O turbilhão de causos das últimas horas serve muito para explicar o futebol brasileiro – só não queira que tanta gente vá entender

Imagine-se sentado na mesa de um bar, cerveja em punhos, com uma única e exclusiva missão: explicar, a um amigo estrangeiro, o que aconteceu nas últimas horas do futebol brasileiro. Esqueça um pouco a barreira da língua, porque a tarefa já parece difícil o suficiente sem esse obstáculo. Você precisa detalhar todos os meandros do que acompanhou nos noticiários desde a noite de terça, do fulgor de uma rodada cheia de acontecimentos à intrincada dança das cadeiras entre os técnicos. Pensou na sua estratégia? Pois eu digo que, se você deixou mais certezas do que dúvidas na cabeça de seu amigo gringo, há boas chances de ter fracassado na sua missão. Ou você deveria ganhar um mestrado por isso.
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A quem se entope de futebol brasileiro há mais de 20 anos, e conhece também um pouco da história do esporte no país, eu nunca tinha visto horas tão emblemáticas sobre fenômenos que acontecem com tanta força por essas bandas. Até parece que um um Saci de meião e chuteira resolveu colocar um punhado de fatos aleatórios no meio do redemoinho e distribuiu a sopa de letrinhas nos noticiários por aí. Mas o pior: aconteceu mesmo e, no fim das contas, existe algum sentido, por mais nonsense que soe isso tudo. Talvez seja o melhor resumo do futebol nacional em tempos. O punhado de ocorridos encadeados dizem muitas coisas sobre o que ocorre ao redor da bola por aqui. Só não queira que alguém que não esteja acostumado com todo esse turbilhão de situações vá entender de bate-pronto.
É daqueles dias em que você se indaga se um bom literato seria capaz de colocar tamanha inventividade nos seus escritos. Possivelmente, os melhores realmente não fossem capazes, porque há um conjunto de fatos aí que rompem os limites da verossimilhança. Mais apto estaria um autor chinfrim, desses aspirantes a dramaturgo, que escrevesse uma novela bagunçada a ponto de ser difícil até desembramar as linhas traçadas entre os personagens do seu dramalhão. Há um punhado de comédia, de fatalidade, de entretenimento, de suspense. E uma riqueza de detalhes que levaria uma boa penca de capítulos até que tudo tomasse rumos razoáveis – ou que, afinal, levará ao menos mais 17 rodadas do Brasileirão.
E não pense que, ao ressaltar como essas horas são tão sui generis ao futebol brasileiro, eu estou exaltando tudo que acontece por aqui. Pelo contrário, há um tanto de contos deploráveis nesse meio, de desmandos à falta de caráter. Nem quero entrar puramente no juízo de valor, na real, senão acabo escrevendo uma calhamaço por aqui. Mas é fato que, se o noticiário esportivo é tão portentoso no Brasil, aquilo que o enriquece não é só do jogo ou não são apenas polêmicas vazias criadas por jornalistas. Existe também um sem fim de episódios que mais cabem à literatura, como se um deus do futebol pândego e ainda por cima embriagado resolvesse bater teclas na máquina de escrever.
Teve bom futebol? Teve. E basta olhar para as goleadas aplicadas nesta quinta-feira, de bola realmente redonda a desfilar nos gramados. As torcidas de Palmeiras, Grêmio e Athletico Paranaense enchem o peito por isso, ainda que exista do outro lado a dor de cabeça sofrida por CSA, Avaí e Fortaleza. Quem imaginaria o seis pintando duas vezes no placar num intervalo de pouquíssimas horas? Também rolou sua porção de mata-matas. Aí, certa soberba além das fronteiras terminou por prejudicar Corinthians e Atlético Mineiro, que até se fizeram mais humildes nos jogos de volta, com doses de raça, mas engolem aquilo que pode ser entendido como um “vexame internacional”. E dá-lhe assunto entre os torcedores.
Mas futebol não é feito apenas de beleza ou taquicardia. A bola também apanhou, bastante. E apanhou no gol contra do Santos diante do Fluminense, apanhou no caminhão de tentos perdidos pelo Ceará no Castelão, apanhou no fraquíssimo jogo que se viu no Morumbi. E até aquilo que deveria ter sido um jogaço acabou maltratado pelo apito. Não quero aqui avaliar os méritos (e sobretudo os deméritos) de Luiz Flávio de Oliveira na condução do Flamengo x Internacional. Fato é que certa prepotência, misturada com despreparo e pouca clareza nas decisões, contaminaram o andamento do que se prometia um ótimo duelo. A arbitragem, tão determinante nos rumos deste futebol varonil, não passaria incólume em tal rodada. Rendeu uma peleja de atos raivosos, assim como de bom trato com a bola e de valentia. De um ambiente que, aprove o resultado ou não, parece tão afeito ao Brasileirão.
E as últimas horas são um vendaval também por seus desdobramentos. Pelos personagens que ganharam uma tinta mais forte. Ou quem não quer saber qual o final da peça de dois atores tão destemperados como Paulo Henrique Ganso e Oswaldo de Oliveira, num palco ao vivo para milhões de pessoas? O desrespeito salta, bem como o despeito, e todo esse incêndio atiçado pela gasolina de quem já pedia um novo técnico nas arquibancadas. O pastelão vergonhoso teve até dublê de técnico à beira do campo. O cinismo das entrevistas logo depois é um evento à parte.
Enquanto a batata assa para Oswaldo (se já não queimou no momento em que você lê este texto), a ciranda dos técnicos segue a um ritmo de rave. Rogério Ceni trocou quem o amava por uma ilusão e talvez tenha aprendido um bocado com essa escola que é o futebol brasileiro. A diretoria do Cruzeiro, de uma série de decisões contestáveis e problemas muito mais sérios no âmbito jurídico, preferiu ouvir seu vestiário de medalhões, não a torcida. Preferiu demitir o treinador que ofereceu até trabalhar de graça para não perder o cargo, privilegiando assim os verdadeiros comandantes do clube numa nau sem rumo. O antecessor no cargo, Mano Menezes, vejam só, agora briga fortemente pelo título. E no desfecho mais surpreendente da manhã, mas que pouco surpreende nesse tumulto todo, Ceni deve ser recontratado pelo Fortaleza ao qual virou as costas – que, agora, vira as costas a Zé Ricardo e confirma a demissão do técnico. Se você contar essa ao seu amigo gringo, ele sofrerá um nó no cérebro.
Já dos lados do Morumbi, se Cuca saiu por admitir a incapacidade de fazer o São Paulo praticar um futebol aceitável, seu substituto será justamente o que deixou o Flu na fogueira para Oswaldinho. Fernando Diniz desembarca como um tiro no escuro, e com uma impressão de que são pequenas a chances de dar certo. Entretanto, é mais um dos capítulos que te deixam atiçados para pegar a pipoca e sentar diante da tela só para ver o que acontecerá nesse folhetim do Brasileirão. A troca de técnicos é uma roleta russa com as mesmas balas desgastadas. São mais nome do que ideias, na mera tentativa de dar uma resposta a torcidas insatisfeitas com aquilo que não ocorre à perfeição. Não parece nada profético dizer que Cuca só não assumirá um time até o final do campeonato se assim preferir, enquanto Felipão já se prepara ao novo emprego.
E o que falar dos dirigentes? Quase sempre, aqueles que tacam fogo no celeiro. Aqui, vale até olhar para o que aconteceu além da Série A, no caos que se instaurou no Figueirense. O capítulo policial no Orlando Scarpelli teve acusação de roubo e tentativa de derrubar o clube nos bastidores. Mas também provou o lado bom do esporte, com a mobilização da torcida para dizer que o Figueira é muito mais do que a ingerência e a covardia daqueles no poder. Tudo vira uma utopia de que o torcedor seja mais respeitado. Aliás, é exatamente uma utopia o que se sugere a quarta-feira na Fonte Nova, onde a própria diretoria do Bahia convocou sua torcida a boicotar a cerveja no estádio para brigar por um preço mais justo. Mais do que isso, conseguiu uma parceria para vender as latinhas bem mais baratas nos arredores do estádio. Não é o padrão do futebol brasileiro que a gente vê, mas é um caminho que a gente deseja ver mais.
No fim, os rumos que parecem determinados por casos randômicos também têm no fundo uma balbúrdia organizada. Há um boneco de ventríloquo que puxa algumas cordas dessa imensa marionete que é o futebol nacional. Se você acha que as manchetes do Brasileirão nas últimas 60 horas são inverossímeis demais, já leu a carta publicada por Rogério Caboclo no site da CBF, sobre o calendário imposto pela entidade? Pois é. O tal escritor fraco das ideias está sentado na principal cadeira do esporte nacional, achando que sua canalhice vai colar na hora de dizer que as convocações à Seleção são benéficas aos clubes e que todos os amistosos são importantes. Há uma gênese caótica aí. Talvez você, explicando ao seu amigo gringo na mesa de bar que tal texto não contém ironias, mas sim falta de vergonha na cara, faça ele entender um pouco melhor o noticiário surreal desde terça à noite.
Nessa porção de causos tão aleatórios quanto encadeados das últimas 60 horas, dá para dizer ao seu amigo estrangeiro na mesa de bar, entre uma golada e outra de cerveja, que o futebol brasileiro tem um quê de fatalidade do destino, embora também dê para lutar e tentar mudar. Entre alegrias e tristezas; entre saúdes e doenças; entre o que parece remediável e o que nunca vai ser remediado; há um imã que puxa qualquer um minimamente apaixonado ao centro do sofá para ver essa novela diária.
Cada um espera o dia em que seu time vai meter seis no adversário ou vai te garantir cerveja a R$1, sabendo que uma hora o apito soará ou que algum tumulto se instaurará nos bastidores, para que tudo fique à beira da explosão. Mas com a consciência de que, afinal, sempre te provocará sentimentos. Numa paleta que vai do cinza ao arco-íris, o futebol brasileiro segue dando um colorido inerente ao dia a dia. E poucos dias foram tão cintilantes quanto os últimos. Na dor e na delícia de ser, uma realidade que é nossa e à qual acabamos vidrados na mais pura inércia, no arraigamento, no pertencimento. Vai ser o assunto que conduzirá muitas das nossas relações – na rua, em casa ou no “zap”.
Num 2019 que já era fadado a ficar marcado na memória do futebol tupiniquim (por um Brasileirão tão competitivo, e de tantos bons jogos, e de tantos causos, e de tanta gente nos estádios), os últimos dias transmitem a certeza de que teremos muitas outras histórias para contar – não necessariamente boas. Sabe-se lá o que vem por aí, seguiremos em frente.



