Brasil

O Maracanã não precisou de futebol para ser Maracanã, para ser de todos

A geral desapareceu, as arquibancadas de concreto foram substituídas por cadeiras coloridas, o anel superior é fruto apenas das memórias. Ainda assim, o Maracanã foi o bom e velho Maracanã nesta terça-feira. Sequer precisou de futebol propriamente dito para ser o Maraca pulsante de outros tempos. O Maraca das cores, dos credos e da gente, principalmente da gente. O Maracanã que, mais do que um estádio ou uma “arena”, se tornou um templo. E um templo que depende da profissão de fé daqueles que idolatram craques, que endeusam gols de placa, que veneram grandes vitórias. O Maracanã que não é mais o que já foi, mas sempre será Maracanã graças ao povo.

Seria injusto dizer que o Maracanã não teve, durante os últimos anos, momentos que fizeram jus à sua mística. Assim como, antes das infindáveis reformas dos últimos anos, o Maracanã passou por tempos de descaso e por noites de vazio. Mas andava meio raro ver o Maraca tão Maraca quanto foi numa tarde de portões abertos. O imaginário criado em torno do estádio estava lá. De crianças emocionadas pela experiência inédita a idosos que havia tempos não andavam por aqueles corredores. De qualquer um que quisesse e pudesse se integrar – por mais que os ingressos ao custo de um quilo de alimento tenham sido tão concorridos. De todos.

Coube ser uma tarde de Flamengo. Uma tarde da massa que se identifica tanto com aquele gigante de concreto – por mais que o Maraca seja de todos os cariocas e, afinal, de todos os brasileiros. Ainda assim, os rubro-negros servem como emblema àquilo que se imagina sobre o Maracanã. Àquilo que se espera do Maracanã e que não é apenas uma luta de flamenguistas, mas também de tricolores, vascaínos e botafoguenses. É uma voz que se faz ouvir, e que precisa ser mais ouvida em diversos cantos do Brasil.

A torcida do Flamengo não apenas esgotou os ingressos para um treino aberto. A torcida do Flamengo não apenas foi apoiar o time antes de um jogo decisivo pela Copa Libertadores, na qual os portões estarão fechados. Ela se transfigurou como a “Magnética” do passado. E, além de gritar com toda a sua força, de torcer sem esperar retribuição, de colorir aquelas cadeiras mortas entre azul e amarelo, a massa rubro-negra também se mostrou. Reivindicou um espaço que é de todos, pedindo ingressos mais baratos. Deixou claro que o futebol não é feito apenas de números, mas de paixão. E o Fla não será menos rico se conseguir agregar mais gente. Pelo contrário, sua riqueza está nesta atmosfera fantástica, e que só agrega à imagem do clube. É investir no futuro.

Obviamente, nem tudo é tão simples. Há uma equação intrincada no antes e no depois desta terça-feira histórica para o Flamengo. E que, no fim das contas, representa um entrave a vários outros clubes. Olhando para trás, os preços exorbitantes nos grandes jogos do Maracanã, os setores vazios na Ilha do Urubu, as dificuldades em integrar mais o programa de sócio torcedor, os episódios de violência na final da Copa Sul-Americana. Olhando para frente, a administração cara de um estádio de obras desnecessárias, as dificuldades para lidar com as debilidades em um estado falido, a falta de atratividade em um futebol de muitos jogos e pouca qualidade. Mas, acima de tudo isso, à esta multidão, está o Flamengo. Não é possível chegar a um denominador comum? Pelo que se viu entre estes 45.977 mil, dá para sonhar. Dá para sonhar com um futebol mais atrativo, mais barulhento, mais magnético.

E sonho foi algo comum e compartilhado no Maraca desta terça. Sobretudo pela quantidade expressiva de crianças que puderam conhecer aquela imensidão que também é deles. Não tem preço ver os olhos pequeninos brilhando e se perdendo diante das cores vivas que tremulam bem à sua frente. Das vozes pueris que, mesmo sem entender tanta coisa, se misturam à cantoria ensurdecedora. Das mãozinhas que batem palmas junto. E da vontade de continuar sendo parte daquela festa mais vezes. É o que fica. É o que o futebol deixa para o futuro. Um futuro que será, por exemplo, o menino Marquinhos, logo transformado em símbolo desta tarde. O garoto não segurou as lágrimas ao receber o ingresso para conhecer o Maracanã e se emocionou ainda mais no estádio. Foi mais um misturado à massa. Foi o que ele sempre teve vontade de ser, mas não tinha conseguido antes.

Seria ótimo que mais clubes abrissem seus treinos em ocasiões especiais e realizassem eventos de grande magnitude a baixo custo. Eles aproximam os ídolos de uma parcela importante da torcida, dão oportunidade a quem não pode ou não consegue ir aos jogos, criam uma corrente positiva em torno do próprio futebol brasileiro. Mas também seria ótimo que esta democracia popular não se limitasse a treinos abertos, a desembarques em aeroportos ou a outros tipos de recepção / apoio limitados ao entorno.

O futebol é feito de paixão e a paixão não encontra limites para se manifestar. Ela eclode onde pode e aí que demonstra a sua força. Ainda assim, esta paixão pelo futebol tem sua verdadeira nascente dentro dos estádios, nas arquibancadas. Principalmente, seria ótimo ver erupções como a desta terça mais vezes nos estádios, em dias de jogo. Que a terça-feira de Maracanã volte a ser domingo, e não só com o Flamengo, e não só no Maraca, e não só no Rio de Janeiro.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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