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O que parte da torcida do Palmeiras fez com Tiago Maranhão tem um nome: covardia

A noite de quinta-feira foi de futebol e de mais um episódio lamentável de torcedores, que parecem não entender qual é o trabalho da imprensa. O Palmeiras enfrentou o Rio Claro no Pacaembu e, em determinado momento, Tiago Maranhão, repórter do SporTV e do Premiere, relatou que o preparador físico Omar Feitosa usava um rádio comunicador, algo que é proibido pela regra. Veja: o infrator foi Omar Feitosa. Este é um ponto importante da história.

Como já virou rotina no futebol brasileiro, alguém que estava assistindo ao jogo na transmissão da TV avisou a arbitragem. Não sabemos quem foi, se o delegado do jogo ou o quarto árbitro ou alguém mais. Tiago Maranhão só reportou o fato na TV. O árbitro, Marcelo Aparecido Ribeiro de Souza, aparentemente não viu, mas foi avisado por outros membros da arbitragem da irregularidade.

O árbitro foi até Feitosa, que negou ter usado o equipamento. Maranhão reforçou que garante tê-lo visto usar. O comentarista da transmissão, William Machado, diz que viu o preparador físico passar o equipamento para outro membro da comissão técnica antes que a arbitragem chegasse até ele. Marcelo Aparecido, então, expulsou o preparador de campo.

Tiago Maranhão foi atacado nas redes sociais por ter cumprido a sua função de repórter, de ter informado algo que ele viu, que aconteceu. Torcedores ficaram indignados, como se ele tivesse feito algo errado. O ameaçaram, como se ele, como repórter, tivesse que se omitir de dar essa informação.

O primeiro questionamento: por que isso não acontece em outros jogos? Por que com o Palmeiras? Quem já trabalhou com futebol diz que essa é uma prática comum e que provavelmente já aconteceu antes. Raramente aconteceu de ser pego. O que vemos acontecer eventualmente é o técnico ser expulso e alguém da comissão técnica tentar, malandramente, se comunicar com o treinador, seja por celular, seja por rádio. Algumas vezes, o árbitro percebe e expulsa também o membro da comissão técnica que está cometendo a infração.

O problema da arbitragem que vê TV

O que não está esclarecido, e que é um problema recorrente da arbitragem brasileira, é quem levou a informação que só foi transmitida na TV para a arbitragem. É um questionamento que já acontece desde a Copa do Mundo de 2006, quando Zinedine Zidane foi expulso de campo depois de uma agressão a Marco Materazzi. O árbitro não viu, mas depois que o lance foi exibido na TV, ele foi avisado e Zidane foi expulso.

No Brasil, também já vimos isso acontecer. Em 2012, um gol do Palmeiras foi anulado depois de, aparentemente, o árbitro ter sido avisado que Hernán Barcos empurrou a bola para as redes com a mão, em um jogo contra o Inter no Beira-Rio.

Vimos também em 2015, quando Egídio, também do Palmeiras, foi expulso  em um jogo com a Chapecoense. A falta não existiu, mas o árbitro já tinha mandado o jogador para o chuveiro quando a TV mostrou que o lance, na verdade, sequer foi falta. Alguém avisou a arbitragem que voltou atrás e retirou o cartão. O jogador voltou dos vestiários e seguiu em campo.

Outro lance do Brasileirão 2015 que vimos isso acontecer foi no jogo entre Figueirense e Atlético Mineiro. O árbitro marcou um suposto toque de mão de Leonardo Silva e marcou a falta. O jogador reclamou e o árbitro deu o cartão amarelo. Como ele já tinha um amarelo por uma falta dura ainda aos seis minutos, foi expulso de campo. Eram só 21 minutos de jogo. O jogo virou uma confusão, com muita discussão, reservas entrando em campo para bate-boca. O árbitro, então, possivelmente avisado por alguém que viu o lance na TV, voltou atrás na decisão, anulou o segundo cartão amarelo de Leonardo Silva e, consequentemente, o vermelho. O jogador continuou em campo.

Tudo indica que os árbitros estão sendo avisados dos lances por alguém que os vê na TV. Não há comprovação disso, é claro. Alguém avisou o árbitro. E aqui entra um ponto importante: isso também é ilegal. A CBF quer que o uso da TV seja regularizado e foi uma das federações que solicitou isso à Fifa.

Covardia dos torcedores que atacaram Maranhão

O repórter deu a informação durante a transmissão. Só isso. Não foi o repórter que contou ao trio de arbitragem o que aconteceu. Como vimos nos exemplos acima, esse tem sido o comportamento da arbitragem em vários episódios. Tiago foi atacado covardemente por fazer o seu trabalho. Algo que é inaceitável. Não há sentido em atacar o repórter que deu uma informação do que aconteceu. Ainda mais fazendo ofensas e ameaças ao profissional, como se a função dele fosse ignorar algo só para agradar a torcida.

Não foi a primeira vez que torcedores perseguiram um repórter. Como o UOL Esporte mostrou, outros repórteres já foram alvos da torcida do Palmeiras recentemente. O caso de Tiago Maranhão é mais um que os torcedores se acham perseguidos e, mais do que isso, se sentem no direito de ofender e ameaçar um profissional. Tiago fez o seu trabalho de forma competente e séria como faz sempre. É um dos excelentes repórteres que temos cobrindo esporte. Mesmo assim, foi atacado. Simplesmente porque deu uma informação correta.

Os torcedores deveriam ficar indignados não com o repórter, mas com Omar Feitosa, que usou o rádio de forma ilegal. Deveriam também cobrar da arbitragem e da Comissão de Arbitragem da Federação Paulista de onde saiu a informação. O repórter fez bem em informar. Como a informação chegou ao árbitro? Quem é que assiste às transmissões de TV e informa o árbitro dentro de campo? Estas são as perguntas e é a estas pessoas que a cobrança dos torcedores deve recair.

O problema é que os torcedores acham que um repórter que deu uma informação que é prejudicial ao seu clube, mesmo que precisa e correta como foi no caso de Tiago Maranhão, deve ser xingado. Há torcedores que acham que o repórter que cobre o time, seja no jogo, seja como setorista, deve defender o clube, como se fosse um soldado. Se o repórter faz isso, está ludibriando o público. O trabalho dele não é esse. Defender o clube é papel da assessoria de imprensa, não dos veículos de imprensa.

Isso não quer dizer que não haja repórteres que erram e fazem coberturas ruins. Claro que há maus profissionais, em todas as profissões. Devem ser cobrados, mas não com agressões e ameaças. O que causa mais indignação no caso que vimos nesta quinta-feira foi que Tiago Maranhão foi um excelente repórter. Não cometeu nenhum erro ao relatar, durante a transmissão, algo que viu acontecer. E foi tão atacado que apagou o seu perfil no Twitter.

Os covardes continuam vencendo. E mais do que isso, dificultando que a informação chegue bem ao público. Um repórter que esconde informações nocivas ao clube que cobre prejudica não só a sua profissão e o público que o assiste, mas também o clube. Afinal, o clube não é cobrado por irregularidades. No fim, o prejuízo é também do torcedor.

Nós, na Trivela, consideramos que esse é um comportamento inaceitável dos torcedores. Nada dá direito a xingar e ameaçar Tiago Maranhão. Não é possível que esse tipo de comportamento continue sendo aceitável. Nós jamais aceitaremos.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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