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O técnico que transformou a defesa do Guarani em muralha

O que fazer quando um técnico assume o comando de um time rebaixado no campeonato estadual, que vem de um histórico de nove rebaixamentos em 10 anos e com problemas fora de campo? Tarcísio Pugliese tem conseguido fazer desse time o líder do Grupo B na Série C do Campeonato Brasileiro. Mais do que isso: a equipe não toma gol. Em sete jogos, nenhum gol sofrido. Esse time é o Guarani, tradicional clube de Campinas. O mais curioso é que o time venceu quatro vezes por um a zero e empatou outras três vezes por 0 a 0.

Do rebaixamento no Paulista à boa campanha na Série C, o Guarani mudou bastante. E o técnico tem bastante a ver com isso. “O Guarani vinha em uma situação muito ruim, muitos rebaixamentos, muitas situações complicadas fora de campo. Era necessário mudar a postura, o pensamento, fazer as pessoas acreditarem que era possível voltar a vencer”, disse o técnico à Trivela.

Tarcísio tem 32 anos, menos que um dos jogadores mais famosos do clube, Fumagalli, que tem 35. Mas o técnico trabalha com futebol profissional desde os 18, quando fez estágio como preparador físico na Ponte Preta. Passou por diversos clubes, como Guaçuano, Campinas, Nacional-AM, Águas de Lindóia, Guaratinguetá e Americano. Foi no Guaçuano, clube do interior de São Paulo, que ele teve a sua primeira chance como técnico efetivo, aos 26 anos, em 2006.  Desde então, passou por diversos clubes. Nesse tempo, se tornou um técnico experiente na Série C, onde dirigiu o Rio Branco, do Acre, Luverdense, do Mato Grosso, Icasa, do Ceará, e o Oeste, de São Paulo. Depois, dirigiu também a Caldense, em Minas Gerais, antes de chegar ao Guarani, depois do campeonato estadual.  Começar cedo, para ele, foi importante para sua formação como técnico.

“Essa experiência ajuda, sim. Comecei a trabalhar com futebol aos 18 anos, sempre no profissional, e já vivi, e vivi muita coisa. Muitas coisas eu vivi várias vezes e a experiência ajuda a melhorar”, conta o técnico, que tem um aspecto que chama a atenção em seus trabalhos: o baixo número de gols sofridos pelos seus times. Em 2012, Pugliese dirigiu o Icasa e o Oeste, ambos por um baixo número de jogos. No Icasa, foram seis jogos e só três gols sofridos. No Oeste, cinco jogos e seis gols. Os dois times foram finalistas da Série C e o Oeste foi campeão. O treinador deixou o time do interior paulista antes da fase final, por divergências com a diretoria.

Na Caldense, no Campeonato Mineiro deste ano, foram 15 jogos e 10 gols sofridos. No time mineiro, a campanha teve três vitórias, seis empates e duas derrotas, sendo uma para o Cruzeiro e outra para o América. Terminou em sexto lugar. Veio para o Guarani para dirigir o time na Série C, depois do rebaixamento em último lugar no Campeonato Paulista. O time já tinha sido rebaixado da Série B em 2012.

“O objetivo era reestruturar, não dentro de campo, mas fora de campo. Muita coisa já melhorou. E o objetivo é o acesso”, disse, confiante, o jovem técnico. E a história dos times de Pugliese se repete no Bugre. O bom desempenho defensivo chama a atenção. São sete jogos até aqui e nenhum gol sofrido. Foram quatro vitórias por 1 a 0 e três empates em 0 a 0. Pugliese não acredita em coincidência para sofrer tão poucos gols.

“É metodologia. É preciso treinar situações de jogo, situações que o jogador irá ver em jogos. Muito treinamento”, disse o treinador à Trivela. Ele mandou reduzir o campo do estádio Brinco de Ouro e disse, em entrevista ao UOL Esporte, que a ideia era para aplicar mais facilmente no jogo os treinamentos em campo reduzido. Mais do que isso, para dar mais intensidade ao jogo e complicar o adversário que quiser ficar tocando a bola na defesa. Pugliese trabalha muito a transição entre os setores do gramado e quer isso aplicado de forma intensa pelo seu time.

“Meu time sempre sabe muita coisa sobre o adversário, sobre as cobranças de falta e escanteio. Estudo bastante. Isso ajuda a não levar gol. Fizemos só um, mas estamos criando muitas oportunidades, que é o mais importante”, disse Tarcísio ao UOL, quando a Série C ainda estava na quarta rodada. O técnico também falou que é fundamental que todos os jogadores do time participem do jogo e, claro, da recomposição. “É fundamental que atacantes e meias participem da marcação. Sempre os 11 atletas estão envolvidos. Todos os jogadores precisam participar, trabalhamos muito a transição”, afirmou o treinador, que se preparava para treinar o time que enfrenta o Vila Nova, em Campinas, nesta quinta.

A parte tática é um aspecto que o técnico trabalha bastante, embora ele não separe os treinamentos em físicos, técnicos e táticos. Ele diz que sempre trabalha todos esses aspectos conjuntamente. Pugliese considera que o futebol brasileiro tem muito a evoluir e, mais do que isso, já ficou para trás em relação a outros países. “Eu acho que o futebol brasileiro precisa evoluir bastante. Em termos de modelo de jogo, estamos atrás de vários países. Acho que precisamos dessa evolução e isso está acontecendo”, afirmou o técnico. Quando perguntado sobre a polêmica que surgiu em torno da necessidade de jogadores brasileiros irem para a Europa aprenderem a jogar taticamente, como a falada necessidade de Neymar ir para o exterior para melhorar seu jogo, Pugliese criticou a formação dos jogadores no Brasil.

“Dizer que um jogador precisa sair do Brasil para evoluir taticamente, é verdade, mas é um absurdo. O jogador aqui é visto como ‘burro’ algumas vezes, aí vai para um país como a Sérvia e fica ‘inteligente’? Então onde será que está o problema? É no atleta ou na formação? Precisamos evoluir sim, melhorar em vários aspectos e esse é um deles”, afirmou o treinador, que se formou em educação física na Unicamp. A formação acadêmica e a experiência precoce no futebol ajudam no trabalho de Tarcísio. “É sempre melhor ter o maior nível de conhecimento possível. Tem vários treinadores com perfil parecido com o meu e que têm feito bom trabalho. Acho que está mudando”, disse Pugliese.

Sem sofrer gols, o desafio do Guarani é conseguir marcar mais gols. Foram quatro gols em sete jogos, mas Pugliese diz que a evolução do time está acontecendo por etapas. “A equipe tem melhorado, é gradativo. Nosso planejamento era esse, primeiro se estruturar defensivamente para depois evoluir em outros sentidos”, analisou o técnico. Com 15 pontos, o Bugre é líder, um ponto à frente justamente do Vila Nova. O aproveitamento de mais de 70%. Na primeira fase da Série C, são 18 jogos para definir os quatro classificados às quartas de final. O bom desempenho faz o time sonhar em voltar à Série B em 2014. Com o que apresentou até aqui, o Guarani tem todos os motivos para sonhar alto. E um sonho sofrendo poucos gols.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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