Brasil

O pessoal de cidade grande que me desculpe, mas o jogo da semana foi em Pelotas

A mitologia do futebol não é linear. Nem poderia. Quem dá o valor de cada momento não é um perito criminal, que coletas as provas, coloca no computador e faz uma análise química antes de determinar o significado de cada elemento. As circunstâncias de cada vitória, de cada conquista, pautam como elas ficarão na história, indepentemente do valor nominal delas. Qual o título mais importante para um corintiano, o Paulista de 1977 ou o Brasileiro de 2005? Qual o título mais importante para um flamenguista, o Carioca de 2001 ou a Copa do Brasil de 1990? E para o gremista, o Gauchão de 1977 ou a Copa do Brasil de 1997?

Para alegria dos objetivistas, os almanaques das histórias lineares registrarão que as partidas mais importantes dessa semana serão alguns confrontos da repescagem das Eliminatórias (a maioria deles tão barbada quanto o Cartagena x Barcelona da Copa do Rei) e a que oficializar o título brasileiro do Cruzeiro (mais previsível que o Olímpic Xàtiva x Real Madrid da Copa do Rei). Algum mais pacheco vai falar até no Brasil x Chile de Toronto e um mais exaltado vai pensar no Ótima Geração Belga x Ótima Geração Colombiana.

Se você é de algum dos países envolvidos na repescagem das Eliminatórias ou é cruzeirense, tem passe livre para preferir o jogo de sua equipe. Em qualquer outro caso, é dever moral do boleiro olhar para a decisão da Copa Regional Sul Fronteira nesta terça. Afinal, era um Bra-Pel valendo título.

O Brasil de Pelotas venceu por 2 a 1 de virada no Bento Freitas, mas o título foi do Pelotas pelos gols fora de casa (havia vencido por 1 a 0 na Boca do Lobo, mas o Brasil ameaça entrar na Justiça para contestar o regulamento). Foi o tira-teima entre dois rivais que já haviam decidido o primeiro turno (melhor para o Lobo) e o segundo (melhor para o Xavante). Para um dérbi tão acirrado e que tem sido tão pouco frequente (há 15 anos não ocorre no Gauchão, por exemplo), essa overdose só mostra quão sensacional foi a Copa Sul Fronteira. Só não foi mais porque tinha Bagé e não tinha Guarany, porque tinha São Paulo e não tinha Rio Grande. Mas isso é outro problema.

Saudar o clássico pelotense é particularmente relevante em um momento em que o futebol brasileiro cada vez mais se capitaliza e, como todo capital, tende a buscar os mercados mais polpudos. Ou seja, as capitais. Se você não é carioca ou paulistano, provavelmente fica resmungando contra as benesses das cotas de TV da Globo e a atenção da mídia que clubes de Rio e São Paulo recebem. Mas pense que, no âmbito estadual, seu time faz exatamente a mesma coisa com os pequenos do interior. E alguns desses pequenos não são apenas clubes sanguessugas que exploram os grandões para sobreviver.

Há equipes com tradição, paixão e rivalidades, que só gostariam de ter a oportunidade de viver dignamente, sempre podendo topar com os rivais que tanto amam odiar. Há Brasil e Pelotas, há Guarany e Bagé, há Caxias e Juventude, Ponte Preta e Guarani, Comercial e Botafogo, Americano e Goytacaz, Londrina e Grêmio Maringá, Marília e Noroeste, São José e Taubaté, Uberaba e Uberlândia, Colo Colo e Itabuna, São Raimundo e São Francisco…

O futebol brasileiro só poderá se considerar saudável quando houver espaço para toda essa gente viver. Para que um Bra-Pel decisivo não seja raro como o desta terça, independentemente da importância nominal da competição. Quando isso ocorrer, prometo que não vou mais dizer que o clássico de Pelotas foi o jogo mais importante da semana. Mas, no momento, ele é. Porque é o jogo que será lembrado por décadas, que fará seus torcedores curtirem ou lamentarem cada decisão dos jogadores, revisarem mentalmente cada lance, discutirem no bar. é a mitologia do futebol em construção.

FICHA TÉCNICA

BRASIL 2 x 1 PELOTAS

Local: estádio Bento Freitas (Pelotas)
Árbitro: Márcio Chagas da Silva
Brasil: Luiz Müller; Wender (Ricardo Bierhals), Cirilo, Fernando Cardozo e Rafael Forster; Leandro Leite, Washington, Márcio Hahn (Willian Kozlowski) e Cleiton; Joelson e Alex Amado (Éder Machado, depois Gustavo Papa). Técnico: Rogério Zimmermann
Pelotas: Paulo Sérgio; Igor, Pedrão, Bruno Salvador e Digão; Jovany, Paraná (Gadelha), Tiago Gaúcho, Régis e Mithyuê (Jéfferson); Gilmar. Técnico: Paulo Porto
Gols: Mithyuê (49’/1T), Fernando Cardozo (21’/2T) e Gustavo Papa (25’/2T)
Cartões amarelos: Igor, Bruno Salvador, Pedrão e Tiago Gaúcho (Pelotas); Fernando Cardozo e Leandro Leite
Cartões vermelhos: Gilmar (Pelotas) e Washington (Brasil)

Site do Pelotas comemora o título (Divulgação)
Site do Pelotas comemora o título (Divulgação)
Foto de Ubiratan Leal

Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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