Brasil

O Curioso Caso de James Rodriguez

Como o personagem Benjamin Button, meia colombiano deu pinta de fenômeno quando despontou na Copa de 2014, mas foi regredindo até virar uma incógnita

Em seu conto “O Curioso Caso de Benjamin Button”, F. Scott Fitzgerald apresenta uma metáfora reversa do envelhecimento, com um personagem que nasce velho e vai rejuvenescendo até desaparecer. O meio-campista colombiano James Rodriguez tem protagonizado uma versão boleira do conto, que virou filme de sucesso com Brad Pitt.

James despontou com promessa na Copa do Mundo de 2014, no Brasil. Jogou o fino da bola, ganhou um prêmio Puskas de gol mais bonito e gerou a expectativa de que seria um rival para Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar. O meia canhoto de toques elegantes na bola surgiu no Envingado, de seu país natal. Em 2007, foi vendido ao Banfield, da Argentina, por cerca de 300 mil euros. A negociação que o levou ao português Porto foi de 7,3 milhões de euros, em 2010. Três anos mais tarde, passou ao Monaco por 45 milhões de euros. O sucesso no Mundial do Brasil fez com que o Real Madrid pagasse 75 milhões de euros pelo meia.

James, tal qual Benjamin Button, parece ter aparecido já no auge e vem descendo a ladeira desde então. Teve alguns episódios de grande jogador, mas nunca vingou como o talento que prometia. A desvalorização econômica reflete esse movimento. Foi emprestado pelo Real ao Bayern de Munique por 13 milhões de euros, devolvido e repassado sem custos ao Everton de Liverpool. Por 8 milhões de euros foi para o Al-Rayan, do Catar, para chegar a custo zero ao Olympiacos, da Grécia.

Fato é que o São Paulo comprou um mico – Maurício Noriega.

No meio do ano passado, desembarcou no São Paulo, saudado como se ainda fosse o James de 2014. Mas o Tricolor recebeu o jogador de 2024. O colombiano tem o comportamento de uma estrela que nunca foi. Três treinadores de perfis muito diferentes passaram pelo São Paulo, e James não emplacou com nenhum. Em campo, parece estar sempre num ritmo diferente do resto do time e do jogo. Faz beicinho quando entra e quando sai do time e nada acontece. Fora de campo é vaidoso, tem estilo de vida exuberante e gosta de fazer provocações em lives de redes sociais.

O bom desempenho do jogador pela seleção da Colômbia despertou polêmica. Torcedores, analistas e influenciadores que enxergam em James um craque que jamais se materializou cobravam sua titularidade. Uma boa participação no amistoso contra a Espanha virou show (o verdadeiro espetáculo foi de Luis Díaz) para seus fãs declarados.

Fato é que o São Paulo comprou um mico. Acreditou estar trazendo um ídolo, mas entregaram uma celebridade de internet. O talento é indiscutível, mas não se adaptou às necessidades do jogo competitivo. Não se trata do desempenho no Tricolor. É a história de James Rodríguez nas últimas cinco temporadas. Um jogador que, em vez de evoluir, foi se apagando a cada temporada. Os dirigentes são-paulinos não sabem o que fazer com ele.

Outro ponto da carreira de James que provoca reflexão é a lógica econômica do futebol atual. A recompensa financeira chega muito antes do equivalente esportivo. O colombiano, graças ao seu talento e sem nenhuma crítica pessoal, ficou multimilionário muito rápido e sem jamais ter desempenhado como uma estrela de primeiro time. Seus objetivos econômicos alcançados tão rapidamente podem ter interferido no projeto esportivo? Ou ele é mesmo um Benjamin Button cujo talento alcançou o auge precocemente e por lá ficou?

 

Foto de Mauricio Noriega

Mauricio Noriega

Colunista da Trivela
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