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O Natal já teve um Corinthians x Palestra Itália decisivo pelo Paulistão, que alimentou a nascente rivalidade em 1921

A rivalidade entre Corinthians x Palmeiras já teve partida definindo o Campeonato Paulista em 25 de dezembro, exatamente há 100 anos

* Texto publicado originalmente em 25 de dezembro de 2020

Qualquer dia é dia de viver a rivalidade entre Corinthians e Palmeiras, inclusive o Natal. Prova disso é que a rixa já foi alimentada por um clássico em 25 de dezembro, valendo título. Os corintianos chegaram à última rodada do Campeonato Paulista de 1921 podendo levantar a taça. Uma vitória contra o Palestra Itália bastava para que os alvinegros levassem o terceiro título estadual de sua história. Os alviverdes, que haviam faturado o troféu inédito na temporada anterior, não tinham mais chances de ser campeões. Ainda assim, botaram água no chope dos rivais: a vitória palestrina por 3 a 0 tirou o doce da boca do Corinthians e deixou a faixa no peito do Paulistano.

Corinthians e Palestra Itália viviam a popularidade crescente desde o final da década anterior, com a rivalidade se atiçando pelos confrontos recorrentes e uma dose de provocação. Era difícil bater de frente com o Paulistano, mas os dois clubes de raízes populares eram os mais próximos de desafiar a potência da época. As duas conquistas anteriores do Corinthians haviam ocorrido pela Liga Paulista de Futebol, competição paralela à da Associação Paulista de Esportes Atléticos, onde figurava o Paulistano na época. Quando as duas instituições se fundiram, o Paulistano levou três troféus consecutivos da APEA – com dois vices palestrinos e um corintiano. A hegemonia seria quebrada em 1920, quando o Palestra superou o Paulistano no jogo-desempate para ficar com a taça. Já em 1921, o Corinthians parecia favorito a superar os poderosos.

Aquela edição do Campeonato Paulista se estendeu de abril a dezembro. Doze equipes integravam a disputa em pontos corridos, com dois turnos. Em tempos amadores e sem refletores nos estádios, os duelos se concentravam durante os finais de semana. A rodada final ocorreu nos dias 24 e 25 de dezembro, sem pausa para as festividades. Àquela altura, apenas Corinthians e Paulistano concorriam à taça. Os corintianos tinham passado à frente graças à vitória no confronto direto durante a antepenúltima rodada, por 2 a 0. Até aquele último compromisso, os alvinegros só tinham sido derrotados uma vez no Paulistão: havia sido para o próprio Palestra Itália no primeiro turno, por 3 a 1. Os palestrinos, contudo, haviam perdido os dois duelos ante o Paulistano e saíram mais cedo da disputa por isso.

O Paulistano entrou em campo no dia anterior, em 24 de dezembro. A equipe conseguiu a vitória sobre o Syrio, que figurava no meio da tabela: 3 a 2, com direito a um gol de Arthur Friedenreich. Assim, a pressão recaía sobre o Palestra Itália. Na época, discutia-se que os palestrinos poderiam até mesmo entregar o resultado ao Corinthians, dada a rivalidade com o Paulistano – por mais que também existisse uma animosidade com os corintianos desde os anos anteriores. E havia um elemento a mais na disputa: caso o Paulistano fosse mesmo campeão, levaria para casa a Taça Cidade de São Paulo, troféu que ficaria na posse definitiva da equipe que a conquistasse em cinco oportunidades distintas. O CAP havia erguido tal taça quatro vezes até então.

O embate decisivo aconteceu no Estádio Parque Antárctica, comprado pelo Palestra Itália meses antes. O árbitro foi o alemão Hermann Friese, ex-atacante recém-aposentado, que por três vezes se sagrou artilheiro do estadual e brilhava pelo antigo Germânia – o atual Pinheiros. E as expectativas eram enormes para aquele Dérbi. “Essa prova desperta, dadas as suas naturais circunstâncias, imenso entusiasmo nos centros esportivos, prevendo-se que a sede do campeão palestrino aflua uma assistência digna das grandes competições do ano”, descrevia o Correio Paulistano, na véspera do encontro.

Os palestrinos foram a campo com: Primo, Bianco e Pedretti; Bertolini, Picagli e Ítalo; Forte, Constantino, Heitor, Imparatinho e Martinelli. Nomes como Bianco e Picagli eram recorrentes na Seleção, embora o grande destaque fosse o atacante Heitor. Já os corintianos escalaram: Alonso, Nando e Gano; Rafael, Amílcar e Ciasca; Apparício, Neco, Gambarotta, Tatu e Brambilla. Amílcar e Tatu foram referências alvinegras naqueles tempos, enquanto Neco figura ainda hoje em qualquer lista de maiores ídolos do clube. Neco e Heitor, inclusive, eram companheiros de Friedenreich no ataque do Brasil durante a histórica conquista do Campeonato Sul-Americano de 1919.

Porém, se muitos apostavam que o Corinthians venceria, o Palestra Itália dominou a tarde, com o triunfo por 3 a 0. Os alvinegros tinham bem mais interesse na vitória e o mero empate forçaria um jogo-extra contra o Paulistano. Contudo, os alviverdes jogaram pela honra e deram um presente de Natal à sua torcida. Ministro iniciou o pesadelo corintiano, ao abrir o placar com 20 minutos do primeiro tempo, num belo chute. Já na segunda etapa, Imparatinho e Heitor terminaram de decretar a vitória palestrina. Um ponto à frente, o Paulistano ficava com a taça. Corinthians e Palestra encerravam a campanha logo atrás, com os mesmos 38 pontos.

“O Palestra, muito embora nada de vantajoso lhe adviesse do sucesso na contenda, atuou na peleja de maneira irrepreensível, desmentindo de modo categórico os boatos malévolos e menos honrosos que a seu respeito se propalavam há algum tempo. A turma palestrina, a despeito da sua aparente inferioridade de organização, motivada pela abstenção da luta de sua parelha de zagueiros, mostrou-se em em plano visível de superioridade sobre o rival, que não se desempenhou na prova com o valor e mestria que lhe davam direito ao título que aspirava conquistar”, descrevia o Correio Paulistano, no dia seguinte.

“Os corintianos agiram, aliás, desorientados desde o princípio, não tendo na primeira fase do jogo feito uma investida séria ou perigosa às posições palestrinas. No segundo tempo, quando a vitória já pendia favoravelmente ao Palestra, é que se notou uma forte reação dos forwards alvinegros, reação essa muito bem inutilizada pela valorosa linha de médios do campeão de 1920. Mas esse supremo esforço dos corintianos não alcançou o êxito por eles esperado e o Palestra pode então acentuar a supremacia no placar, supremacia evidente em campo desde o começar da interessante peleja esportiva. O placar obtido pelo Palestra deve-se atribuir ao desânimo que se apoderou das hostes corintianas quando a elas se afigurou inevitável o fracasso final. Três pontos a zero representam, na realidade, uma acentuada inferioridade de ação, inferioridade que todos devem reconhecer sem partidarismo e que foi patentemente comprovado nos dois tempos da prova de domingo”, complementa o texto.

Já A Gazeta trazia a avaliação dos jogadores palestrinos: “Primo – ótimo, calmo e seguro. Os dois zagueiros – ambos do segundo quadro, conduziram-se com acerto, merecem elogios. A linha média – mais uma vez deu mostras de sua pujança. Bertolini, Picagli e Ítalo, um melhor que o outro. O ataque – culminou em Forte, que foi o melhor elemento dos 22 jogadores em campo. Um colosso. Ministro, calmo e técnico como soe ser nos momentos difíceis. Heitor distribuiu com acerto e com acerto se conduziu nos assédios de seus comandados. Imparatinho, um perigo, e Martinelli, muito bem”.

Quanto aos jogadores do Corinthians, assim analisava A Gazeta: “Mario – jogou bem, ontem foi um de seus melhores dias na temporada. Os zagueiros – firmes, sobressaindo-se Nando, que é inegavelmente um elemento digno de selecionado. A linha média – muito falha. Apenas Ciasca estava firme. Mais uma vez evidenciou o pequeno médio esquerdo corintiano que é um carrapato. Amílcar nada fez, ontem esteve apagado. Os cinco atacante regulares – Américo pouco andou. Neco cavou muito, mas pouco produziu. García foi uma figura nula. Tatu, o melhor do ataque incontestavelmente, é um médio perigoso, infatigável. Ratinho, esforçado”.

Na época, ainda se organizou um jogo-desempate para que Corinthians e Palestra Itália pudessem decidir o vice-campeão. A partida marcada para 8 de janeiro de 1922 até valia taça, oferecida simbolicamente por um jornal. Todavia, aquele embate mal começaria, encerrado aos 20 minutos do primeiro tempo. Insatisfeitos com uma marcação do árbitro, os palestrinos resolveram se retirar de campo. A rixa ficaria expressa. E, apesar da vitória do Palestra no segundo clássico do Paulistão de 1922, após o empate no primeiro turno, o Corinthians acabaria faturando o título naquele ano – um ponto à frente dos rivais. O Paulistano perderia forças até fechar seu departamento de futebol em 1930, enquanto o Dérbi se afirmaria como a grande rivalidade do futebol paulista a partir daquele momento.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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