Brasil

Oito ou oitenta

Um grupo, não um time. Todo técnico ou clube que quer se mostrar ciente da necessidade de planejar a temporada usa esse clichê. Afinal, “o ano é longo, o calendário está congestionado e é preciso ter peças de reposição”. Para botar isso à prova, escalam-se equipes reservas ou mistas no Brasileirão, torcendo para não produzirem uma grande tragédia enquanto a prioridade é a fase final da Libertadores ou da Copa do Brasil. O que é uma distorção completa do conceito de “ter boas opções no banco”.

Não há dúvida que, neste meio de maio e no início de junho, os jogos que mais chamarão a atenção dos torcedores serão da Copa do Brasil e da Libertadores. Afinal, o Brasileirão ainda está nas primeiras rodadas e fica uma grande sensação de que tudo é transitório e pode ser consertado nos meses seguintes. Nos torneios eliminatórios, qualquer deslize é fatal.

O que não está claro para muitos treinadores (e também torcedores e jornalistas, sejamos honestos) é que o fato de a Série A não ser a prioridade do momento não significa que deva ser tratada como se fosse a Copa dos Campeões da Copa Conmebol (para quem não lembra, esse torneio realmente existiu e se chamava Copa Master da Conmebol). O Brasileirão estrutura o calendário nacional, é a principal fonte de receita dos clubes e, por isso, se torna obviamente a competição mais importante do calendário nacional – exceto para os poucos clubes que têm reais chances de conquistar a Libertadores.

O Campeonato Brasileiro jamais deve ser deixado completamente de lado. Ainda mais porque é disputado por pontos corridos e, matematicamente, uma vitória na primeira rodada tem o mesmo valor de um triunfo na última. Aí fica a dúvida: como dar importância ao Brasileirão sem deixar de priorizar a Copa do Brasil? Simples, entendendo que o banco de reservas deve ser usado como opção quando necessário.

Colocar oito ou nove jogadores reservas é um convite ao tropeço. Em muitos clubes, os reservas não treinam para formar uma equipe, mas para ajudar a preparar os titulares. Assim, quando entra em campo, o time B não tem entrosamento ou esquema tático definido. Tanto que as equipes suplentes que acabam jogando bem sofrem pela falta de ajuste fino, como uma jogada mais bem treinada ou o posicionamento acertado da dupla de zaga.

O que poderia ser feito é poupar jogadores de acordo com necessidades individuais. Atletas que veem de longa série de jogos seguidos ou que dão sinais de desgaste físico podem receber um descanso. Uma figura que pode ser particularmente decisiva na partida seguinte, também. Mas jogadores que estão em condições de jogo, sem desgaste acima do comum, poderiam ser escalados.

Colocando titulares sempre que possível, os técnicos passam aos jogadores o recado de que aquelas partidas de início de Brasileirão são importantes e merecem esforço em campo. Além disso, mantém o ritmo de competição do elenco, algo importante quando jogos decisivos se aproximam.

Pode parecer arriscado, ainda mais se um jogador titular se contunde e desfalca a equipe no jogo seguinte. De qualquer modo, é um risco calculado. Muito melhor corrê-lo do que chegar ao fim do ano lamentando os tropeços no início do campeonato para tentar um título que talvez nem tenha vindo.

5,26%

O Campeonato Brasileiro ainda não empolgou. Ainda que a CBF siga sem fazer algum trabalho de marketing para valorizar o torneio e a Globo, que detém a exclusividade de transmissão da competição em TV aberta, fechada e PPV, continue tratando o futebol apenas como um evento, não como um produto, é inegável que a falta de ânimo se deve ao futebol apagado das equipes. O que significa apenas uma coisa: foram duas rodadas opacas, nada além disso.

A Série A tem 38 rodadas. Assim, foram disputados apenas 5,26% da competição, um índice irrelevante e que não serve de amostra para se concluir o que ocorrerá até a primeira semana de dezembro, quando os times concluirão sua participação no torneio. Há tempo de sobra para equipes reagirem, outras perderem força e o público ir (ou abandonar) ao estádio.

Isso fica evidente na avaliação dos times. Internacional (mesmo com os 100% de aproveitamento), São Paulo, Corinthians e Flamengo, apontados por muitos como integrantes da lista de favoritos, foram criticados pelo futebol pouco convincente. Pois, desde a implantação do Brasileirão em pontos corridos, apenas uma vez, o campeão tinha mais de 50% de aproveitamento depois de duas rodadas. No caso, o Cruzeiro de 2003, que fez 4 pontos.

Santos de 2004 e São Paulo de 2006 e 2007 fizeram 3 pontos, enquanto Corinthians de 2005 e São Paulo de 2008 tinham apenas 1. Em todos esses anos, o comentário após duas rodadas é que “o time está ficando para trás, não parece tão forte assim”. E, mesmo assim, conseguiu reagir.

Ainda que seja tentador lançar teses e análises profundas a respeito do que os times já apresentaram na Série A, o mais honesto é manter a análise pré-campeonato e deixar claro que tudo ainda está muito aberto. Atitude contrária é oportunismo para atingir a emoção do torcedor, que flutua de acordo com o último resultado de sua equipe.

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Equipe Trivela

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