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O sonho da Mata Sul de ter um time na primeira divisão do Pernambucano foi adiado mais uma vez

Por Leandro Paulo Bernardo

Talvez ninguém tenha escutado ao jogo válido pela semifinal do Campeonato Pernambucano da segunda divisão com tanto simbolismo e ternura quanto esse dentista que vos escreve. Garanto que estava mais eufórico que o público de 1.023 pagantes no Estádio Mendonção, em Belo Jardim, mesmo que, simultaneamente ao digitar esse parágrafo, tenha saído o gol do time da casa que elimina o Barreiros.

Estava perto de finalizar esse texto relatando a epopeia do Barreiros, que vencia por 3 a 2, mas, novamente, coube ao destino que o nosso sonho fosse adiado. O Belo Jardim empatou, aos 44 minutos do segundo tempo, e como havia vencido o primeiro jogo por 1 a 0, conseguiu o acesso para a primeira divisão, no último domingo. Mas a história do time de 2015 tem que ser aplaudida.

O contexto subliminar desse jogo é o fato de que, em 101 edições do torneio estadual, jamais uma equipe da mata sul do estado tenha disputado uma edição da primeira divisão. Até os jogos em Ipojuca eram de clubes da capital. Mesmo que geograficamente alguns conservadores queiram afirmar que a região de Vitoria de Santo Antão seja parte dessa referida região, sempre soubemos que, cultural e economicamente, elas são regiões distintas. Secciona-se a mata do estado em Norte, Sul e a região de Vitória de Santo Antão.

Na época dos campeonatos de usinas (metade do século passado), tínhamos os grandes esquadrões, pois éramos o grande centro canavieiro do estado. Naquele período, destacavam-se o time do Leão XIII, de Catende, e o Usina Treze de Maio, de Palmares. Na primeira tentativa de subir, “conseguimos’” o titulo de 1977 com a Associação Atlética Maguari, do município de Bonito. A equipe foi fundada no dia 1º de Maio de 1971, para a distração dos funcionários das Indústrias Alimentícias Maguari, fabricantes e exportadoras de sucos.

Contudo, esse torneio estava em sua primeira edição e não deu acesso para a elite do ano seguinte. Ele foi realizado apenas para as equipes excluídas (que não tinham condição de participar da série A1). O outro time da região foi o Central Barreiros, que ficou na lanterna, com oito derrotas, um empate e levou a maior goleada, do AGA de Garanhuns, por 7 a 1.

O próprio campeonato da segunda divisão nunca foi muito regular, justamente por não haver a garantia de disputar a elite. A maior cidade da região, Palmares, foi a que mais teve um clube disputando a competição frequentemente. O Palmares Futebol Clube, fundado em 1995, jogou o torneio em 1998, e brilhantemente alcançou o terceiro lugar. Voltou em 2000, mesmo com o seu estádio Ulissão totalmente destruído pela enchente daquele ano. Também participou das edições de 2003, 2005 e 2007, quando houve um clássico da mata, contra o Usina Catende.

Foi quando pude assistir a grandes esquadrões jogando no estádio Capitão João de Brito, em Quipapá. Em meus sonhos de criança, imaginava um time perfeito com Zé Boi de Minas de Quipapá, Zinho de Maraial, Serginho de Belém de Maria, Davi de Quipapá e Lira de São Benedito do Sul. Mal sabia que o amadorismo não combinava com o capitalismo emergente do futebol. A paixão não tinha empresário. Os “craques do meu sonho” corriam apenas pelos campos da mata.

Nós vimos com orgulho o sucesso de Mirandinha, Edson Miolo, Tozó, Edson Silva, Catende (o dos anos 1970, que era tricolor, e o dos anos 1990, alvirrubro) e até tínhamos que estender a explicação para dizer que Augusto Recife era natural de Joaquim Nabuco. Enchemos o peito de orgulho ao saber que o gol mais rápido da história do Campeonato Brasileiro foi marcado por Nivaldo, catendense de fibra, que ensina a arte que o consagrou na sua própria terra.

Já estava pronto para associar o acesso do Barreiros com os versos do nosso maior poeta: Ascenso Ferreira. Continuaremos, porém, sem estar na vitrine do futebol local. Seguiremos com péssimo IDH, com usinas falidas, risco de enchentes, sem fábricas. Mas ainda temos água, cana, mata, rios e sonhos.

Meu Deus! Já deixamos a praia tão longe…

No entanto avistamos bem perto outro mar…

Danou-se! Se move, parece uma onda…

Que nada! É um partido já bom de cortar…

Vou danado pra Catende,

Vou danado pra Catende,

Vou danado pra Catende com vontade de chegar…

Já ouvi várias vezes que o “futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes”. Nosso paradoxo social não mudaria com o êxito do Barreiros, mas até o futebol reflete o quanto nossa mata meridional é deixada em segundo plano, econômico ou esportivo. Culturalmente, por outro lado, sempre seremos a resistência.

Quando for dormir, queria novamente sonhar com esses esquadrões. Talvez alguma foto do blog do Beto Maravilhosa possa alimentar essa quimera. Talvez o meu respeito por esses craques mantenha o sonho infantil vivo, como nessa foto de 2013, com o craque Davi. Certamente, nesse mundo invertido, eu posso sonhar com futebol, paz, igualdade e poesia.

davi paulo

“A trilha desse sonho bem que poderia ser uma analogia,

Que possa imaginar uma Paris recuperando sua alegria,

Tal qual “Seu Ascenso” fez em Oropa, França e Bahia”.

“Meus olhos Brasileiros não enjoam da Europa sem piedade

Tal qual aquele poema de Carlos Drummond de Andrade,

Só espero que lá, em Minas ou na Mata tenham fraternidade”.

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