BrasilCopa do Nordeste

Onde os favoritos não tiveram vez

Que Iracema, a índia dos cabelos mais pretos que a asa da graúna, não nos ouça, mas Campinense x ASA é sim uma final bem interessante para a Copa do Nordeste, que vive em 2013 o seu ano de retomada. Claro que os encantos desse confronto não estão à altura dos lábios de mel da musa da obra de José de Alencar, ou mesmo do que seria um clássico decisivo no primeiro estádio a ficar pronto para a Copa do Mundo do ano que vem. Mas o sucesso de dois times do interior serviu para definir o tom das disputas no “novo” Nordestão. De quebra, fortaleceu o maior argumento de quem defendia a ressurreição do torneio: o desejo de fortalecer o futebol da região. No todo, não apenas em parte.

A decepção dos que esperavam ver “os grandes” chegando à final, é plenamente justificável. Desde a primeira fase, quando o Bahia foi eliminado prematuramente, eles acumularam pequenos vexames durante o Nordestão, passando pela queda de Vitória, Sport e Santa Cruz nas quartas de final e culminando na decepção conjunta de Ceará e Fortaleza nas semi. Uma final entre dois times de menor porte pode até mesmo ser considerada um mau sinal, dado que o campeonato foi tecnicamente nivelado por baixo. Mas para que o futebol nordestino ganhe força, não bastará aumentar os lucros ou a moral de quem já é grande na região, até porque todo esse avanço seria ainda tímido quando comparado à realidade mais abonada dos clubes do Sul e Sudeste.

Por isso mesmo, é ótimo ver o Campinense colocando a Paraíba em uma decisão importante. Com a decadência dos clubes de João Pessoa, o futebol do estado só ganhou algum espaço graças a uma ou outra boa campanha do Treze, na Copa do Brasil, em divisões inferiores, ou nos tribunais. Se tantos pernambucanos, baianos e cearenses se incomodam com a quantidade de paraibanos que torcem para clubes do Rio (um preconceito para lá de besta, já que cada um tem direito de torcer para quem bem entender), precisam assimilar que isso só poderá mudar a longo prazo, caso os clubes do estado passem a se destacar regularmente e atinjam as divisões mais “civilizadas” do futebol brasileiro. Ou seja, desprezar o feito do Campinense e atribuí-lo apenas aos tropeços dos grandes só servirá para reafirmar tal status quo.

Difícil mesmo é saber o bom momento do rubro-negro de Campina Grande terá continuidade, alcançando o mesmo nível de sustentabilidade que o crescimento do seu rival na final do Nordestão. O ASA, que até pouco tempo era conhecido apenas por eliminar o Palmeiras na Copa do Brasil de 2002, chegou à Série B e se estabilizou por lá. Como sua capacidade de investimento é baixa, corre sempre o risco de que um planejamento menos feliz ponha tudo a perder em tempo recorde. Mas hoje, o clube de Arapiraca parece mais destinado a incomodar na parte de cima da tabela. Um exemplo de estabilidade e desenvolvimento gradual a ser observado de perto por todos os clubes de menor porte do Nordeste. E até para alguns grandes, como Santa e Fortaleza, que atolaram na Série C.

Que ninguém se deixe enganar: o desempenho insatisfatório dos maiores clubes da região não pode ser encarado como um desprestígio ao Nordestão. Reflete sim a dificuldade, por vezes crônica, que tiveram para se impor diante de rivais melhor organizados e cientes de suas limitações, seja por falta de criatividade, objetividade ou até mesmo excesso de cautela. O Vitória pode ser considerado um caso à parte, já que despontava como favorito destacado ao título, até ser atropelado por outro clube tradicional, o Ceará, dentro de seus domínios e com uma boa vantagem debaixo do braço. Uma eliminação desastrosa, mas que talvez possa ser encarada como um tropeço pontual.

Apesar de ter recebido o sensacional apelido de Lampions League, em uma grande sacada do amigo @achrispin, o Nordestão se assemelha muito mais ao equivalente sul-americano da Liga dos Campeões. Afinal, é um torneio de tiro curto, que começa ainda em clima de pré-temporada, onde os favoritos continuam sempre favoritos, mas serão derrubados sem a menor cerimônia, caso caiam na bobagem de acreditar que só isso basta. E nada melhor que a “casca” criada por uma disputa assim para preparar qualquer um, grande ou pequeno, tradicional ou novato, para novos desafios.

Nada mau para quem costumava passar quatro meses restrito a alguns pingos de rivalidade, em meio a um oceano de jogos que se mostram desinteressantes para jogadores, torcedores e imprensa. Vejamos como os estaduais reagirão à inconveniente sombra criada pela Copa do Nordeste.

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Ricardo Henriques

Jornalista agnóstico formado pela Universidade Católica de Pernambuco, Ricardo Henriques nasceu, foi criado e se deteriorou no Recife, cidade com a qual vive uma relação de amor (mentira) e ódio. Não seguiu adiante com seus sonhos de ser repórter esportivo, nem deu continuidade à carreira como centroavante trombador e oportunista nas areias de Boa Viagem, mas encontrou no Twitter a plataforma ideal para palpitar sobre todos os assuntos onde não foi chamado. Viciado em esportes, cinema, seriados de TV e escolas de samba, tem mania de fazer listas que só interessam a si próprio, chegando ao ponto de eleger suas musas como se selecionasse o onze inicial de um time de futebol. Esse blog não trará informações quentes de bastidores, análises táticas abalizadas ou reflexões ponderadas. O que talvez, por consequência, não traga leitores. No cardápio: ranzinzices bem humoradas, cornetadas debochadas e fartas doses de cretinice e cultura pop, temperando o que há de mais ridículo e pernóstico no mundo do futebol. PS: ele tirará uma onda com o seu time ou os seus ídolos, mais cedo ou mais tarde. Não vai adiantar você fazer careta e espernear que nem o Mourinho faz quando é contrariado. Contato: [email protected]

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