Brasil

O golaço de Robinho e a dor dos outros no futebol

O gol de Robinho contra o São Paulo, no clássico desta quarta-feira, foi o equivalente a sessões e mais sessões de terapia. Foi um gol maravilhoso, no estádio recém-inaugurado, depois de um centenário que quase acabou em tragédia-pastelão. Ser rebaixado, ao completar 100 anos, é uma proeza que o Palmeiras, felizmente, não conseguiu. Também foi um gol imposto a Rogério Ceni, um dos maiores ídolos do São Paulo – justamente o time que se especializou em vencer o Palmeiras de tudo quanto foi jeito nos anos 2000.

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Mas esse gol é mais do que isso. É um daqueles gols sobre os quais vamos falar daqui a muitos anos. Porque é isso que os golaços fazem. Eles mudam a nossa relação com o tempo. Gols maravilhosos criam antes e depois. Criam fendas no tempo, congelam os segundos, os minutos, as horas, os dias, as semanas, os meses, os anos, as décadas, os séculos – CHUPA, CALENDÁRIO.  Daqui a algum tempo, vamos nos lembrar de onde estávamos quando o Robinho fez esse golaço do meio campo. Todo time tem isso. Meu padrinho corintiano é assim. Meus amigos são-paulinos também. Meu tio santista idem. Se você ama o futebol, sabe quando está diante de um gol definitivo.

Golaços redefinem a nossa relação com a rotina porque golaços, por definição, são acontecimentos extraordinários. Ninguém é indiferente a um golaço. A indiferença a um golaço é a indiferença à vida.

A memória

Daqui a alguns anos, vou lembrar exatamente de como vi esse gol. Estou passando frio no norte do mundo, em Nova York. Até o final de maio, fico no Tow-Knight Center for Entrepreneurial Journalism, um centro de pesquisa e inovação em jornalismo. Assim que cheguei à cidade, tinha uma missão boleira de alta complexidade. A vida de expatriado que gosta de futebol envolve muitos links que não funcionam e a busca pelo bar perfeito para ver seu time. Parece, mas não é fácil. Como encontrar um jogo contra o São Bernardo num domingo à tarde distante milhares de quilômetros de casa?

Como desisti dos links, abracei o Legends, um bar de futebol espetacular em Nova York, bem perto do Empire State. É um dos melhores lugares em que já fui para ver a bola rolar (fora de um estádio e do Dissidenti, o bar de torcedores do Palmeiras ao lado da Arena). Se tem um jogo rolando no mundo e ele está na TV, provavelmente o Legends vai mostrar. São dezenas de TVs mostrando Campeonato Paulista, Campeonato Colombiano, Champions, o que for. Se tem bola, não tem preconceito – e sempre tem torcida. As torcidas expatriadas de tudo quanto é time vem transformar o bar num estádio temporário. Desde que cheguei aqui, em janeiro, já vi o Legends virar Paris, Itaquera, Pompéia, Colômbia. Sem treta.

Vi o jogo ao lado de dois amigos palmeirenses e de um mundo de torcedores do Millionarios, da Colômbia. Os colombianos estavam em maioria, e tinham muitas razões para sorrir. O time goleou o Deportivo Pasto por 5 a 1 no Colombianão, e rolou até bandeirão interno. Como a TV deles estava do lado da nossa, vivemos a exótica experiência de ver um clássico brasileiro num estádio da América do Sul ao lado do Empire State. Parecia tudo surreal demais. Um golaço, em Nova York, com torcida colombiana – e um bartender irlandês.  Caras, essa é a globalização que deu certo.

Imagine um bar que parece um estádio. Foi mais ou menos assim que vi a partida de ontem – e com essas músicas!

Foi massa, mas também levantou um mundo de fantasmas nas horas que antecederam a partida. Antes do jogo, eu estava tenso, nervoso. Medo, é verdade. Esperava pela tragédia definitiva. Minha superstição não dava conta. Eu estaria no frio, o Palmeiras estaria no estádio novo, a expectativa era grande. Tragédia clara no horizonte. E há um motivo para isso. Quanto mais longe do Palmeiras, maiores as chances de tragédia.

O ano dos traumas incontroláveis 

O ano de 2009 foi difícil. Descobri que o inverno não me ama e que eu não gosto da escuridão do hemisfério norte. Também foi o ano em que recebi, sem aviso prévio, dois traumas que vão me acompanhar de pertinho pelo resto da vida. O Palmeiras perdeu o Brasileiro mais ganho da era dos campeonatos de pontos corridos de todas as galáxias conhecidas. Meu avô palmeirense morreu menos de um mês depois de eu ir embora para fazer mestrado em Londres. Não tive a chance de comentar a rodada com ele, como sempre fazíamos aos domingos. Eu estava longe quando o Palmeiras começou a perder. Quando meu avô começou a morrer. E estava perto demais do gelo da capital britânica.

“Essas décadas difíceis fizeram com que jogos de futebol deixassem de ser um duelo entre felicidade e tristeza. Viraram apenas oscilações de dor e alívio”

A derrota do Palmeiras e a morte do meu avô aconteceram na mesma época, no mesmo mês, separadas de mim por uma infinidade de quilômetros. Porém, foram sentidas bem de perto. Nunca vou conseguir separar as duas coisas. Elas ainda doem como aquele dedo que você perdeu enquanto brincava de marceneiro na serralheria. Ficam ali, martelando na memória, debaixo do travesseiro, esperando o momento de relembrar que a vida, embora bonita, pode ser um festival incompreensível de absurdos triunfantes. Mas não tem jeito. Viver é guardar memórias e contar histórias – algumas são lindas, outras são pesadas. E você vai ter de carregar as duas na mesma cabeça. Não pode ficar de mimimi.

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Meu avô era era um ser humano divertido, charmoso, interessante. Mas, durante os jogos, ele entrava em transe e arremessava almofadas na TV, quebrava vasos – coisas que eu acho muito justas, embora nunca tenha atingido o mesmo grau de envolvimento. Ele era um ser humano muito melhor do que jamais serei. Nunca terei esse desapego. E essa cena, que vinha acompanhada pelas broncas da minha avó, está entre as imagens que definem a minha vida. Quando eu começar a morrer, essa imagem ainda vai estar lá (espero).

O Palmeiras é drama? Opa, é muito drama

Virei Palmeiras por causa dele, mas também por causa da família inteira – meus pais e meus avós são todos palmeirenses. Algumas das minhas memórias mais fortes estão nesta intersecção entre Palmeiras e família. A cena do meu pai pegando uma garrafa de vinho e se exilando no orquidário, minutos depois do primeiro rebaixamento do Palmeiras, continua poderosa. Afinal, ser rebaixado não significa perder a dignidade. Já a cena da minha mãe fazendo chá de camomila para mim, durante Palmeiras e Grêmio em 1995, é uma excelente demonstração de como o futuro é previsível. Eu tinha 12 anos e estive bem perto do meu primeiro infarto nos minutos finais da partida.

“Somos pioneiros em volume morto de desgraça muito tempo antes de volume morto virar modinha. Sempre dá para tirar mais desgraça para abastecer nosso manancial – Ô SE DÁ”

Mas, obviamente, onde cabe uma memória reconfortante sempre cabe um trauminha incontrolável. Os anos 2000 foram medonhos. Perdi as contas das goleadas que sofri – com o Palmeiras e da vida.

Era o primeiro ou segundo ano depois da faculdade. Eu morava num apartamento infestado de minibaratinhas, tinha um chefe que curtia o assédio moral e via o Palmeiras ser humilhado de formas bastante criativas. No ano anterior, já tinha sido intenso: apartamento roubado, goleada para o Figueirense, a sensação de que eu nunca conseguiria ser jornalista.

De 2002 para cá, o Palmeiras desafiou o conceito de fundo de poço. Eu flertei com a tristeza como forma de vida várias vezes. Somos pioneiros em volume morto de desgraça muito tempo antes de volume morto virar modinha. Sempre dá para tirar mais desgraça para abastecer nosso manancial – Ô SE DÁ. O Palmeiras conseguiu a proeza de ser campeão da Copa do Brasil e ser rebaixado no Brasileirão no mesmo ano. É um esforço nível barroco mineiro de sentimentos conflitantes.

A terapia

Tudo isso foi embora quando Robinho fez o primeiro golaço do resto das nossas vidas. O que restava de insegurança foi sepultado pelo Rafael Marques. Quando a partida terminou, tive uma sensação esquisita. Não foi de desforra nem de orgulho. Veio a leveza do alívio porque não foi um golaço contra o São Paulo. Aos poucos, ficou mais claro. Foi um golaço a favor do Palmeiras, um golaço que nos faz sentir que a vida volta a fazer sentido depois de tantos anos de absurdo.

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Por isso que não consigo sacanear severamente meus amigos são-paulinos. A tragédia desses anos me ensinou muito sobre empatia boleira. A sensação de ser atropelado pela vida foi tão forte que não quero isso para ninguém – nem para o Marcelinho Carioca (hummm… bem… ainda estou trabalhando nesse sentimento. Não é uma questão resolvida). Acho a rivalidade incrível. Admiro quem consegue fazer boas piadas, entrar na tiração de sarro e levar a vida desse jeito leve, tranquilo. Confesso que morri de rir das montagens com o Rogério Ceni voando atrás da bola do Robinho. Mas eu simplesmente não consigo ser proativo nessa zoeira.

Depois dos últimos anos, aprendi a sofrer em silêncio e a a respeitar a dor alheia. Aprendi a viver intensamente as minhas próprias felicidades verdes (que ainda são raras, é bom que se diga). Essas décadas difíceis fizeram com que jogos de futebol deixassem de ser um duelo entre felicidade e tristeza. Viraram apenas oscilações de dor e alívio.

Por isso o gol do Robinho é tão importante para a minha vida, egoisticamente falando. Se eu tivesse um terapeuta boleiro, já poderia pedir o fim do tratamento. Não estou completamente recuperado de uma goleada sofrida para o Mirassol, mas já me sinto confortável em voltar aos estádios e desfrutar de um jogo – em vez de sofrer antes, durante e depois, não importa qual seja o resultado.

Meu avô talvez ficasse feliz com o meu progresso. Se ele estivesse aqui, a gente dividiria uma garrafa de vinho, um macarrão com almôndega e, talvez, eu até arremessasse umas almofadas na TV do bar de Nova York. Quando voltar ao Brasil, em maio, vou arremessar umas flores no túmulo. Ele merece isso, além de muito golaços pela eternidade.


Empatia é uma mercadoria linda, mas em falta. Conheço vários palmeirenses gays. Quando ouvi alas da torcida do Palmeiras gritando “bicha” para Rogerio Ceni, só conseguia pensar nesses palmeirenses que são duplamente massacrados pela vida (ser palmeirense é uma experiência intensa). Ao mesmo tempo em que viveram um dos gols mais bonitos da história do time, tiveram de aguentar uma demonstração pública de desrespeito a quem eles são.

Já escrevi sobre isso aqui na Trivela, mostrando por que bicha NÃO é xingamento. Já cansei de dizer que não faz sentido. Por isso, a única coisa que me sobrou foi uma enorme tristeza. É terrível quando as pessoas não se colocam no lugar das outras pessoas.

Os palmeirenses que gritaram bicha no estádio retiraram, de outros palmeirenses, uma grande parte dessa alegria histórica. A gente não precisa ser tão mesquinho.

Foto: Cesar Greco/Ag Palmeiras/Divulgação

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