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O Flamengo superou a tensão e construiu uma vitória fundamental na Libertadores

Pela terceira vez nesta Copa Libertadores, o Flamengo fez o Maracanã explodir de alegria. Os quase 61 mil presentes nas arquibancadas puderam soltar o grito da garganta. Mas só depois de roerem todas as suas unhas. Como nos encontros anteriores com a sua massa, os rubro-negros alternaram a tensão e o alívio. A Universidad Católica era uma adversária matreira, que não subia tanto ao ataque, embora levasse perigo em todas as suas chegadas. Ainda assim, prevaleceu a insistência do time de Zé Ricardo, de fato melhor na noite. As mudanças no segundo tempo caíram muito bem à equipe, que buscou a vitória por 3 a 1. A classificação às oitavas de final desponta no horizonte.

A principal novidade na escalação do Fla foi o retorno de Everton, autor do gol no primeiro jogo da final do Carioca, mas ausente nos dois confrontos com o Atlético Paranaense. E, assim como aconteceu em Santiago, os rubro-negros tiveram a iniciativa diante da Universidad Católica. Encaravam um oponente que se resguardava na defesa, buscando os contra-ataques. Independentemente disso, as principais chances durante os primeiros minutos eram dos anfitriões. Paolo Guerrero, sobretudo, aparecia bastante. O centroavante não se continha a ser apenas o homem de referência, saindo da área, buscando o jogo. Foram três lances em que o grito ficou entalado, em arremates do peruano que passaram perto.

A Católica, entretanto, esperava uma mísera bola para fazer as expectativas dos flamenguistas desabarem. E ela quase veio aos 18 minutos. A zaga cochilou e José Pedro Fuenzalida saiu na cara do gol. A sorte foi a falta de pontaria do chileno, batendo ao lado da meta, mesmo com Alex Muralha vendido. O goleiro, aliás, reiterou que sua fase é péssima. Pouco depois, errou e quase entregou o ouro para os Cruzados, que não aproveitaram.

Ao longo do primeiro tempo, o Flamengo pendeu para o lado direito de seu ataque. E dependeu demais da iniciativa de Paolo Guerrero, o único que realmente chamava a responsabilidade de criar e arrematar. Todas as nove finalizações do time nos 45 minutos iniciais vieram com o camisa 9. Contudo, na melhor chance o artilheiro ficou de frente para o gol, mas bateu em cima de Christopher Toselli. O roteiro do jogo, aliás, era um só. Os rubro-negros se impunham no campo de ataque, mas não tinha criatividade nas jogadas, em noite bastante apagada de sua trinca de meias. Enquanto isso, até conseguiam neutralizar a Católica na intermediária. Mas bastava os chilenos se aproximarem da área para o sufoco começar. A defesa tinha dificuldades para cortar as linhas de passe e Muralha não transmitia segurança alguma.

Na volta para o segundo tempo, Zé Ricardo fez a primeira alteração. Mancuello jogou pouquíssimo e pareceu sentir lesão. Deixou o campo para a entrada de Rodinei, aberto na meia direita. E a aposta se pagou logo aos cinco minutos. A dependência de Guerrero continuava. O centroavante sofreu falta e cobrou – mal, em cima de Willian Arão. Mas uma pitada de sorte sempre é bem-vinda, e a bola espirrada sobrou limpa para Rodinei. O substituto bateu de canhota, com sua perna ruim, e mandou na gaveta, sem tempo de reação para Toselli. Enlouqueceu o Maracanã pela primeira vez.

Neste instante, o Flamengo mostrava mais repertório. Guerrero seguia como o protagonista do ataque, mas agora contava com bons coadjuvantes. Willian Arão subia bastante e passou a achar brechas ao redor da área. Em uma das melhores jogadas, ajeitou de cabeça para o peruano chicotear a bola para o chão e por cima do travessão. A Católica, todavia, não estava morta. Passou a se posicionar mais à frente, pressionando a saída de bola e trabalhando os passes no campo de ataque. A sensação de tragédia passou a rondar os rubro-negros. E aprontou o drama aos 22 minutos. Fuenzalida encontrou espaço na ponta direita e cruzou. Rafael Vaz não cortou, permitindo que Santiago Silva se antecipasse a Réver para desviar de cabeça.

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Não houve momento mais nervoso no Maracanã. Os minutos pareciam se arrastar. E um dos responsáveis por acalmar os flamenguistas foi Márcio Araújo. Que Guerrero figure na maioria das manchetes, não seria exagero dizer que o volante foi o melhor em campo diante da Católica. O camisa 8 faz uma Libertadores bastante consistente. E jogou demais nesta quarta, desarmando os Cruzados diversas vezes na intermediária, além de garantir a precisão na saída de bola. Uma destas roubadas veio justamente quando os chilenos até poderiam virar. Nada que passasse pelo cão de guarda.

Aos 28, por fim, os batimentos cardíacos dos cariocas diminuíram. Guerrero deixou o dele, depois de muito insistir. Fez o trabalho perfeito de centroavante, ao receber o passe de Pará, girar sobre a marcação e bater no cantinho. A entrada de Renê na vaga do apenas esforçado Gabriel ajudou a equipe da casa. Por mais que a Católica buscasse o novo empate, só criou mais uma oportunidade perigosa, em bola que pipocou na área até Rafael Vaz rifar em cima de um adversário. O Flamengo ameaçava mais nos contra-ataques. Desta forma, fechou a conta aos 41 minutos. Um gol de rachão, com Trauco insistindo e dividindo até conseguir emendar às redes. Depois disso, o jogo só aguardou o apito final. Os jogadores comemoraram exaustos, embalados pelo canto da massa, de braços erguidos em linda festa.

O Flamengo chega aos nove pontos na Libertadores, todos eles conquistados no Maracanã. Correu riscos em casa, da mesma maneira como poderia ter se saído melhor fora. Fato é que, no cenário atual, a classificação não se sugere tão difícil. O empate na visita ao San Lorenzo basta, por mais que o Atlético Paranaense tenha ressuscitado os cuervos com a derrota por 3 a 0 em plena Arena da Baixada. Além disso, mesmo a derrota pode não custar a eliminação dos flamenguistas. Para tanto, basta que o Furacão não vença a Universidad Católica na rodada final, em confronto que acontecerá em Santiago.

Há muitos pontos a se melhorar na Gávea. Obviamente, os desfalques pesam contra. Mas a falta de criatividade durante o primeiro tempo irritou os torcedores, enquanto o excesso de gols perdidos não é uma novidade nesta Libertadores. Ao final, Zé Ricardo merece os elogios. A aposta nas “duplas de laterais” ajudou o time a fluir bem melhor. E, apesar da insegurança dos defensores em diversos momentos, a vitória se concretizou. Ótimo resultado, em um grupo equilibradíssimo e cheio de carnes de pescoço.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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