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O desgaste crescente e as dificuldades expostas causaram a rápida demissão de Renato – um casamento esperado, mas que não deu certo

Falta de acerto tático da equipe criou uma pressão muito rápida diante dos maus resultados e resultou na demissão do treinador após quatro meses

A chegada de Renato Gaúcho ao comando do Flamengo era questão de tempo. Cedo ou tarde, o antigo ídolo do clube nos tempos de jogador teria sua passagem como técnico. O próprio Renato não escondia o flerte, assim como a diretoria também o colocou em posição de favorito algumas vezes. Porém, quatro meses depois, o casamento acaba com uma enorme frustração. O treinador surfou na onda em alguns momentos, mas o desgaste ficou claro muito cedo e a própria torcida não o bancou por tanto tempo. Renato sai razoavelmente queimado, de um trabalho que expôs muito mais suas fraquezas no ofício, depois de um período majoritariamente bem sucedido à frente do Grêmio.

Renato parecia se alinhar com o Flamengo de diferentes maneiras. Se muitas vezes Rogério Ceni se sugeriu um estranho no ninho, mesmo com um título de Brasileiro na sua conta, Renato se casava muito mais com a identidade do clube. Pesava o passado como jogador, sobretudo pelo ano fantástico vivido em 1987, mesmo que o gol de barriga de anos depois fizesse muitos torcedores ficarem reticentes. Além do mais, Renato também vinha respaldado por sua passagem pelo Grêmio, em que conquistou a Libertadores e transformou um elenco cheio de medalhões em uma equipe bastante competitiva.

O começo de Renato no Flamengo não poderia ser melhor. Emendou goleadas e conquistou a classificação para as quartas de final da Libertadores com segurança. Até sofreu uma pancada contra o Internacional pelo Brasileirão, mas nada tão capaz de frear a empolgação inicial. Se parecia haver um racha do elenco com Rogério Ceni, vários jogadores recuperavam seu bom futebol com o novo treinador. O estilo de jogo retomava a agressividade e produzia muitos gols. Todavia, à medida que o tempo foi passando, transpareceu como o bom momento não correspondia necessariamente a um futebol tão bem construído.

O desgaste ao redor de Renato Gaúcho tomou a impressão sobre seu trabalho de maneira rápida. Nem sempre as vitórias pareciam resultar de uma ideia de jogo e velhos problemas coletivos seguiam evidentes. A falta de proteção da defesa era uma questão antiga, assim como certa dificuldade do ataque para enfrentar defesas fechadas. À medida que o tempo foi passando, o Flamengo ainda tinha um aproveitamento alto com Renato, mas os tropeços se tornavam mais frequentes e a equipe chegava a um limite. O time claramente estava dependente de suas individualidades.

Para piorar, nem todos os destaques do Flamengo passavam por sua melhor fase técnica nos últimos tempos. Os problemas físicos também pesaram bastante contra o elenco, que perdeu uma série de jogadores importantes nas últimas semanas. E quando as soluções deveriam vir do treinador, pensando em outras formas de jogar, a resposta não surgia com Renato. Pelo contrário, certas insistências e substituições questionáveis se tornaram o padrão. Nas coletivas, geralmente prevalecia o silêncio sobre temas centrais após as derrotas e a arrogância junto das vitórias. As cobranças da própria torcida acabavam se tornando mais audíveis no Maracanã.

A classificação sobre o Barcelona de Guayaquil ainda valia uma carta de confiança para Renato. Entretanto, desde então, o declínio do Flamengo aumentou a pressão sobre o treinador. Mesmo a relação com os jogadores não se mostrava tão próxima. A eliminação na Copa do Brasil viu os rubro-negros serem engolidos dentro de casa pelo Athletico Paranaense e Michael se tornar basicamente a única esperança de uma reviravolta. Foi quando os gritos contra Renato explodiram e o treinador colocou seu cargo à disposição, bancado depois pela diretoria. E que alguns bons resultados tenham ocorrido depois disso, não parecia ser possível melhorar o rendimento do time como um todo. Muito pior era o atrito causado por tropeços inconcebíveis na cabeça de muita gente.

O empate contra o Grêmio foi mais um motivo para as críticas a Renato subirem de tom. O Flamengo caiu muito de rendimento quando tinha o jogo nas mãos, e as próprias alterações do técnico causaram impacto negativo. Pelo cenário do Campeonato Brasileiro, os três pontos seriam essenciais para ainda se acreditar minimamente na perseguição ao Atlético Mineiro. Então, veio a final da Libertadores. O jogo em Montevidéu poderia elevar a imagem de Renato como uma figura histórica na Gávea. O que se viu, na verdade, foram velhos problemas se reafirmando e um time incapaz de produzir como poderia coletivamente.

Abel Ferreira se mostrou muito mais preparado ao duelo, enquanto o Flamengo só cresceu a partir de suas individualidades no segundo tempo. Mesmo assim, foi uma equipe que demorou a reagir no jogo e, durante a prorrogação, foi incapaz de oferecer algo novo quando mais precisava de repertório para abrir a defesa do Palmeiras. O estado físico de alguns protagonistas atrapalhou, assim como o erro de Andreas Pereira se tornou fatal. Mas a derrota não parecia exatamente uma surpresa, quando o treinador pouco contribuiu e ainda realizou outras mudanças questionáveis. Os problemas eram repetitivos e até previsíveis. Renato, à beira do campo, transmitia mais uma imagem de alguém irritado com erros do que necessariamente propenso a consertá-los.

Olhando apenas para os números, a passagem de Renato pelo Flamengo está longe de ser ruim. São 24 vitórias em 37 jogos, com só cinco derrotas e 72% de aproveitamento. O ataque entregou uma média considerável de 2,35 gols por jogo e a defesa sofreu 0,86. O problema é quando o campo não correspondia e como a própria insatisfação correu o clima. Parecia uma situação difícil de se sustentar por tanto tempo e a final da Libertadores só serviu para aumentar as rusgas. A quem dizia que o trabalho tático de Renato era muito ruim, o jogo no Centenário deu razão de maneira evidente a essas análises.

Difícil imaginar que Renato assuma outro trabalho em condições tão favoráveis nos próximos meses. Mesmo quem acreditava que o veterano poderia dirigir a Seleção deve pensar duas vezes, considerando as dificuldades de organização do Flamengo no geral. A carreira do comandante deve merecer uma pausa, até pela maneira como os términos recentes com Grêmio e Fla acabaram se dando. A tendência é que a estadia na Gávea seja mais lembrada pelo atrito do que necessariamente pelas goleadas – que, afinal, não renderam título algum.

Já o Flamengo precisará pensar com calma na escolha de seu novo treinador. A reta final do Campeonato Brasileiro deve virar mero protocolo, com a missão impossível de se alcançar o Atlético Mineiro. É preciso ter consciência de que dificilmente um treinador causará um impacto imediato como Jorge Jesus e que o tempo se torna valioso para construir uma relação – já que a paciência não imperou desde que o português saiu. Porém, também é necessário reconhecer que o elenco forte possui suas lacunas e que nem todos os jogadores vivem a fase de 2019. O mais indicado agora seria escolher algum técnico com mais recursos táticos para repensar o modo de jogo, um aspecto que Renato deixou a desejar.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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