BrasilCopa do MundoEliminatórias da Copa

O rodízio de capitães da Seleção, a liderança difusa e o debate que fica para a Copa

A braçadeira serve de enorme símbolo a Casemiro. Símbolo de quem passou alguns anos desacreditado, justamente por “não ter a cabeça no lugar”. Símbolo de quem se afirmou em alto nível, ainda que as taças da Liga dos Campeões ajudem até mais a representar isso. Símbolo de quem é uma peça fundamental na engrenagem de Tite, atualmente entre os melhores cabeças de área do planeta. Aos 25 anos, Casemiro merecidamente será o capitão da seleção brasileira. Carregará a responsabilidade de chefiar o time em campo na visita à Bolívia, em La Paz, pelas Eliminatórias da Copa. Coloca-se como uma liderança por seu empenho dentro de campo, assim como a firmeza e a abnegação para manter o sistema funcionando durante os 90 minutos.

VEJA TAMBÉM: Dona Ivone, a mãe de Tite, é simpatia pura e emoção ao falar sobre o filho

Casemiro é, no fim das contas, mais um dos capitães de Tite. Desde que o treinador assumiu a Seleção, 12 jogadores diferentes iniciaram as partidas com a braçadeira. Miranda e Daniel Alves foram os únicos que repetiram a missão, justamente escolhidos para capitanear nos primeiros compromissos do treinador. No mais, o revezamento vem sendo uma das marcas do trabalho do gaúcho. Demonstra o seu ideal à frente do time, em valorizar o conjunto, embora também levante questões.

O rodízio já tinha sido anunciado por Tite desde a sua primeira coletiva de imprensa – algo que ele fez no Corinthians, especialmente depois da conquista da Copa Libertadores. Perguntado sobre a posição de Neymar como capitão, o treinador foi enfático: “O objetivo da troca de capitania é mostrar que todos têm uma responsabilidade sobre a performance do grupo. Todos vencem, esta é a grande marca de uma equipe. E essa mudança te traz isso. Existem vários perfis de liderança: a técnica; a comportamental; aquela em que você externa publicamente as suas ideias, o que é difícil; aquele que é exemplar no seu dia a dia, no seu trabalho, na sua disciplina… Existem diversas facetas. Eu procuro, sim, fomentar esse tipo de relação enquanto grupo. Ganham um, ganham todos. A alegria de um é a alegria de todos, Phil Jackson fala no seu livro. Precisamos de senso de equipe”.

O tal senso de equipe de Tite tenta se renovar a cada partida. E os mais diferentes perfis de capitania foram atendidos ao longo dos últimos meses. Miranda, Daniel Alves, Thiago Silva, Marcelo, Filipe Luís, Fernandinho, Paulinho, Renato Augusto, Philippe Coutinho, Neymar e Robinho usaram a braçadeira, enquanto Diego ainda a recebeu no segundo tempo do amistoso contra a Colômbia. Isso torna a responsabilidade bem mais difusa, enquanto o papel do capitão se coloca apenas como um simbolismo de representar a Seleção nas cerimônias oficiais, bem como de se tornar o principal canal de comunicação com o árbitro.

O revezamento permite também que o treinador adapte a escolha do líder conforme a personalidade desejada para determinado confronto. As únicas repetições aconteceram justamente nos clássicos contra Uruguai e Argentina: a serenidade de Miranda na visita ao Centenario, contra a Celeste, e a energia de Daniel Alves no duelo com a Albiceleste no Mineirão. No amistoso contra os argentinos em junho, a braçadeira ficaria com Thiago Silva, em duelo no qual o Brasil não contou com parte de seus titulares.

A postura de Tite relativiza uma discussão recorrente durante a última Copa do Mundo. Muito se debateu sobre o real papel do capitão, especialmente diante das emoções afloradas de Thiago Silva – o que, para muita gente, soou como descontrole diante da pressão em disputar a competição em casa. Com seu revezamento, o treinador não apenas diminui a carga sobre um determinado atleta, como demonstra a importância de cada um dos 11 presentes em campo na condução do “estado anímico” da equipe. Em teoria, todos precisam exercer a sua liderança, e de maneiras diferentes: seja ela a técnica, a comportamental ou qualquer outra que sirva para fazer o coletivo funcionar bem. Repetindo, o tal senso de equipe.

Obviamente, há outras consequências com o rodízio da braçadeiras. O que parece bem político na teoria talvez não dê certo na prática, durante a Copa do Mundo. Quem vai ser o capitão na Rússia? Tite manterá o sistema também durante o torneio? Se a pressão aumentar, quem vai ser o cara a bater no peito e a acordar o time no grito? E, se o hexa vier, quem vai ser o encarregado de erguer a taça? Respostas que ficarão a encargo do treinador, a partir de junho de 2018. Resta saber o quão pertinente ele considerará a escolha fixa de um capitão. E, dentre tantos nomes testados, que assumirá a missão.

Se a escolha de um capitão “principal” é o praxe em qualquer seleção, ela ocupa ainda mais o imaginário durante a Copa do Mundo. Principalmente no Brasil. Principalmente para quem sucumbiu diante de Obdulio, talvez o maior emblema daquilo que se imagina sobre o dono da braçadeira. Principalmente para quem viu Bellini imortalizar seu gesto, Mauro repeti-lo, Carlos Alberto eterniza-lo, Dunga explodi-lo e Cafu sublimá-lo com declarações de amor. Nos cinco Mundiais que conquistou, a Seleção teve capitães com perfis distintos – comandando seja pela inteligência tática, pela taça, pela experiência ou no que mais fosse. Tite elegerá alguém assim? Por enquanto, as opções são vastas, mas sem um protagonista para a função. Fica o debate.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo