Brasil

O tri do Athletico teve um desfecho inesquecível, com dois gols absurdos nos acréscimos que valeram a taça

As finais são feitas de momentos memoráveis – aqueles para serem contados por anos e anos, incansavelmente. Um título concebido em pleno clássico grava ainda mais estas imagens na lembrança, e fomenta a rivalidade que se vive no dia a dia, além dos 90 minutos. A decisão do Campeonato Paranaense de 2020 não teve a vibração dos torcedores nas arquibancadas e aconteceu em uma realidade longe de ser a mais eufórica. Dentro de campo, porém, o Athle-Tiba do Couto Pereira tem motivos para ficar na memória. O Furacão conquistou o tricampeonato estadual graças a um gol fabuloso do garoto Khellven nos acréscimos do segundo tempo. E não seria apenas isso. Logo depois, Nikão anotou outra obra-prima, que consolidou a virada por 2 a 1 e tornou mais marcante esta noite.

A vitória por 1 a 0 no primeiro jogo, com um gol de Léo Cittadini aos 45 do segundo tempo na Arena da Baixada, deixava o Athletico com a vantagem do empate no Couto Pereira. Até por isso, o Coritiba precisava sair mais ao ataque, mas o início do clássico foi equilibrado. A marcação rubro-negra abafava os rivais e as chances acabavam sendo escassas. E os alviverdes precisaram lidar com a saída de Rafinha logo aos 25 minutos. O atacante se lesionou seriamente, com suspeita de fratura, e seguiu direto aos vestiários, às lágrimas.

No fim do primeiro tempo, Santos já precisaria realizar uma defesaça em chute cruzado de Igor Jesus. O Coritiba também anulava os destaques do Athletico e conseguiu ir para o intervalo em vantagem, graças a um pênalti nos acréscimos. Num lance infantil, o experiente Adriano derrubou Robson na área e Sabino cobrou com categoria, para apenas deslocar o goleiro Santos. Neste momento, com a vitória parcial do Coxa por um gol de diferença, a decisão iria para os pênaltis.

O segundo tempo começou ainda travado, com muitos cartões. O Coritiba teve a chance de fazer o segundo aos 17 minutos, quando Robson assustou numa batida cruzada. Depois, quando Léo Cittadini forçou a defesa de Muralha, Santos respondeu com um milagre para fechar o ângulo de Gabriel. Estava claro que, apesar das chances mais contundentes do Coxa, um lance de inspiração desequilibraria. E a ajuda quase veio do juiz, que ia expulsando Marquinhos Gabriel de maneira errada aos 34. O árbitro percebeu que o meia não tinha dois amarelos só depois de mostrar o vermelho e corrigiu a decisão.

O Athletico prendeu a respiração quando William Matheus acertou a trave aos 42, em lance paralisado por falta. E quando tudo parecia indicar que a noite seria resolvida mesmo na marca da cal, o fantástico aconteceu duas vezes com o Furacão. Primeiro através de Khellven, lateral de 19 anos que entrou no lugar de Adriano durante o segundo tempo. O garoto potiguar, trazido do Guarani de Palhoça, já tinha feito história ao se tornar o primeiro jogador nascido neste século a estrear com a camisa rubro-negra. Mas esta curiosidade vira apenas uma nota de rodapé, diante do que ele aprontou aos 47 do segundo tempo no Couto Pereira.

Khellven já tinha dado outras mostras de talento no Athletico, a ponto de acumular aparições esporádicas desde 2019. Contudo, o que fez nesta quarta-feira é para se firmar como xodó da torcida e, independentemente do que acontecer no futuro, ter seu lugarzinho na história rubro-negra. O prodígio pegou a bola no lado direito e resolveu arriscar o chute. Acertou um relâmpago, num petardo cruzado que saiu do alcance de Alex Muralha e, retilíneo, morreu no ângulo. Gol antológico que valia, de quebra, o troféu. E teria mais.

Quando o Coritiba partiu ao desespero do outro lado, foi o próprio Khellven quem travou a tentativa dos adversários dentro da área. E num momento em que o clássico parecia resolvido, Nikão resolveu torná-lo ainda mais inacreditável, aproveitando a reposição errada de Muralha. O ídolo rubro-negro não fazia grande partida e nunca tinha balançado as redes em Athle-Tibas. Também descolou seu pombo-sem-asa e bateu direto da intermediária. A bola encobriu Muralha e tocou no travessão, antes de morrer dentro da meta. A conclusão apoteótica do Paranaense 2020, que rendeu logo depois o apito final e a celebração athleticana pelo tri.

Se não foi uma atuação deslumbrante do Furacão, o talento de seus protagonistas permitiu que ficasse essa marca. O Coritiba fazia uma partida ligeiramente superior, ao forçar Santos a mais defesas difíceis, e ficou a um triz de definir nos pênaltis. Só que não teve lampejos de tamanha maestria, que gravam este Athletico campeão. Os rubro-negros chegam aos 26 títulos paranaenses, ainda 12 atrás dos alviverdes, mas dominantes desde a metade final da década. E se o time de Dorival Júnior ainda precisa amadurecer para repetir as outras façanhas athleticanas recentes além dos limites do Paraná, ao menos já sustenta a hegemonia no estadual.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo