O maior orgulho do Flamengo é sua torcida, e o Nordeste é indissociável do orgulho que é ser Flamengo
O preconceito contra o Nordeste não combina com a essência do que é o Flamengo e do que é ser Flamengo e é condenável que a instituição se silencie diante de agressões tão graves

A grandeza do Flamengo pode até ser traduzida por troféus, por esquadrões, por ídolos. Porém, não há elemento maior para o gigantismo dos rubro-negros que sua torcida. Outros clubes podem falar que possuem Libertadores ou Mundial, mas não que têm uma torcida do tamanho da magnética. Sua gente é o que permite ao Fla ter fé mesmo nas fases difíceis e ser tão eloquente em meio às glórias. Há fanáticos espalhados pelos quatro cantos do Brasil, até do mundo. E todo flamenguista deveria se orgulhar do coração que pulsa forte no Nordeste.
O Nordeste simboliza muita coisa para o Flamengo. A lista de ídolos é infindável e passa por diferentes períodos históricos do clube. O time tricampeão carioca nos anos 1950, por exemplo, era praticamente uma seleção nordestina: tinha os alagoanos Dida, Zagallo e Tomires; o cearense Babá; o potiguar Dequinha; o paraibano Índio; os pernambucanos Duca e Cido. Em tempos nos quais a fama dos rubro-negros se espalhava pelas ondas do rádio, muitos nordestinos abraçaram a equipe graças aos seus conterrâneos. Ao mesmo tempo, massas de migrantes que desembarcavam no Rio de Janeiro tinham na Gávea exemplos de sucesso para se espelhar. E depois daqueles nomes vieram tantos outros – de Júnior a Nunes, de Bebeto a Aldair, de Ronaldo Angelim a Obina.
Há uma identidade de Flamengo que também abarca o Nordeste. O calor da torcida, o caráter popular, a raça em campo. Ser flamenguista no Nordeste causa inclusive incômodo em outras torcidas. E aos semelhantes rubro-negros, independentemente da origem, o que deveria importar mesmo é a segunda pele. Um sentimento praticamente único para todo torcedor do Fla é estar em qualquer cidade do país com a camisa do time e saber que as chances de encontrar um irmão de clube são gigantescas. Neste sentido, em raríssimos lugares essa acolhida costuma ser tão vibrante do que no Nordeste.
Existem esforços que não se medem. Gente que trata o Maracanã como um destino de peregrinação, uma Meca para visitar ao menos uma vez na vida. O Flamengo é o amor que faz muitos torcedores moverem montanhas aonde quer que estejam. E são muitas as montanhas que se movem a partir do Nordeste. Aficionados que não deixam de acompanhar um só jogo do clube. Apaixonados que, quando podem, se juntam à magnética em uma só voz no meio da multidão.
Ninguém é mais ou menos Flamengo (ou qualquer outro clube) pelo logradouro em que nasceu ou em que mora. O magnetismo rubro-negro, e do futebol como um todo, é aquele de conectar gente de todos os cantos.
E revolta quando o Flamengo como instituição se silencia ao preconceito nefasto que, por rixa política, discrimina uma parte enorme de seu próprio povo. Quando o nepotismo se sobrepõe à decência, bem como quando o interesse político ignora o que é identidade. O Flamengo é tão Nordeste, tão Norte, tão Centro-Oeste, tão Sul, quanto é Sudeste. E o Flamengo é muito mais os fiéis que o seguem em mais de um século de história do que os dirigentes que se acham no direito de falar pelo clube em meia dúzia de anos no poder.
Os cartolas passam, o Flamengo fica. E quem está à frente do Flamengo deveria ter a obrigação de zelar por sua gente. O Flamengo como instituição precisa se posicionar enfaticamente em defesa dos nordestinos, diante de um absurdo proferido por quem teoricamente representa sua “responsabilidade social”. Mas não: quem comanda o Flamengo prefere dissimular, se esconder atrás de um troféu novo, buscar os próprios interesses políticos. É o orgulho rubro-negro que se fere com a postura de quem não honra o que é o Flamengo.
Ser Flamengo dura mais que o período de gestão de um cartola, bem mais que um mandato de presidente da república. Dá um desgosto profundo ver o clube rodeado por pessoas que, por mais que façam um trabalho vencedor em campo, parecem mais interessadas em usá-lo como palanque. O que oferece um alento é pensar que, mais do que aqueles que querem se promover, o Flamengo se faz por milhões de invisíveis que formam um só. O maior orgulho do Flamengo é a massa, da qual uma parte imprescindível vem do Nordeste.
E aqui, se me permitem, já nem falo mais como jornalista, mas como o flamenguista que sempre amou o clube de longe e se indigna com uma declaração que, além de criminosa por si, escarra num Flamengo que é o que é muito por causa do Nordeste.



