ao time de Telê Santana, diferentemente do que aconteceria dentro de algumas semanas.

Zico abriu a contagem no primeiro tempo, depois de um pênalti sofrido por Reinaldo. Foi uma cobrança segura do camisa 10. Na segunda etapa, o Galinho ampliou. Já tinha iniciado a jogada com uma sequência de dribles e, depois que Reinaldo carimbou o travessão, o craque estava atento na área para emendar uma pancada de primeira. A Bolívia descontou também de pênalti, até que Zico fechasse a contagem na sua especialidade. Falta na entrada da área e o maestro mandou uma parábola perfeita na bola, que caiu diretamente no ângulo. O salto em vão do goleiro Carlos Jiménez tornava tudo mais bonito ainda.

Luis Enrique González, defensor da Bolívia, exaltava o tamanho da atuação do Galinho: “Marquei Zico em 79, na Copa América, e não cheguei a ter grandes problemas. Desta vez, porém, foi horrível. Ele estava impossível”. Segundo o craque brasileiro, o oponente chegou a pedir que ele “parasse um pouco”. Zico afirmaria: “Agora o time está mais entrosado. E fica mais fácil eu trocar de posição e fugir da marcação. Os méritos aí não são meus, são do time”.

Inglaterra 0x1 Brasil, maio de 1981

Após garantir a classificação para a Copa do Mundo, o Brasil partiu em turnê pela Europa numa série de amistosos. Aqueles jogos elevaram a fama do time de Telê Santana, sobretudo pelo alto nível dos adversários. Uma aura que começou a ser construída em Wembley, diante da Inglaterra de Ron Greenwood, que elencava figuras como Ray Clemence, Bryan Robson, Kenny Sansom, Terry McDermott, Ray Wilkins e Peter Withe. Não era a força máxima dos Three Lions na época, especialmente pela ausência de Kevin Keegan, mas ainda assim era um oponente de respeito. Já Telê via seu time cada vez mais próximo do que se imaginava na Copa. Não tinha Falcão, mas o meio reunia Cerezo, Sócrates, Zico e Paulo Isidoro, com Reinaldo e Éder mais à frente.

Aquela foi a primeira vitória da história de uma seleção sul-americana (e, por tabela, do Brasil) em Wembley. A Seleção conseguiu se impor muito rapidamente. O gol precoce de Zico já foi muito bonito. Edevaldo lançou e o Galinho ganhou da marcação dupla numa corajosa dividida. Quando a bola ia escapando, o craque se esticou e emendou um voleio cruzado para vencer Ray Clemence. Reinaldo ainda teve um gol anulado na sequência. Entretanto, o cenário virou e a Inglaterra pressionou bastante. Waldir Peres também teve uma baita atuação, soberano pelo alto. Quando o arqueiro nada pôde fazer, deu sorte e viu uma conclusão de Peter Withe bater na trave durante os minutos finais.

Zico seria elogiado não apenas pela categoria na frente, mas também pela entrega na cobertura, com destaque a um lance em que impediu um ataque promissor da Inglaterra. “É o mesmo Zico que os torcedores admiram no Flamengo, agora preocupado com o jogo coletivo, marcando, brigando pela posse de bola. O Zico que decidiu o jogo”, avaliou o jornal O Globo. O periódico apontou Waldir Peres como melhor em campo, mas Zico também mereceu nota máxima: “Entrou para a história com um belo gol, o da vitória brasileira. E sua atuação, sempre voltada para o jogo coletivo, teve momentos brilhantes. Driblou, marcou, criou, organizou. Nota 10”.

França 1×3 Brasil, maio de 1981

Três dias depois de pegar a Inglaterra, o Brasil estava em campo no Parc des Princes, para novo amistoso. A França de Michel Hidalgo ainda estava em construção, mas merecia respeito pelo time que reunia Marius Trésor, Maxime Bossis, Jean Tigana e Bernard Genghini, sem Michel Platini e Alain Giresse na ocasião. O Brasil praticamente repetia a escalação da partida anterior, apenas com um descanso a Waldir Peres, suplantado por Paulo Sérgio no gol. Foi outro resultado maiúsculo do time de Telê Santana, com placar de 3 a 1. Zico participou de todos os tentos da Canarinho.

A partida seria elogiada por oferecer um jogo aberto e bastante franco, com um placar até barato pela forma como o Brasil tirou o pé depois do terceiro gol. Zico já tinha protagonizado grande lance, antes de abrir o placar no primeiro tempo. Sócrates deu uma enfiada de bola cirúrgica, para o camisa 10 entrar sozinho e só tocar na saída do goleiro Dominique Dropsy. Aos 28 anos, o Galinho assinalava o gol 500 de sua carreira profissional. Na sequência da primeira etapa, Zico disputou uma bola pelo alto, que sobrou para Reinaldo guardar na pequena área. Já o terceiro foi uma retribuição do Galinho a Magrão. Zico deu o passe por cima da defesa, com muita categoria, e Sócrates encobriu Dropsy, antes de completar em cima da linha com a meta vazia. Didier Six descontou, mas não reduziu a superioridade.

“Zico marcou o gol 500, um lindo gol, com muita categoria. Fez um passe excelente para Sócrates no terceiro. Teve atuação destacada no período inicial, participando de todas as jogadas no meio-campo e sempre voltado para o jogo coletivo. E, no final, deixou-se contagiar pela falta de concentração da equipe, preferindo jogadas individuais, de calcanhar, quando poderia fazer bons passes”, analisava o jornal O Globo, com a nota 9 para o craque.

Foi exatamente naquela ocasião, antes da partida, que Pelé recebeu do jornal L’Équipe seu famoso troféu como Atleta do Século. O Rei também dedicou palavras especiais a Zico e ao gol 500 do craque: “Poucos são os atacantes que conseguem esta marca. Zico provou assim o grande jogador que é. E fico emocionado ao saber que ele dedicou seu gol 500 para mim”. Zico comentou depois do jogo: “Fico feliz por ter feito este gol aqui. O Estádio Parc des Princes tem muita tradição e, logicamente, marquei minha presença na festa de Pelé, o maior jogador de todos os tempos”.

Brasil 3×1 Alemanha Oriental, janeiro de 1982

O Brasil fez uma série de amistosos contra seleções europeias no primeiro semestre de 1982. Zico marcou gols contra Tchecoslováquia, Portugal, Suíça e Irlanda. Ainda assim, uma das grandes atuações naquele momento veio quando o Galinho passou em branco, no triunfo por 3 a 1 sobre a Alemanha Oriental em Natal. A DDR contava com algumas figuras históricas de sua equipe nacional, como Joachim Streich, Hans-Jürgen Dörner e Jürgen Pommerenke. Já Telê Santana escalou um time bastante parecido com o que despontaria na Copa do Mundo. Leandro era uma novidade na lateral. Já as principais modificações ficavam no setor ofensivo, com uma dupla formada por Mário Sérgio e Roberto Dinamite. Zico, além da camisa 10, usou a braçadeira de capitão. Era seu 50° jogo oficial pela Seleção e o 66° no total.

O Brasil não conseguiu imprimir um futebol tão vistoso, mas aquele seria um bom teste pelo caráter defensivo da Alemanha Oriental. Zico era a principal alternativa ofensiva do Brasil, mas parava no goleiro Bodo Rudwaleit e seus passes não encontravam resposta dos colegas. Os visitantes até abriram o placar com Dörner. O empate do Brasil viria com Paulo Isidoro, na sequência de um cruzamento de Júnior. Já no segundo tempo, a Seleção melhorou e conseguiu estabelecer seu jogo. Zico proporcionou a virada com um ótimo lançamento por entre os defensores, para Renato Pé Murcho tocar na saída do goleiro. Já o terceiro tento viria com o substituto Serginho, em lance de Paulo Isidoro.

“Inteligente, rápido e criativo, mesmo sem fazer gols, voltou a se destacar. Quando a marcação alemã era mais rígida, soube encontrar espaços para jogar”, avaliava o jornal O Globo. Zico recebeu uma nota 9, a maior do time, ao lado de Paulo Isidoro e Leandro. Até a estreia na Copa, o Brasil emendaria uma sequência de 19 partidas de invencibilidade, com 15 vitórias. O revés mais recente tinha sido em janeiro de 1981, na final do Mundialito contra o Uruguai – quando Zico não esteve presente.

Brasil 4×1 Escócia, junho de 1982

Zico seria coadjuvante na estreia da Copa de 1982, a apertada vitória sobre a União Soviética, apesar da boa nota 8 na avaliação do jornal O Globo. Sua primeira grande atuação naquele Mundial aconteceu na segunda rodada, contra a Escócia. A Tartan Army tinha uma equipe que merecia muitíssimo respeito. Nomes como Alan Hansen, Graeme Souness, Kenny Dalglish, John Robertson e Steve Archibald faziam sucesso não apenas na Inglaterra, como também nas competições europeias. A base titular ainda contava com estrelas em ascensão na liga local, como Gordon Strachan e Willie Miller. No banco, Jock Stein já era consagrado como uma lenda por tudo o que havia feito com o Celtic. Mesmo assim, o Brasil trucidou os escoceses. Zico se destacou.

O Brasil não conseguiu encaixar totalmente seu jogo de início e desperdiçava chances, o que gerou um susto quando David Narey abriu o placar para a Escócia. O empate seria de responsabilidade de Zico, numa falta frontal. Um dos seus gols mais espetaculares na bola parada: o craque mandou o chute no canto do goleiro Alan Rough, pego no contrapé. Não que o arqueiro pudesse fazer tanta coisa se saltasse. O tiro foi muito preciso, dando um leve toque na trave, bem na altura da forquilha. O time brasileiro ressurgia, para dar espetáculo no segundo tempo. Oscar, Éder e Falcão anotaram os outros gols. Zico não voltou a aparecer no placar, mas auxiliava especialmente na fluidez da equipe.

“Enquanto esteve mais fixo na direita, ficou um pouco perdido. Mas, quando passou a jogar mais pelo meio, criou boas jogadas. Não se preocupou em se exibir, mas sim em ajudar a equipe. Marcou belo tento de falta”, descrevia o jornal O Globo, dando nota 9 para Zico. O Galinho, durante a primeira etapa, tentou sanar a falta de um ponta pelo lado direito. Quando fez seu jogo, o time todo cresceu. Depois da partida, ele comentaria sua pintura: “Senti que faria o gol quando o goleiro armou aquela barreira enorme e ficou no meio do gol. Aí é só bater no contrapé que não tem jeito. Foi o que fiz e o goleiro nem chegou perto. Ao bater na bola, já tive a convicção do gol”. Já sobre a questão tática, falou: “No início, só o Sócrates andou indo até a direita me ajudar. Aí, como alguém tinha que ficar por lá para abrir espaços, eu acabei me sacrificando e ficando um bom tempo isolado. Mas ainda assim acho que deu para fazer algumas coisas. Deu até para fazer o gol, naquela falta. A partir do momento em que aparece gente para eu tabelar e trocar posição, fica mais fácil. Foi o que aconteceu depois do intervalo. Aí foi aquele show que todo mundo viu”.

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Brasil 4×0 Nova Zelândia, junho de 1982

A Nova Zelândia foi o único adversário realmente frágil do Brasil na Copa do Mundo de 1982. Maior jogador da Oceania no século, Wynton Rufer até fazia parte do time, mas antes de firmar seu nome como destaque na Europa. E a Seleção aproveitou a ocasião para emplacar uma goleada sem tantos esforços. O time visivelmente se poupou e o placar na realidade ficou barato, por aquilo que se imaginava e pela diferença de nível. Apesar disso, Zico tratou de dar ares sérios à ocasião. O Galinho participou de todos os quatro gols do time, incluindo outra pintura com assinatura de camisa 10. Mesmo assim, a partida foi classificada pela imprensa como um “treino coletivo”.

O primeiro gol de Zico costuma figurar em qualquer compilação sobre a Seleção de 1982. Leandro cruzou com perfeição da direita e, com muito espaço na área, o Galinho emendou um plástico voleio. A combinação rubro-negra se repetiria mais uma vez no segundo tento. Desta vez Leandro tocou por baixo e Zico mandou de chapa, num chute seco no canto do goleiro. Durante o segundo tempo, a troca de passes rendeu o terceiro. Zico virou uma enfiada de primeira e Falcão encontrou uma avenida na direita, para bater rente à trave. Por fim, mais uma assistência do camisa 10. Zico recebeu um ótimo lançamento de Júnior, limpou a marcação e entregou para Serginho arrematar na pequena área.

A nota 10 para Zico era óbvia dessa vez: “Fez os dois primeiros gols e deu os passes para os outros dois. Só isso já bastaria para colocá-lo como o melhor em campo. Mas ainda fez mais, muito mais. Apareceu na direita, armou no meio e, muitas vezes, até na esquerda. Sempre com categoria”. A questão da ocupação da ponta direita, mais uma vez, era comentada pelo camisa 10: “Desta vez deu gosto de jogar. Todo mundo colaborou, todo mundo caiu pela direita e o resultado foi o que se viu. A goleada de 4 a 0 foi até pequena diante do que apresentamos em campo. Esta foi, em minha opinião, a melhor exibição do Brasil. Hoje jogaríamos bem contra qualquer adversário. Foi um rodízio perfeito pela direita, o passe na medida de Leandro e o voleio bem no estilo daquele que dou no anúncio da televisão. O goleiro deles não conhece o comercial. Resultado: nem viu por onde a bola passou”.

Brasil 3×1 Argentina, junho de 1982

A Copa de 1982 possuía um regulamento particular. Os times classificados na fase de grupos encaravam depois um triangular, que definiria os quatro semifinalistas. E o Brasil estaria numa chave duríssima, contra Argentina e Itália, na qual apenas um dos times sobreviveria. Era um reencontro de Zico com velhos conhecidos. A Albiceleste treinada por Menotti reunia vários campeões do mundo, entre eles Ubaldo Fillol, Daniel Passarella, Osvaldo Ardiles e Mario Kempes. Já as maiores expectativas ficavam para o embate particular de camisas 10, com Maradona. Num jogo marcado pelo destempero de Pelusa, o Galinho orquestrou os 3 a 1 do Brasil. O armador se fez presente em todos os tentos da Seleção.

Foi uma versão do Brasil com mais brilhantismo individual do que acerto coletivo. O time cometeu erros na construção de jogo, apesar de compensar com aplicação tática. E como aquela Seleção sobrava tecnicamente, o placar estava bem explicado. O primeiro gol aconteceu aos 11 minutos, numa falta que Éder cobrou no travessão e Zico conferiu no rebote. Com boa proteção defensiva, os brasileiros preservaram a vantagem e Zico até perdeu a chance de ampliar, inclusive num lance em que abusou do enfeite com o voleio sozinho na área. O segundo viria com participação do Galinho na construção. O camisa 10 lançou Falcão na direita, que serviu a cabeçada de Serginho. Já o terceiro teria assistência de Zico, numa enfiada sensacional que passou por três adversários. Júnior invadiu a área e só tocou por baixo das pernas de Fillol. Mesmo com Maradona expulso, Ramón Díaz descontou no final, mas o gol fazia pouco efeito.

E não foi só Maradona que deu uma solada em Batista naquela reta final de clássico. Passarella também abriu a caixa de ferramentas quando viu que a vaca tinha ido para o brejo. Deu uma cabeçada em Falcão e um chute em Sócrates, antes de acertar uma entrada desleal em Zico. O Galinho saiu contundido, exatamente para a entrada de Batista. Havia uma clara revolta entre os jogadores brasileiros, como resumiria Oscar: “Que lance besta, que covardia. A jogada não tinha o menor valor dentro do jogo, que, aliás, estava completamente definido para nós. Por que fazer aquilo? Só pode ser coisa de mau instinto, mau caráter”. Éder prometia até vingança: “Eu não gosto de desejar mal a ninguém. Mas esse aí, realmente, não merece perdão. Como foi difícil me conter em campo hoje. Nós ainda vamos nos cruzar de novo numa dessas Libertadores da vida. Aí quero ver se ele é machão mesmo. Juro que, se tiver oportunidade, quebro-lhe a perna ao meio”. Passarella se defendia: “Sou um zagueiro duro, até violento em alguns momentos, mas nunca desleal. Não fui maldoso na entrada sobre Zico e lamento se ele contundiu-se com gravidade”.

Depois da partida, a apreensão com Zico era óbvia. O médico Neylor Lasmar dizia que “só resta torcer pela recuperação”. O local da pancada, na panturrilha esquerda, tinha um grande hematoma e estava bastante inchado. “Se Zico não fosse um jogador dedicado a todo tipo de tratamento e com ótima recuperação, eu diria agora que ele não teria condições para enfrentar os italianos”, afirmou o médico. Já Zico dizia: “Está doendo muito. Muito mesmo. Passarella foi extremamente desleal. Acho até que tive sorte em não quebrar a perna. Minha esperança é que sempre fui um jogador de recuperação muito rápida. Às vezes surpreendo os próprios médicos e, agora, espero surpreender até a mim. Vou fazer tratamento o tempo todo, até dormindo. Vou pedir ao Nocaute para me tratar. Não quero ficar de fora desse jogo de forma alguma. Não posso ficar”. O jornal O Globo deu nota 9 ao Galinho: “Um gol e participação decisiva nos outros dois. Apenas infeliz nas conclusões”.

Itália 3×2 Brasil, julho de 1982

A única derrota desta lista. E uma partida que precisa entrar não apenas por sua importância histórica, independentemente da eliminação do Brasil, mas também porque o jogaço só existiu graças a grandes atuações individuais dos brasileiros – mesmo que o time de Telê Santana não tenha segurado as pontas defensivamente. Falcão fez uma senhora partida e, não à toa, terminou o Mundial como o melhor jogador da Seleção. Zico, todavia, não ficou tão atrás. Foi um dos melhores do time durante o primeiro tempo, com uma assistência excepcional, apesar da vantagem inicial da Itália. Já na segunda etapa, o Galinho não seria tão efetivo, mas Falcão buscou o empate que ia dando a classificação. Entretanto, aquela tarde em Sarrià era mesmo de Paolo Rossi, imparável no triunfo por 3 a 2 da Azzurra. Ficava o trauma por uma Seleção que podia mais.

Zico teve um duelo particular com Claudio Gentile. O defensor já tinha sido o responsável por anular Maradona no duelo contra a Argentina, com uma marcação muito dura. O trabalho do Galinho era flutuar para escapar das botinadas e também auxiliar na criação. Algo que ele fez brilhantemente no gol de empate do Brasil, aos 12 minutos, depois que Paolo Rossi já tinha assinalado o primeiro da Itália. Zico recebe na intermediária e, com a marcação cerrada, dá um lindo giro para se desvencilhar de dois. Sócrates avançou em linha reta e o Galinho percebeu, com um toque sensacional com a parte de fora do pé. O Magrão escapou de três, para finalizar entre Dino Zoff e a trave. O melhor resumo desse gol veio na descrição do lendário narrador inglês John Motson: “Sócrates marca um gol que resume a filosofia do futebol brasileiro”.

Paolo Rossi anotou o segundo na sequência e o papel de Zico vinha mais em dar os passes para os avanços do Brasil, sem que Gentile desgrudasse do camisa 10. Entre tantas pancadas, a principal chance do craque já baleado viria depois dos 40, numa infiltração na área. Bateu em cima de Zoff, mas teve a camisa rasgada num puxão que poderia render um pênalti. Durante o segundo tempo, Zico serviu ótimos passes para os companheiros, que não foram aproveitados, e bateu uma falta para fora. Depois que Falcão empatou, o camisa 10 tentou virar num chute sem direção que saiu por cima. Contudo, Paolo Rossi puniria os brasileiros com o terceiro do outro lado, quando faltavam 15 minutos. Extenuado, Zico não faria tanta diferença no abafa final da Seleção, com a resistência italiana.

Em suas páginas o jornal O Globo assim justificava a nota 8 para o Galinho: “Primeiro tempo excepcional, com jogadas de alta categoria, mesmo marcado em cima por Gentile. No segundo tempo, apesar de algumas boas jogadas, não conseguiu espaços para realizar os lances ofensivos”. O Jornal do Brasil analisava: “Um bom primeiro tempo, quando deu dois dribles desmoralizantes em Gentile e fez o passe para o gol de Sócrates. No segundo tempo, não conseguiu aparecer. Bateu mal uma falta próxima da área”. O Jornal dos Sports ainda fazia a ressalva da contusão recente: “Entrou em campo sem as condições físicas ideais. Mesmo assim, teve resistência para se deslocar pelos lados, puxando a marcação de Gentile, como no primeiro gol do Brasil. Usou até o recurso de recuar para o meio de campo, tentando abrir a defesa italiana. Mostrou mais uma vez ser importante no sistema tático de Telê, mas não teve sorte nas finalizações, talvez porque o adversário não deu espaços”.

Zico fechou aquela partida com 93% dos passes acertados, 26 de 28, um número não tão alto pela própria maneira como atuou no sacrifício. Apesar disso, deixou os companheiros em condições de finalização em três oportunidades, com uma assistência. Sofreu seis faltas, mais do que qualquer outro em campo. O único porém ficava mesmo pela falta de pontaria nas finalizações, muito embora tenha aparecido pouco na área, até pelas condições físicas limitadas.

https://youtu.be/b1MdTuULJ6U

Brasil 3×1 Chile, junho de 1985

Depois da Copa de 1982, Zico esteve presente no amistoso contra o Chile, em abril de 1983, que marcou a retomada das atividades da Seleção. Porém, depois disso, seriam dois anos sem o Galinho no time – entre o processo de renovação e sua ida ao futebol italiano. O retorno do camisa 10 aconteceu em junho de 1985, quando também voltava ao Flamengo. Com Telê Santana novamente no comando, Zico era a referência num grupo que ainda reunia boa parte da base de 1982, embora incluísse nomes em ascensão como Renato Gaúcho e Careca. O Galinho foi titular na campanha das Eliminatórias e, naquele intervalo, teve uma de suas grandes apresentações numa vitória por 3 a 1 sobre o Chile, em amistoso realizado no Beira-Rio.

Não foi uma atuação constante do Brasil, mas o time teve ótimos momentos, quase sempre liderados por Zico. O craque já começou testando o goleiro Roberto Rojas. Carlos também teve trabalho do outro lado, mas as jogadas em velocidade do Brasil passaram a funcionar, em especial com Leandro e Renato do lado direito. Renato deu um passe na medida para Zico anotar o primeiro, com colaboração de Rojas. Depois, Leandro ampliou num míssil de fora da área. Já o terceiro gol surgiu em linda trama coletiva. Sócrates entregou para Careca, que lançou por cima e achou Zico sozinho na área. O craque bateu de primeira e correu para o abraço novamente. Só no fim os chilenos descontaram.

Zico recebeu uma nota 10 no jornal O Globo: “O grande nome do jogo. Fez dois gols e ainda chutou várias bolas perigosas. Iniciou praticamente todos os ataques brasileiros”. No final da partida, o Galinho era o mais aclamado pelas emissoras gaúchas, recebendo inclusive prêmios. “Parece que o entrosamento está aumentando, apesar de o time estar junto há pouco tempo. Temos talento, mas precisamos de calma e inteligência para superar as dificuldades e adquirir entrosamento”, comentou o camisa 10.

Paraguai 0x2 Brasil, junho de 1985

A principal vitória do Brasil nas Eliminatórias aconteceu em pleno Defensores del Chaco, contra o Paraguai. Depois de bater a Bolívia na estreia, a Seleção praticamente encaminhou sua classificação ao derrotar a Albirroja em Assunção. O placar de 2 a 0 oculta o que foi um compromisso dificílimo para a Seleção. E o time de Telê Santana se superou, a tal ponto que o técnico classificou aquele resultado como o “mais importante e mais emocionante desde que assumiu o comando da seleção brasileira em 1980”. Seria um jogo com clima de guerra, no qual a Canarinho conseguiu se concentrar na bola e teve em Zico um de seus artífices.

O Paraguai pressionou de início, já que precisava do resultado depois de empatar com a Bolívia. O Brasil segurou a onda, num duelo também muito faltoso. O gol inaugural saiu aos 25 minutos, num cruzamento de Renato Gaúcho, que Casagrande concluiu de cabeça. Depois disso, com o apoio de 10 mil torcedores brasileiros nas arquibancadas, a Seleção conseguiu cadenciar a partida e botar os paraguaios na roda. No segundo tempo, quando a Albirroja fez uma blitz pelo empate, Carlos garantiu a segurança na meta. E o placar seria definido por Zico. Leandro serviu e o gol do camisa 10 foi magistral, com um toquezinho de chaleira para levantar a bola no alto, antes da definição bonita com o peito do pé. O goleiro Ever Hugo Almeida também vacilou no quique do chute traiçoeiro.

Zico recebeu uma nota 10 do jornal O Globo, empatado com Carlos e Casagrande entre os melhores da equipe: “Passes de primeira e com perfeição. Uma movimentação incomum, confundindo a defesa paraguaia. Futebol de categoria e um gol de placa”. Na reta final do duelo, gritos de ‘olé’ embalaram a jornada brasileira em Assunção. A Seleção se valeu de empates em casa, com Paraguai e Bolívia, para se classificar para a Copa de 1986 sem muitos sobressaltos, quando a tarefa já tinha sido encaminhada.

Brasil 4×2 Iugoslávia, abril de 1986

O Arruda recebeu uma das atuações mais simbólicas de Zico pela Seleção. O craque havia sofrido a lesão mais séria de sua carreira pouco depois das Eliminatórias, na fortíssima entrada de Márcio Nunes contra o Bangu, e ficou meses no estaleiro, sob dúvidas se teria mesmo condições de disputar a Copa do Mundo de 1986. O retorno com a Canarinho aconteceu num dos últimos amistosos preparatórios, cerca de um mês antes da estreia no Mundial. E foi uma noite para ser lembrada como uma das maiores de Zico com a amarelinha. A Iugoslávia atravessava um momento de transição e não teve remédio para o camisa 10, autor de três gols no triunfo por 4 a 2. Telê Santana já alinhava a base que deveria ser titular na Copa, mas com Falcão, Leandro e Oscar entre os remanescentes de 1982 como titulares.

Zico quase abriu o placar numa cobrança de falta, que desviou na barreira e bateu na trave. O Galinho também exigiria uma boa defesa do goleiro Zivan Ljukovcan na sequência. E o primeiro tento do craque, aos 29, teve a assinatura de gênio. Numa falta cobrada pela esquerda, Zico deu um leve toque de calcanhar para tirar do goleiro e balançar o barbante. Nenad Gracan e Milan Jankovic viraram para os iugoslavos, até que o Galinho ressurgisse ao resgate durante o segundo tempo. O gol de empate veio de pênalti, com o veterano. Isso até outra genialidade tomar forma no Arruda. Zico tentou antes fazer de fora da área, errando o alvo por pouco. O caminho seria aberto na habilidade, com uma sequência de dribles, incluindo um corte desconcertante no arqueiro. Foi um gol de placa. Então, seria eternizada a narração de Luciano do Valle que abre este texto. Careca anotou o último, outra beleza, num chute de longe que entrou no ângulo e bateu no travessão, antes de quicar dentro.

Obviamente, Zico merecia uma nota 10 do jornal O Globo: “Provou mais uma vez que é insubstituível. Mesmo se poupando visivelmente, foi o destaque do jogo, com bons lances e três gols, sendo dois de placa”. Já Edinho resumiria o sentimento: “Eu estou até emocionado com a atuação do Zico. Dou meus parabéns a ele, porque soube superar a fase difícil e entrou em campo para mostrar o seu belo futebol e ainda por cima marcou três gols. Foi emocionante a atuação do Galinho”.

Brasil 3×0 Irlanda do Norte, junho de 1986

Zico voltou a sentir problemas físicos no último amistoso da Seleção, contra o Chile. Assim, não saiu do banco de reservas no início da Copa do Mundo, diante de Espanha e Argélia. Sua entrada aconteceu apenas aos 23 minutos do duelo contra a Irlanda do Norte, com o time classificado e a vitória encaminhada, depois dos gols de Careca e Josimar. O triunfo por 3 a 0 teria o último lampejo do craque em Copas, com a assistência que fechou a conta e confirmou os 100% de aproveitamento da Canarinho.

O oportunismo de Careca rendeu o primeiro gol do Brasil contra a Irlanda do Norte, e a equipe continuava criando as melhores oportunidades. Pouco antes do intervalo, Josimar ampliou a diferença com seu chute fantástico que entrou direto na gaveta. O clima da partida era leve e Zico, com a 10 mesmo na reserva, entrou no lugar de Sócrates aos 23 minutos do segundo tempo. A torcida aplaudiu demais o veterano, que levou um tempo para ganhar confiança. Chegou a ter sua chance de marcar, mas carimbou a marcação. Já no fim da partida, a categoria do Galinho se evidenciou nos gramados mexicanos. Numa tabela com Careca, Zico devolveu de calcanhar e permitiu que o centroavante encontrasse um enorme rombo na área para a conclusão nas redes, assinalando mais um. Antes do fim, Zico ainda deu outro presente a Branco, mas o lateral desperdiçou.

Mesmo com pouco mais de 20 minutos em campo, Zico recebeu uma nota 9 do jornal O Globo: “Ainda não foi o Zico de antigamente, mas deixou em campo a marca inconfundível do autêntico craque. Por isso, e pela alegria que deu à torcida, inclusive a mexicana, nota 9”. O periódico ainda acrescentava: “Foi um reencontro premiado pela ausência de dor ou qualquer outra manifestação do problema no joelho esquerdo, com o qual Zico vem travando a mais difícil disputa de sua vida profissional. Vitória dupla do atacante, que reacende a esperança dos torcedores brasileiros na conquista do tetracampeonato mundial”.

Assim Zico resumia a tarde: “O mais difícil já passou. Provei que tenho condição de disputar esta Copa, mas vou ficar na dependência de Telê. Prosseguirei o trabalho de musculação, porque tenho inteira consciência de que posso voltar a ter problemas. Mas fico feliz com o que aconteceu. Não dá para explicar o que senti. Para os que acompanharam tudo que já passei, é algo quase milagroso e que deixa a gente cheio de esperança e otimismo, mesmo sabendo das dificuldades que ainda posso passar. Mas é como se fosse a realização de um sonho, uma coisa que sai de dentro do peito para fora. Fiquei muito emocionado”.

Zico saiu do banco na goleada por 4 a 0 sobre a Polônia nas oitavas de final e sofreu um pênalti, que Careca converteu para fechar a contagem. Já nas quartas de final, contra a França, o Galinho teve sua pior partida com a Canarinho. Entrou aos 26 minutos, no lugar de Müller, e aos 30, sem confiança, desperdiçou o pênalti que poderia dar a vitória ao Brasil. Não foi uma boa atuação, por mais que tenha se redimido na disputa por pênaltis e vencido Joël Bats no reencontro na marca da cal. Todavia, Sócrates e Júlio César perderam, culminando em nova frustração nas Copas. Foi seu último jogo pela equipe nacional, com 71 aparições e 48 gols em compromissos oficiais. Somando as partidas não-oficiais, os números sobem para 87 aparições e 66 tentos.

Zico venceu 51 jogos oficiais pela Seleção e empatou 17, com míseras três derrotas. Uma delas foi o Sarrià, enquanto a despedida invicta em 1978 e a queda nos pênaltis em 1986 marcam os insucessos por Copas do Mundo. A falta da taça, contudo, não impede o reconhecimento de uma trajetória fantástica pela equipe nacional.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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