O legado de Aldir Blanc é imenso, inclusive ao Vasco e ao futebol transformado em arte
Aldir Blanc colocava sua genialidade a serviço das letras. O multifacetado escritor transformava seu talento em prosa ou verso, criando de diferentes maneiras. Foi cronista nos jornais, publicou livros e assinou poemas, embora seu legado mais reconhecido tenha ficado para a música. As composições do carioca ainda hoje são cantaroladas por muita gente, em especial “O Bêbado e a Equilibrista”, assinada ao lado do amigo João Bosco e que, na voz de Elis Regina, se tornaria um símbolo da anistia política durante a Ditadura Militar. Aldir é das mentes mais brilhantes que a COVID-19 leva, vitimado pela doença na madrugada desta segunda-feira, aos 73 anos de idade.
Ao longo da vida, Aldir Blanc escreveu sobre muitos assuntos. Cotidiano e política eram temas frequentes em suas composições e crônicas, muitas vezes com uma característica dose de humor. E, sempre que possível, o carioca não se continha em incluir uma menção à sua grande paixão: o Vasco. O clube acompanhou os trabalhos do letrista ao longo das décadas. Virou dezenas de crônicas, um punhado de músicas e até mesmo livro sobre a agremiação. Aldir aparecia entre os torcedores mais célebres não apenas pela importância de sua obra, mas também porque raríssimos conseguiam traduzir tão bem o significado de ser vascaíno.
“Ser vascaíno é um sentimento em que a vitória e a derrota ficam em segundo plano, pois o que importa é jogar com raça e amor à camisa”, diria ao jornal O Globo, em matéria especial sobre o centenário do Vasco. Ou como poetizaria (com uma dose de ironia) ao Jornal do Brasil em 1988, parodiando Carlos Drummond de Andrade: “Noventa anos é mais ou menos a idade que eu tenho de tanto sofrer por esse time. Quando eu nasci, um anjo luso, desses que empurram burrinho-sem-rabo, me sacaneou: ‘Bai, Vlanc, ser Basco na bida’. […] A Cruz de Malta será sempre o meu pendão, porque o meu Vasco é o Vasco da minha infância”.
Nascido no Rio de Janeiro, em setembro de 1946, Aldir Blanc tinha sua influência cruzmaltina dentro de casa. Neto de um imigrante português, passou a acompanhar o clube por influência do pai. E, por mais que torcesse para o Vasco desde que se conhecesse por gente, um episódio em especial marcou seu fanatismo. Em 1956, quando a equipe de Martim Francisco conquistou o Campeonato Carioca por antecipação em cima do Bangu, o garoto estava nas arquibancadas do Maracanã. “Meu pai me levava para ver os jogos do Vasco. Eu ficava fascinado com o uniforme do time. Quando o Vasco ganhou o campeonato de 1956, eu tinha dez anos e meu amor se cristalizou”, relembrou, em declaração ao Jornal do Brasil.

O pai, aliás, seria determinante ao seu jeito de torcer – como ele próprio contaria: “Ah, o Vasco é uma confusão. Eu sou um torcedor diferente. Fui criado pelo pai indo a jogo do Vasco, meu pai sentado, não pulando na hora do gol. Às vezes um cara do Vasco fazia um gol e eu escutava uma frase do meu pai, fumando um Lincoln, murmurando: ‘Devia ter passado para o cara que estava solto na direita’. Pô, tinha sido gol! (risos) Um encrenqueiro. Eu do lado, garoto, querendo pular, mas não sabia o que fazer. Então já cresci sob esse signo crítico e me torno depois um pouco assim. Sou um vascaíno estranho. Se eu for goleado merecendo ganhar, o sofrimento é maior. Se for goleado porque merecia, o sofrimento é nenhum. Mas se, no meio desse processo, o neto aparecer com camisa do Vasco e disser ‘a gente perdeu, vô’, aí eu viro um caco”.
Aldir permaneceu apenas como um torcedor a mais do Vasco durante sua juventude, enquanto ainda cursava a faculdade de medicina para se tornar psiquiatra. No entanto, o talento para as letras falou mais alto e o carioca abandonou a carreira, para se dedicar principalmente à música naqueles primeiros anos. Seu leque de trabalhos se ampliou na década de 1970, enquanto firmava parcerias com João Bosco, Elis Regina, Clara Nunes, Taiguara e outros grandes nomes da MPB. Neste mesmo período, também escrevia suas crônicas ao semanário O Pasquim, símbolo da contracultura em tempos de ditadura. E, independentemente do tema abordado nos textos, quase sempre dava um jeito de incluir uma menção ao Vasco.
Aquele período serviu para tornar Aldir Blanc um vascaíno ilustre. Seguia frequentando as arquibancadas do Maracanã, preferencialmente no último degrau, onde ficava mais perto dos bares e tinha a vista da zona da Leopoldina – “acho uma visão linda, difícil de explicar o porquê”, dizia. Quando aparecia nos jornais, muitas vezes fazia questão de posar com a camisa cruzmaltina e frequentemente era convidado pelos jornalistas a dar opiniões dentro de matérias sobre o clube. Isso quando ele mesmo não se definia, em suas próprias linhas, como um “torcedor com a bandeira do Vasco na mão” – um símbolo do apego e da devoção.
Não demorou para que o Vasco se fizesse cada vez mais presente nas composições de Aldir Blanc. E, a partir dos anos 1970, ele também colecionou citações ao clube do coração em suas músicas. A canção mais escancarada sobre sua paixão não chegou a ser gravada, ‘Samba do Vasco’, em que escalava sua inesquecível equipe campeã em 1956. Nas demais, as menções costumavam ser um pouco mais sutis, em letras que falavam desde relacionamentos amorosos até a história de um ex-torturador da ditadura.
Curiosamente, alguns dos grandes parceiros de Aldir Blanc na música eram rubro-negros, a exemplo de João Bosco e Moacyr Luz – Guinga se juntava ao lado cruzmaltino. O Vasco, de qualquer maneira, permanecia nas letras. “Eu devia ter sentido o seu rancor, mas tava doido num jogo do Vasco”, escreveria em ‘Êxtase’, criada ao lado do também flamenguista Djavan. E não que o apego do carioca pelo futebol se resumisse apenas à sua ligação intrínseca com o Vasco. O esporte servia de metáfora da vida para Aldir Blanc, o que também se repetiu em outras canções. ‘Linha de Passe’ traz esse tipo de comparação, assim como ‘Gol Anulado’ – dois de seus maiores clássicos.
Além disso, por encomenda da Rede Globo, Aldir Blanc criou um dos maiores símbolos musicais das participações da seleção brasileira em Copas do Mundo. Composta ao lado de Tavito, ‘Coração Verde e Amarelo’ deveria ser o jingle da emissora para o Mundial de 1994, mas pegou tanto que virou uma espécie de hino às transmissões esportivas do canal. Crítico de vários treinadores do Brasil nas páginas dos jornais, de Telê Santana a Carlos Alberto Parreira, Aldir veria o tetra também aumentar a importância de sua obra dedicada ao futebol.
Como torcedor do Vasco, Aldir Blanc acompanhou grandes times e igualmente se encantou com os grandes ídolos. O gol de Vavá na final do Carioca de 1956 tinha um lugar especial na memória afetiva do letrista, que veria outras façanhas. Calejado pelas infelicidades, em 1974 comemorou o primeiro título vascaíno no Brasileirão, direto das arquibancadas do Maracanã. “Assisti a muitos jogos do Vasco só para ver o Roberto. Sofri com a venda dele em 1979, porque sou fã mesmo. Ele representa toda uma tradição gloriosa. Roberto é o Vasco e estou ansioso para que apareça outro igual”, diria sobre Roberto Dinamite, grande símbolo cruzmaltino daquela conquista. Em 1980, quando Dinamite retornou a São Januário após uma frustrada passagem pelo Barcelona, Aldir até mencionou sua volta na letra de ‘Siri Recheado e o Cacete’.
Romário foi outro a ganhar menção nas composições de Aldir Blanc, presente em ‘Yes, Zé Manés’, de 1993. O músico declarava um apreço especial ao time bicampeão carioca nos anos 1980, que teve o Baixinho entre seus protagonistas, e colocava aquela equipe à frente da chamada ‘SeleVasco’ em termos de qualidade. O Brasileirão de 1989, ainda assim, seria outra conquista especial ao carioca. Segundo entrevista à Placar, “aquela foi a primeira vez que minhas filhas se envolveram de verdade com o Vasco”. Ao lado de Mariana (então com 14 anos) e Isabel (com sete), Aldir assistiu à decisão contra o São Paulo na TV e uniformizou as meninas. “Por isso, não me esqueço daquele dia”, diria.
Em 1994, enquanto o Vasco conquistava o tricampeonato carioca, Aldir Blanc sentiu a dor pela perda de Dener. Escreveria um texto no Jornal do Brasil sobre o craque, vitimado precocemente em acidente de carro: “Durante todo o campeonato, escodemos o jogo a respeito de Dener. Fazíamos comentários evasivos, elogiávamos discretamente uma sequência fulminante de dribles, etc, etc. No fundo, custávamos a admitir, até para nós mesmos, que estávamos apaixonados. O futebol imprevisível de Dener era a matéria de nossos sonhos. Sua genialidade reforçava o elo sagrado entre a torcida e a equipe que buscam o Tri. Cada um de nós aguardava o momento da explosão, a hora consagradora em que colocaríamos na cabeça ungida do menino a coroa do rei. Agora fica a tristeza do que poderia ter sido e não foi”.
A década de 1990 guardaria alegrias ao coração vascaíno de Aldir Blanc, em especial com a conquista da Libertadores. Misturando seu estilo desconfiado e corneteiro sobre o clube, diria antes do Mundial contra o Real Madrid: “Vou me isolar, sem rádio ou TV, com um caniço e uma garrafa bem grande, e ficar pescando. Mas se o Vasco for campeão mundial, é claro que vou comemorar. Me atiro n’água com caniço, peixe, garrafa e tudo mais”. A postura da torcida do Flamengo naquele momento, ao criar o movimento ‘Fla-Madrid’, incomodou bastante o cruzmaltino, a ponto de citar isso em suas entrevistas na época. E a desforra especial viria na final da Copa Mercosul de 2000, com a virada por 4 a 3 sobre o Palmeiras.
“A Fla-Madrid foi um movimento tão absurdo que gerou essa reação, um espetáculo tão bonito como o de ontem, na comemoração da Mercosul. Eu não estava vendo o jogo contra o Palmeiras. Mas, no intervalo, os torcedores do Flamengo gritaram tanto nas janelas, soltaram tantos foguetes, que eu resolvi dar uma olhada no jogo. O Vasco reagiu, ganhou o título e aí quem passou a soltar foguete fui eu. Soltei tanta cabeça-de-nego que o síndico do meu prédio reclamou”, diria Aldir Blanc, ao Jornal do Brasil.

Vale ressaltar ainda que o amor de Aldir pelo Vasco não o fazia aplaudir os dirigentes. Pelo contrário, seu senso crítico se repetia em várias crônicas e opiniões sobre o clube. Apesar das glórias, a oposição a Eurico Miranda era clara. “Sou Vasco, mas decididamente não sou Eurico. Mas, para curar o Eurico, temos que nos curar de tudo que está em volta. Por isso, digo que o campeão moral foi o São Caetano, um time que jogou bola, que no campo do adversário mandou duas bolas na trave, um campeão eleito pelo povo, e é isso que interessa ao letrista de música popular”, avaliaria, após a conquista da Copa João Havelange, em 2000.
Os temores de Aldir Blanc não demoraram a se concretizar e o Vasco entrou em espiral pouco tempo depois daqueles títulos. Cronista do Jornal do Brasil na época, dedicou alguns textos ao que chamava de ‘implosão da nau’. Mas nada que abalasse sua fidelidade às cores. Como diria em 2008, durante citação ao jornal O Globo: “Se for para a segunda divisão, sou Vasco. Se for para a terceira, sou Vasco. Se o Vasco acabar, ainda sou Vasco”.
E, mesmo nos anos de baixa do Vasco, Aldir Blanc deixou seu maior presente à torcida do clube: o livro ‘Vasco: A Cruz do Bacalhau’, parte da coleção ‘Camisa 13’, lançada pela Ediouro em 2009. Assinado em conjunto com o jornalista José Reinaldo Marques, o livro reúne de poemas a piadas sobre o Vasco, reconstruindo a trajetória e as glórias da agremiação. Os fatos históricos são recontados sem perder a ligação forte do torcedor com sua paixão, que narra títulos e engrandece ídolos. Mas, ainda mais importante, os textos trazem a originalidade que Aldir imprimia em cada um de seus trabalhos.
O Vasco, afinal, permaneceu sempre como uma parte fundamental da vida de Aldir Blanc. Mesmo quando ele ganhou um musical em homenagem à sua carreira, com estreia em 1998, sua maneira de descrever a sensação na plateia era comparar com o que vivia nas arquibancadas: “O cara está suando ali e você suando aqui. É meio como assistir ao jogo. O cara parte com a bola e você sai gritando: ‘Vai, vai!'”. Nesta segunda-feira de adeus, a obra de Aldir merece amplo reconhecimento. E também uma consideração a mais dos cruzmaltinos, que compartilhavam o gosto em comum com o craque das letras.
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Como homenagem, vale conferir também dois textos: uma das tantas crônicas de Aldir Blanc que falavam sobre o futebol, esta escrita à Tribuna da Imprensa em 1985; e uma coluna ao Jornal do Brasil, em 2007, na qual criticava Eurico Miranda.





