O Galo outra vez desafiou o impossível e provou que estava certo
O torcedor atleticano está acostumado à sequência de sensações. O suor frio gera a adrenalina, que leva o sangue aos olhos. O coração acelerado precede o grito de vitória, daqueles que fazem as veias saltarem e a garganta ficar rouca. E o susto inicial só dura alguns segundos, porque a esperança já se tornou uma certeza, diante de tantos épicos presenciados nos últimos tempos. O Atlético Mineiro dos milagres, da Libertadores de 2013, deu as caras na Copa do Brasil. Para reverter o que parecia irreversível contra o Corinthians, avançar às semifinais, protagonizar uma das maiores reviravoltas da história do torneio. E também satisfazer a sua torcida, que já tinha saudades de sentir que o impossível é detalhe.
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Quando Guerrero abriu o placar aos quatro minutos, para muita gente, o duelo parecia decidido. O Galo precisaria de quatro gols em pouco menos de 90 minutos no Mineirão. Teria que igualar as duas maiores viradas já ocorridas nos 25 anos da Copa do Brasil – a última delas em agosto, quando o América de Natal eliminou o Fluminense no Maracanã. Um desafio enorme. Mas que, para quem vibrou com Victor parando Riascos, era mais do que cumprível. Afinal, torcer já se tornou uma profissão de fé para os atleticanos, em que crer na vitória é a penitência para que a graça seja alcançada. Por mais que também existam provações, como um Raja Casablanca pelo caminho.
As orações dos mineiros vinham em forma de gritos nas arquibancadas. A massa alvinegra fez com que a reação do time fosse instantânea. Por mais que o Corinthians vencesse por 3 a 0 no placar agregado, o Galo não se entregou. Aproveitou que os paulistas se entrincheiraram, como gosta Mano Menezes nos jogos fora de casa, para pressionar bastante. Cássio era o melhor em campo pelos visitantes, mas pouco pôde fazer diante dos sucessivos erros de sua defesa. Em meia hora, a virada já tinha se concretizado com os gols de Luan e Guilherme. Restavam mais 60 minutos para uma classificação que começava a ganhar forma.

Para conseguir o milagre, não adiantava a ansiedade. Como tinha que ser, a torcida atleticana atravessou pacientemente o intervalo, voltando a apoiar o clube com a alma no segundo tempo. Já o corintiano, apreensivo, se apegava às orações para São Jorge. No entanto, parecia mais fácil para o santo guerreiro derrotar o dragão do que iluminar os jogadores alvinegros. A trave evitou que Carlos marcasse o terceiro gol, enquanto, do outro lado do campo, o Corinthians desperdiçava várias chances de matar a partida nos contra-ataques. A provação era diferente para os dois times, mas em intensidades iguais.
Foi quando Guilherme se revestiu outra vez de salvador, como já tinha sido contra o Newell’s Old Boys na Libertadores. O autor do gol que eliminou os leprosos aos 49 do segundo tempo coroou a sua atuação mágica no Mineirão. Depois do passe para Luan e do segundo gol, o atacante balançou as redes mais uma vez. Restava só mais um. Ao mesmo tempo, a torcida do Corinthians também tinha um déjà vu da Libertadores. Mas das participações anteriores a 2012, quando os alvinegros haviam se acostumado ao sofrimento, à eliminação com contornos de tragédia. Felipe tinha um quê de Guinei, Fágner lembrava Coelho, Fábio Santos poderia ser um novo Roger Guerreiro. O desastre parecia escrito.
E as linhas finais foram concluídas aos 41 do segundo tempo. Desta vez sem a participação de Guilherme, mas de novo na conclusão de um zagueiro, como tinha sido na final contra o Olimpia. Edcarlos foi o herói. Marcos Rocha ainda poderia ter dado o toque genial à virada, quando arriscou do meio-campo para aproveitar a subida de Cássio ao ataque. Um capricho do destino colocou Fágner no caminho da bola e impediu que os 4 a 1 fossem ainda maiores. Era suficiente para encarar o Flamengo nas semifinais.
Se uma vitória simples já deixa o torcedor com um sorriso no rosto, uma façanha desta proporção o faz gargalhar sozinho. Sonhar de olhos abertos e sequer conseguir dormir, por não parar de questionar se aquilo tudo que aconteceu no Mineirão foi verdade mesmo. O atleticano, porém, não duvida mais desse tipo de situação. E também nem se cansa dessa insônia que vem se repetindo desde o ano passado. É ela que faz o Galo confiar em uma nova conquista.



