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O instinto goleador de Fred transformou um jogo difícil para o Galo em goleada

Não importa o jeito, o momento, o adversário: centroavante gosta é de gol. Briga com os zagueiros, se esfola pelo mínimo espaço, grita, bate, apanha, luta. Tudo por aquela sensação indescritível de ouvir o barbante estremecendo e a massa vindo a baixo, enquanto se corre sem rumo, sorriso indisfarçável. No Brasil, poucos gostam de sentir tanto esse prazer quanto Fred. E, nesta quinta, o Atlético Mineiro precisou de seu centroavante sedento pelo gol para superar um jogo difícil contra o Sport Boys, no Estádio Independência. Foram quatro tentos de um legítimo camisa 9, para buscar a vitória por 5 a 2, a primeira do Galo na competição continental.

Até pareceu que seria uma noite fácil ao Atlético. Acelerando desde os primeiros minutos, o time de Roger Machado abriu o placar logo aos cinco. Otero fez uma jogadaça pela direita, Marcos Rocha cruzou e, depois que o goleiro Carlos Arias espanou, Robinho só teve o trabalho de cabecear para as redes. Porém, as expectativas de goleada esfriaram aos 11, com o empate do Sport Boys. Apareceu outro centroavante, o veteraníssimo Carlos Tenorio. José Luis Capdevilla cruzou e o equatoriano se antecipou à marcação para desviar de cabeça, superando Giovanni.

O gol baqueou o Galo. Os alvinegros perderam a intensidade dos primeiros instantes. Tinham a posse de bola, mas não encontravam espaços na bem montada defesa – cortesia do técnico Xabier Azkargorta, responsável por levar a Bolívia à Copa de 1994 e também o Bolívar às semifinais da Libertadores de 2014. Além de tudo, o jogo era bastante duro. O Sport Boys não aliviava nas entradas, o que gerou certos momentos de tensão. Nem mesmo a leve trinca composta por Robinho, Otero e Luan (substituído aos 30, após sentir dores, por Cazares) abria brechas. Raríssimas foram as chances de recuperar a vantagem. Só aos 43 é que o Atlético voltou a assustar, em ótima bola de Elias para Robinho. O camisa 7 armou a bicicleta com estilo, mas não acertou a bola em cheio.

Do outro lado, o Sport Boys ameaçava. O argentino Alexis Messidoro, camisa 10 de 19 anos emprestado pelo Boca Juniors, incomodava com seus dribles em velocidade pela direita. No início do segundo tempo, o Galo desperdiçou uma excelente oportunidade, com Fred isolando dentro da área. E os bolivianos não perdoaram, conseguindo a virada aos nove minutos da etapa complementar. Outra falha no jogo aéreo. Juan Carlos Zampiery cruzou e Messidoro, com apenas 1,70 m, desviou de cabeça.

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Roger mexeu no time logo depois do gol, promovendo a entrada de Rafael Moura no lugar de Otero. A torcida chiou. E o time, mesmo pressionando, mal conseguia concluir. Robinho e Elias chamavam a responsabilidade na organização, mas tinham pouco sucesso. O jogo só mudou quando Fred resolveu aparecer. Combinando oportunismo e uma pitada considerável de sorte, o centroavante decidiu, se redimindo do desperdício anterior. Empatou aos 26, desviando no meio do caminho o chute de Rafael Carioca. Três minutos depois, a virada nasceu em jogada em velocidade. A bola espirrou, sobrando nos pés de Elias, que só rolou para o camisa 9 desviar de carrinho.

Com a vantagem mínima no placar, o Sport Boys chegou a colocar o Atlético Mineiro contra a parede em busca do empate. Os bolivianos tiveram uma sucessão de escanteios perigosos, cobrados por Capdevilla quase sempre em direção à primeira trave. A defesa alvinegra conseguiu se safar. E, a partir dos 43, Fred terminou de fazer o seu serviço. Seu terceiro tento veio de cabeça, em bola que desviou. Por fim, fechou a conta em chute prensado da entrada da área. O camisa 9 é apenas o quarto jogador brasileiro a anotar quatro gols ou mais em uma partida de Libertadores. O primeiro em 17 anos, desde Guilherme, quando este acabou com o Cobreloa na Libertadores de 2000 – e com direito a um golaço sensacional de trivela.

Fred reafirma sua vocação e a confiança do Atlético Mineiro em seu futebol. Se os alvinegros gastam alto com o centroavante, é por seu enorme poder de decisão. Que, nesta quinta, valeu três pontos fundamentais na Libertadores. O Galo assume a liderança do Grupo 6, igualando os quatro pontos do Godoy Cruz – que venceu o Libertad na última terça, na visita ao Paraguai. Se as falhas defensivas andam atrapalhando os atleticanos, a qualidade do ataque ainda pode fazer a diferença. Desta vez, assim como já tinha acontecido no empate contra o Godoy Cruz, Fred salvou.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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