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[Opinião] Landim, Bandeira e suas diretorias têm a obrigação moral de sair do Flamengo

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É até difícil começar a escrever esse texto. É difícil saber se o que pesa na cabeça, no peito e na mão é a dor, a revolta, a sensação de injustiça. É saber que podia ser uma das minhas filhas. Athila Paixão tinha 14 anos, Arthur Vinícius de Barros Silva Freitas tinha 14 anos, Bernardo Pisetta, 14 anos, Christian Esmério, 15 anos, Gedson Santos, 14 anos, Jorge Eduardo Santos, 15 anos, Pablo Henrique da Silva Matos, 14 anos, Rykelmo de Souza Vianna, 16 anos, Samuel Thomas Rosa, 15 anos e Vitor Isaías também tinha 15 anos. Eram crianças cujas vidas foram confiadas ao Flamengo por suas famílias. Era responsabilidade do clube garantir que esses garotos estivessem seguros para poder voltar aos seus familiares. Eles não voltarão.

As investigações estão em curso para levantar todas as falhas que ocorreram e as responsabilidades diretas pela tragédia. Mas algumas questões são básicas. O Flamengo abrigou dezenas de garotos em um espaço que, segundo a prefeitura do Rio de Janeiro, não tinha licença para ser utilizado daquela forma. E as circunstâncias do incêndio evidenciam que o alojamento não estava preparado adequadamente para hospedar atletas – ainda mais adolescentes – com segurança. Ainda que poder público e fornecedores de serviços eventualmente não tenham feito sua parte (e, se as investigações confirmarem isso, eles também merecem ser punidos), a responsabilidade final por aquele espaço e por aqueles garotos é do clube. Os jovens foram confiados ao clube, que assumiu a responsabilidade de cuidar deles. Se houve um curto, o responsável é o Flamengo, dono do ar-condicionado. Se o ar-condicionado tinha um defeito de fábrica ou foi mal instalado, o Flamengo segue responsável por não criar as condições para reduzir esses danos, como ter rotas de fuga adequadas, uma brigada de incêndio, monitores de plantão e infra-estrutura que suportasse mais o fogo.

Cabe à polícia investigar o que aconteceu e à Justiça determinar as punições aos indivíduos responsáveis pela tragédia. Todo o processo vai levar um tempo, mas há uma esfera que vai além da jurídica: a questão de honra. Um administrador, do que quer que seja (governo, órgão público, empresa, clube esportivo, ONG, associação de bairro), nem sempre conhece tudo o que ocorre debaixo de sua asa. Mas ele é a cabeça e a imagem da gestão, e é obrigação final dele não permitir que seja possível algo tão grave acontecer.

Isso se aplica à tragédia do Ninho do Urubu. O Flamengo viu dez de seus garotos morrerem, e os cabeças do clube precisam mostrar o quanto aquilo envergonhou a toda a instituição. Como? Cortando na própria carne. Repito: não é uma questão se eles são criminalmente responsáveis pela tragédia, mas de honra, de moral.

Isso vale para a diretoria atual, liderada pelo presidente recém-empossado Rodolfo Landim, e também pela anterior, liderada por Eduardo Bandeira de Mello, que liderou todo o processo de ampliação e modernização do centro de treinamento e, pelas informações que chegam, nem sabe onde deixou a documentação da obra. Os atuais mandatários podem renunciar a seus cargos, mas os anteriores podem renunciar ao cargo no conselho ou mesmo à condição de sócio do clube.

Todos têm responsabilidade moral pela tragédia e têm que renunciar imediatamente. Afastar-se de qualquer posição política é uma forma até de dar satisfação aos familiares e à opinião pública, de mostrar que ninguém no clube vai seguir sua vida normalmente daqui três semanas, quando a poeira baixar. É também uma maneria de permitir ao Flamengo se reconstruir como instituição, com personagens diferentes dos que criaram as condições para que ocorresse a pior tragédia da história do clube. Eles não souberam cuidar dos garotos do Ninho, que se abra o espaço para a entrada de outra figuras no comando, algumas que talvez tenham o cuidado exigido para esta situação.

O Flamengo errou com Rykelmo, Samuel, Gedson, Jorge, Bernardo, Christian, Pablo, Vitor, Athila e Arthur, e esse errou levou os garotos à morte. Qualquer atitude de todos que dirigem e dirigiram que não seja a renúncia desonrosa é pouco.

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