Brasil

Organização e dinheiro superam tradição na Série A-2

Após 25 anos, o futebol paulista voltou a ver o tradicionalíssimo Come-Fogo, clássico de Ribeiro Preto, na Série A do Paulistão. Passadas 15 rodadas do Paulistão, basta uma olhada na classificação para ver que o sonho durou pouco. O Comercial é o último colocado.  O Botafogo é o penúltimo. Come-Fogo de 2013, vai ser, salvo grande mudança nas rodadas finais, na A-2.

E o que vem aí? A apenas uma rodada do final da primeira fase da A-2, a tábua de classificação é comandada por Audax e Red Bull. Dois times de empresas, com grande estrutura e orçamento bem maior do que os dos rivais. Eles assumem com orgulho as duas primeiras características e repelem, com energia, a terceira. Dizem que o dinheiro está mesmo em Barueri, que é apenas o nono colocado (uma posição abaixo da zona de classificação para a fase final).

A ascensão de times novos e a queda de outros, mais tradicionais, é um fato inquestionável. Se Audax e Red Bull ponteiam a classificação, a rabeira fica por conta de União São João e América. O São Bernardo está classificado e o Santo André, que já foi campeão da Copa do Brasil, só não está na zona de rebaixamento porque seu déficit de gols é de cinco contra seis do Santacruzense. O Atlético de Sorocaba está em quarto e o São Bento em nono, na série A-3. A mesma A-3 onde estão Marília, Juventus, XV de Jaú, Inter de Limeira e que não abriga mais o Nacional, que está na segunda divisão há duas temporadas.

Camisa não ganha mais jogo. Dinheiro e organização, sim. Mais organização do que dinheiro, jura Thiago Scuro, gerente-executivo do Audax, time do empresário Abílio Diniz, um dos homens mais ricos do Brasil. “É falso dizerem que nosso time é rico. A folha de pagamento é em torno de R$ 300 mil mensais e não é das cinco primeiras da competição. O importante é ter uma continuidade de trabalho e uma boa estrutura. Temos centro de treinamento,os jogadores recebem em dia, possuem tratamento médico, tem fisioterapia. E 70% dos jogadores são formados aqui. Para nós, é claro, que a fórmula do sucesso é base + gestão consolidada”.

A receita é avalizada pelo médico endocrinologista Wilson Alves Ferreira Jr. presidente da Ferroviária. “Nossa história é conhecida. O time estava quebrado, devia R$ 3,5 milhões. Então, o estádio foi vendido para a Prefeitura. Hoje, pagamos aluguel para jogar na Fonte Luminosa, mas o clube está sanado e já pensamos em construir um centro de treinamentos”.

Para Juninho, como é conhecido, a Ferroviária só poderá competir com Audax e Red Bull se tiver um bom trabalho de base. “Veja bem, Comercial, Botafogo e XV, que subiram estão caindo. Quando o Audax e o Red Bull subirem isso não vai acontecer. Eles vão se manter lá porque têm estrutura e dinheiro. Se a gente subir, também corre o risco de cair. Nada garante que a gente possa ter um elenco de A-1. Nossa salvação é ter uma boa base para vender jogadores e poder encarar esses clubes ricos”.

O ídolo corintiano e o cantor sertanejo

A gestão empresarial não é sinônimo de sucesso. O América de Rio Preto fez acordo com a Peti Sache, empresa que teve sucesso no gerenciamento do Oeste de Itápolis, em 2011. Houve um grande investimento, além da chegada de Marcelinho Carioca, como gestor. Nada deu certo. Foram contratados mais de 30 jogadores, grande parte já dispensada, houve três técnicos e o rebaixamento só não virá se um milagre ocorrer.

A comparação com a União Barbarense mostra que nem sempre dinheiro e um nome famoso do futebol que fazem a diferença. O clube, oitavo colocado, conta mais com apoio estrutural do que com dinheiro. “Temos o mesmo patrocinador há dez anos. Recebemos R$ 60 mil por mês, bem menos do que os times mais ricos da A-2”, conta Dario Forlán, presidente do clube de Santa Bárbara d’Oeste. “A diferença é que esse parceiro tem um CT com oito campos, uma estrutura que podemos usar para treinar.”

De acordo com o dirigente, a tradição ajuda mais para atrair um ou outro investidor. “Como já fomos campeões da Série C, fica mais fácil chamar a atenção e convencer alguns empresários a ajudarem para contratar alguns reforços”, comenta Forlán. Um deles é o cantor José Rico, da dupla sertaneja Milionário & José Rico, que mora na cidade e tem participação em três jogadores.

Um sistema que tem funcionado em 2012, mas que não é garantia de estabilidade. Ao contrário dos clubes que os mais tradicionais chamam de “ricos”. O Red Bull Brasil fundado em 2008 pela empresa de energético que lhe dá nome, tem trajetória de êxitos semelhante à outras franquias pelo mundo. O Red Bull Salzburg lidera o Campeonato Austríaco. O Red Bull Leipzig subiu da quinta para a quarta divisão da Alemanha, o New York Red Bulls abriga Thierry Henry, o craque francês, e um centro de formação de atletas em Gana. “Aqui, eu tenho todas as condições de trabalhar. Não deve nada ao Figueirense, onde eu trabalhei”, diz o técnico Marcio Goiano. “A dificuldade que temos é jogar sem apoio da torcida, mas como temos jogadores experientes, eles conseguem superar isso”, afirma.

Segunda opção?

Conseguir uma torcida é o grande desafio para times com dinheiro e sem tradição. “Nunca poderemos competir com os grandes, mas sonhamos em ser a segunda opção de cada um. Podemos ter uma torcida familiar”, diz Scuro. Ele conta que o Audax manda os jogos no campo do Nacional, na capital. “Se a gente subir e tiver o direito de mando contra os grandes, vamos para o Pacaembu”, diz.

A falta de torcida é algo que atrapalha o Atlético Sorocaba, como diz o gerente de futebol Waldir Cipriani. “A cidade prefere o São Bento que está na A-3. E a mídia vai atrás deles. Para combater isso nós compramos horários na televisão”, explica.  “O São Bento tem torcida e agora está pensando em ter uma organização empresarial. Nós temos isso desde o começo e agora vamos procurar ter torcida”, diz. Vai ser difícil, segundo Rodrigo Gasparin, repórter do jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba. “A cidade adora o São Bento. Não vai muito ao campo, mas na hora que precisa, abraça o time. No ano passado, o São Bento devia salário e estava para cair. Aí, a diretoria disse que a renda do jogo seria para os jogadores. E teve um bom público, todo mundo queria ajudar”, diz.

O Atlético é ligado ao reverendo Sun Myung-Moon, sul-coreano, e tem uma estrutura digna de time grande. São vários campos e um hotel. “Nós tivemos dez mandos de campo esse ano. Não gastamos com concentração, ficamos no nosso próprio hotel. Isso ajuda muito”, diz Cipriani, que garante não existir dinheiro sobrando em Sorocaba. “Temos um orçamento de série A-2 e convivemos com ele. Aqui, ninguém faz loucura”.

Beto Souza, gerente de futebol do Noroeste, aplaude a estrutura dos rivais, mas aponta o excesso de dinheiro como um diferencial a ser transposto. “É covardia concorrer com Audax e Red Bull. Eles têm muito dinheiro. Nossa sorte é contar com um presidente como o Damião Garcia. Ele é dono da Kalunga que nos dá um patrocínio mensal em torno de R$ 150 mil, enquanto os outros recebem R$ 50 ou 60 mil. E quando o dinheiro não dá, ele cobre o prejuízo”, diz Beto.

Ele se queixa das cotas da Federação. “Na A-1, cada time pequeno recebe R$ 1,8 milhão. Com esse dinheiro, se você fizer um bom trabalho, pode encarar os mais ricos. Na A-2, a cota é de R$ 100 mil, mas com os descontos, você só recebe R$ 30 mil. Aí, o rico não pode ser encarado. Tem de buscar soluções. Vender jogadores, por exemplo. Estamos com um bom trabalho na base. Um de nossos jogadores iria para a Coréia, mas se contundiu. Temos parceria com Grêmio, Atlético Mineiro e Fluminense, eles estão com jogadores da nossa base. Se não conseguir dinheiro assim, fica difícil”, contou ainda o dirigente.

O Penapolense tem estilo gerencial parecido com o do Noroeste, como diz o presidente Nilso Moreira, médico em Bragança Paulista. “Sou louco pelo Penapolense. Reuni um grupo de empresários e ajudamos o clube. Já temos um CT mas não é clube empresa. Nossa folha é de R$ 110 mil. Todo mês, falta uns R$ 40 mil. Então, a gente coloca a mão no bolso e cobre. É dinheiro a fundo perdido. Tudo pelo orgulho de ver uma cidade de 60 mil habitantes enfrentar os grandes”.

Em São Bernardo, a força vem da união política. O clube foi fundado por Edinho Montemor, em 2004. Em 2008, pelo PSDB, ele foi derrotado à prefeitura de São Bernardo por Luiz Marinho, do PT. Em 2009, o clube passou para Luiz Fernando Teixeira, irmão de Paulo Teixeira, deputado federal pelo PT. Edgar Montemor, filho de Edinho, continuou no clube, com diretor de futebol. O São Bernardo chegou à A-1 em 2011, mas não conseguiu se manter. Agora, Edinho Montemor, que esta no PPS, já disse que apoiará a reeleição de Luiz Marinho.

Edgar Montemor fica irritado ao falar sobre política. “Eu sou um gerente remunerado. Trabalho no São Bernardo, mas poderia estar em outro time. Nossa única ligação com a prefeitura é que alugamos o estádio Primeiro de Maio. Nada mais. O sucesso se deve à uma boa gestão”.

O Primeiro de Maio é um estádio bom, muito bem conservado. Permite o acesso de um bom público. É uma das razões para o São Bernardo ter tido, em 2011, média de público de 11 mil pagantes nos jogos em casa. Um constraste com o Santo Andre, que não tem ligação com a prefeitura e que viu o estádio Bruno Jose Daniel sem condição de receber partidas por um bom tempo. Chegou a mandar jogos em São Bernardo. Para um estádio vazio.

Os diretores do São Bernardo fizeram agora um acordo de três anos com o Grêmio Mauaense, de Mauá, que disputará, a partir de maio, a segunda divisão. “Vamos emprestar nossos juniores e jogadores que não estarão sendo utilizados. A idéia é subir quanto mais rápido melhor”, diz Montemor.

Entre tantos exemplos de gestão, o presidente do clube, na página oficial do São Bernardo, diz que a reação do clube – esteve muito mal nas primeiras rodadas – não teria acontecido se não fosse a presença de dois pastores na concentração. “Veio a mudança do técnico, veio a dispensa de jogador, vieram reforços, mas a verdade e curioso é que as coisas se encaixaram somente após a intervenção espiritual, quando dois pastores foram convocados para se reunir com o time, comissão técnica e diretoria e, em dois dias consecutivos, estiveram orando para que as coisas melhorassem, e pasmem os incrédulos, 10 vitórias, dois empates e uma derrota, 32 pontos acumulados e inclusive o direito de atuar na última rodada apenas com os jogadores reservas, poupando assim, todos os titulares para a segunda fase”.

São várias facetas do novo mapa de forças do futebol do interior. Organização e dinheiro estão presentes em todas elas. É uma equação muito difícil de enfrentar. Para os que já desistiram, resta a ironia. “A Série A-1 vai ter um monte de time sem torcida, com estádios vazios. E a paixão vai ficar na A-2, com times que enfrentam dificuldades.”, diz Virgilio Dalla Pria, presidente do Rio Preto.

As uvas, como a camisa do Rio Preto, são verdes.

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Equipe Trivela

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