O que a Fifa fez nos bastidores, a CBF preferiu tratar como ato público e pedir “foco no futebol”
A CBF fez um pedido descolado da realidade e que parece querer interferir na liberdade de cada um discutir o que quiser

Ninguém deveria se surpreender com a CBF dançando a mesma música tocada pela Fifa. É o que acontece há anos, nos mais diferentes tipos de favorecimentos. Também é comum ver a confederação brasileira fazendo o jogo de poder e de conveniência dos mais diferentes tipos. A associação com governos autoritários não era problema nem quando se tinha uma ditadura no país. Mesmo assim, a CBF poderia pelo menos se poupar, especialmente num momento em que investe em discussões pertinentes – carta da Fifa às federações, vazada pela imprensa, que pedia “foco no futebol”. A entidade brasileira, entretanto, preferiu fazer isso como ato público.
O futebol pode ser uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo em que gera aberturas sociais e impulsiona movimentos mais amplos, também pode ser uma ferramenta de opressão. A CBF preferiu exaltar apenas esse lado de “ferramenta social e construção de um mundo melhor”, o que é sempre válido e tem sido correspondido com algumas ações afirmativas da entidade dentro do futebol brasileiro. O problema é sugerir que, para isso ocorrer, deva se ignorar a escolha de um país autoritário, que suprime direitos e que explorou trabalhadores imigrantes, com centenas de mortos nas obras para o Mundial.
É bom deixar claro: o Catar não é o primeiro e nem será o último país com violações de direitos humanos que recebe uma Copa do Mundo. Os debates sobre as incongruências sobre o Mundial são inerentes, ainda mais quando se exige um “Padrão Fifa” que exclui e esfola. De maneira diferente, o próprio Brasil teve seus debates em 2014, a começar pelo “não se faz Copa do Mundo com hospitais”. A discussão é necessária e isso nunca excluiu a possibilidade de também curtir o futebol. É o que fazemos na Trivela, por exemplo. Você talvez já tenha lido dezenas de matérias aqui sobre os entraves do Catar, o que nunca impediu de contarmos também as grandes histórias de bola e campo. O futebol é assim, como um esporte que abarca temas muito maiores para a sociedade, como nenhum outro.
A Fifa ainda tinha uma questão de “colocar o cabresto” nas suas federações, quando são entidades oficiais que podem “desfocar do futebol”. Há movimentos fortes sobretudo em seleções europeias que questionam o Catar. A Dinamarca puxa a fila, com um plano de sete pontos que inclui uma delegação reduzida, a ausência da exposição de patrocinadores e a participação em eventos estritamente esportivos, a não ser que seja alguma oportunidade para melhorar as condições de trabalhadores imigrantes. Porém, a Fifa sequer deixou os dinamarqueses usarem uma camisa de treino pedindo respeito aos direitos humanos.
Quanto à CBF, o pedido é feito a esmo. À delegação? À imprensa? À torcida? Pode até fazer sentido como uma orientação interna, o que não deixaria de ser bastante questionável. Mas parece totalmente vazio de sentido jogar o “foco no futebol” aos ares, quando discutir outros assuntos relativos à Copa é questão de liberdade. Seria muito melhor se a CBF ficasse quieta na dela. Afinal, cada um discute o que quiser e nem mesmo absurdos históricos ocorridos em quase um século de Copa do Mundo não custaram o fascínio causado pelo torneio. Um fascínio que nunca cegou e que, muito pelo contrário, tantas vezes ajudou a abrir os olhos em outros temas.
Melhor ainda se essas discussões além do futebol puderem trazer melhorias, por mais que as tantas vidas já perdidas sejam irreparáveis. Na época em que o foco precisava ser além do futebol, tantas instituições ao redor do mundo, inclusive a CBF, preferiram ignorar os registros de mortes e outros abusos ocorridos no Catar. Dá para dizer que o “foco no futebol” nesses últimos 12 anos foi até exagerado. E não é um pedido descolado da realidade que vai mudar qualquer coisa.
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Abaixo, o texto da CBF, sob o título “Foco no Futebol”:
Concordamos com o pedido da FIFA para que o principal foco da comunidade desportiva esteja no futebol antes e durante a próxima Copa do Mundo.
O futebol tem vocação para ser uma ferramenta de transformação social e construção de um mundo melhor. Precisamos todos refletir sobre o que podemos e devemos fazer juntos para isso, nesse momento inclusive avaliando como o futebol pode contribuir para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.
Sabemos das dificuldades em construir diálogos entre culturas e o futebol é o nosso denominador comum, realçando muito mais o que nos une do que o que nos separa.
Concordamos inteiramente sabendo que, em conjunto com a FIFA, as autoridades do Qatar e outras entidades, os assuntos extra futebol estão sendo tratados na certeza de que o futebol pode ser uma força para mudanças positivas nas sociedades de todo o mundo.
A Copa é um evento mágico, sempre histórico, que é sempre recordado sobretudo pelo futebol, pela paixão e emoção que traz aos corações de bilhões de adeptos em todo o mundo.
Esperamos que a nossa Seleção possa fazer parte dessa história pelos melhores motivos e que o futebol brasileiro encante mais uma vez gerações de adeptos de todos os continentes.
Como a FIFA sempre faz questão de lembrar, esse torneio será também uma oportunidade para que torcedores de todos os lugares do mundo se encontrem e convivam em paz e alegria independente de sua origem, religião ou orientação sexual, unidos pela linguagem universal do futebol.
Por um futebol sem preconceitos.



