Brasil

O centenário de Zizinho, o gênio de uma era do futebol brasileiro

Um dos maiores símbolos do futebol brasileiro, Zizinho teve uma carreira reverenciada nos anos 1940 e 1950

São muitas e inequívocas as referências para se estabelecer o lugar de Zizinho no panteão histórico do futebol brasileiro. O meia de talento inesgotável e carreira longeva, cujo centenário de nascimento é comemorado nesta terça-feira, é amplamente considerado o melhor jogador a surgir no país antes de Pelé – de quem era ídolo confesso. Para muitos que o viram jogar, esteve até acima do Rei. Ocupa lugar de destaque na história de Flamengo, Bangu e São Paulo, sendo admirado e reverenciado até por torcedores de clubes que não contaram com seu futebol. Mesmo sem levar a Jules Rimet, foi eleito pela imprensa internacional o craque da Copa de 1950. Jogador completo, Mestre Ziza está na galeria dos gênios.

Os primeiros passos

De Thomaz Soares da Silva, o Zizinho, pode-se dizer sem exagero que teve o futebol como berço. A casa onde veio ao mundo e morou na infância em São Gonçalo (região metropolitana do estado do Rio de Janeiro) ficava dentro da sede do Carioca, clube do qual seu pai era dono e presidente. Com o jogo no sangue e no dia a dia, o garoto desenvolveu seu talento nas peladas de sua cidade e logo chegou ao Byron, então um dos principais clubes da vizinha Niterói (e extinto em 1978), onde atuou como amador. De lá, com 17 para 18 anos, seguiria ao Flamengo, onde jogaria por mais de uma década. E o resto, como se diz, é história.

Zizinho tinha todas as qualidades desejáveis num criador de jogadas: perfeito domínio da bola, elegância, drible curto, ótimo passe e visão de jogo, perícia na bola parada e arrancadas que só acabavam com a bola nas redes adversárias. Em seu livro de memórias Quando a bola era redonda, o historiador Ivan Soter aproximou, ao tentar traduzi-lo por analogia aos mais jovens, o estilo do velho mestre ao de Maradona: “Eram artistas renascentistas, apegados ao detalhe, à firula. Mas quando chegada a hora seriam capazes, sozinhos, de decidir o jogo. Quase prescindiam de acompanhamento. Eles eram o time”.

Cobrindo a Copa do Mundo de 1950 para o periódico londrino World Sports, o lendário jornalista austríaco Willy Meisl comentou sobre Zizinho após vê-lo em ação no Maracanã, na demolidora goleada de 6 a 1 que o Brasil impôs à forte seleção da Espanha: “Não se trata apenas de um craque, de um dos maiores craques que andam espalhados nas diversas partes do mundo. Este é um gênio. Um homem que possui todas as qualidades que podem ser idealizadas para um profissional chegar o mais próximo da perfeição”.

Na mesma ocasião, outro jornalista europeu – o italiano Giordano Fattori, da Gazzetta dello Sport – escreveu: “No jogo Brasil x Espanha viu-se de tudo que se poderia imaginar tecnicamente em futebol. Houve ciência, arte, balé e até jogadas de circo. Mas entre todos os 11 jogadores desta equipe mágica do Brasil, um estava em relevo. Era Zizinho, o mestre da esquadra. Seu futebol fazia recordar Leonardo Da Vinci pintando alguma coisa rara. Um Da Vinci criando obras-primas com os pés na imensa tela do gramado do Maracanã”.

No Flamengo, Zizinho foi o pioneiro de uma linhagem: a dos meias-armadores elegantes que aliavam a malícia do drible curto, a habilidade no controle de bola e o talento na organização do setor. Depois dele viriam Rubens (o “Doutor Rúbis”, seu sucessor no início dos anos 1950), Moacir (campeão mundial em 1958), o precocemente falecido Geraldo “Assoviador”, Adílio e, por fim, o “Coringa” Gerson. Todos eles camisas 8 (embora a numeração só chegasse ao futebol brasileiro no fim dos anos 1940). E todos negros.

Seu futebol filigranado, no entanto, não pressupunha frieza ou indiferença à competição: era um jogador de muita garra, que não afinava nem acreditava em bola perdida. Especialmente no início de carreira, no Flamengo, seus passes perfeitos vinham quase sempre acompanhados de muito suor na camisa. “Quando os outros sucumbiam diante dos fortes e violentos beques, Zizinho ia mais à frente e, com fibra e coração, abria espaço, marcava gols”, escreveu Geraldo Romualdo da Silva, nome histórico da crônica esportiva brasileira.

Muito antes da aclamação mundial, o garoto Zizinho tinha aspirações mais modestas. Admirava dois grandes jogadores revelados pelo futebol niteroiense, o médio Oscarino e o atacante Clóvis (pai de Gerson, o “Canhotinha de Ouro”), ambos campeões cariocas com o America em 1935. Por extensão, era torcedor rubro e sonhava atuar pelo time ao lado dos ídolos. Mas ao bater à porta de Campos Sales, foi dispensado sem nem treinar sob o argumento de que era “muito mirrado” e que o clube estava “muito bem servido de meias”.

Ganhou uma chance no São Cristóvão, mas no treino ousou driblar Afonsinho, médio-esquerdo da seleção brasileira e inspetor de polícia, um dos jogadores mais duros de seu tempo. Levou um pontapé no joelho e deixou o campo carregado. Mas tudo mudaria para o jovem – que na época trabalhava como operário do Lloyd Brasileiro – ao ser indicado para o Flamengo pelo olheiro Ari Fogaça. O treino na Gávea, porém, já estava por terminar sem que ele recebesse uma chance. Até Leônidas sentir uma fisgada e pôr a mão na coxa.

“Quem é aquele garoto de Niterói que joga de meia-direita?”, perguntou Flávio Costa, técnico rubro-negro, ao se virar para os jogadores à beira do campo. Zizinho se apresentou, levantando o braço um tanto acanhado, e o treinador – direto, bem ao seu estilo – deu a ordem: “Entra no lugar do Leônidas”. Zizinho respondeu à missão de substituir no treino o maior jogador e ídolo do futebol brasileiro de então com dois gols e algumas grandes jogadas. Sem dúvida impressionou. “Volte amanhã, quero te ver de novo”, disse Flávio.

E o garoto foi ficando de vez. Na estreia pelos aspirantes, um Fla-Flu, fez um golaço de bicicleta, ao estilo de Leônidas. Pelo time de cima, saiu-se bem em seu batismo de fogo, os dois amistosos do Flamengo, campeão carioca naquele ano de 1939, contra o Independiente em São Januário em 24 e 31 de dezembro. O que motivou comentário curioso do argentino Agustín Valido, meia-direita titular do Fla: “No ano que vem vou pedir para disputar a ponta-direita com o Sá. Pelo que esse garoto joga não vai haver lugar para mim”.

A afirmação na Gávea

Por um breve período – a temporada de 1940 e pouco mais – o time do Flamengo contou ao mesmo tempo com três dos maiores jogadores (alguns diriam os três maiores jogadores) do futebol brasileiro antes de Pelé: Domingos da Guia, Leônidas da Silva e Zizinho. O restante da equipe, porém, era algo desnivelado. Ainda assim, os rubro-negros ficaram a um ponto do bi carioca (o título ficou com o Fluminense) e eram os líderes, junto com os tricolores, de um Torneio Rio-São Paulo encerrado abruptamente ao fim do primeiro turno quando os paulistas decidiram abandoná-lo, alegando prejuízos financeiros.

Para Zizinho, além da ascensão meteórica como titular rubro-negro (atuou em todos os jogos da campanha do Carioca), aquela temporada marcou ainda sua primeira convocação para a seleção do então Distrito Federal e a conquista do Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais. Na decisão, disputada já em janeiro de 1941, os cariocas perderam para os paulistas por 3 a 1 no primeiro jogo, no Pacaembu, mas golearam por 4 a 0 em Laranjeiras e levantaram a taça com um empate em 2 a 2, de novo no Pacaembu.

Na seleção carioca com Leônidas e Jair Rosa Pinto

Leônidas atuou pela última vez com a camisa do Flamengo em fevereiro de 1941 e daí em diante entrou em um longo litígio com o clube, encerrado somente com sua venda ao São Paulo em abril do ano seguinte. Ainda em 1941, a equipe rubro-negra iniciou um processo de reformulação com as chegadas de Jayme de Almeida, Pirillo, Vevé e Biguá. O título ficou outra vez com o Fluminense por um ponto, mas o novo time aos poucos ganhava liga. E acrescido do atacante Perácio e do goleiro Jurandyr, iniciaria seu tri em 1942.

A saída do Diamante Negro também fez crescer o status de Zizinho dentro do clube: aos 20 anos, ele se convertia não apenas em uma realidade como no jogador mais badalado do setor ofensivo rubro-negro, demonstrando um amadurecimento espantoso para a época, digno dos gênios. No esquema de Flávio Costa, ele exercia papel central na equipe ao desempenhar a função do meia de ligação pela direita, um dos vértices do losango ligeiramente torto de meio-campo na chamada “diagonal” adaptada do WM pelo treinador.

E aquele Flamengo seria reconhecido como um esquadrão histórico do clube e do futebol carioca e brasileiro. Sobretudo por conquistar três títulos consecutivos num tempo em que, como dizia o treinador uruguaio Ondino Viera (que levantaria o caneco pelos rivais Fluminense e Vasco), o campeonato era “uma guerra”. Na equipe rubro-negra campeã de 1942, todos os titulares – à exceção óbvia dos argentinos Carlos Volante e Agustín Valido – defenderam naquela época ou em algum momento a seleção brasileira. E vários certamente teriam disputado as Copas do Mundo que a Segunda Guerra Mundial cancelou.

O próprio Zizinho teria sido um deles, visto que estrearia na seleção precisamente naquele ano de 1942, em janeiro, na disputa do Campeonato Sul-Americano em Montevidéu. Junto com ele no escrete dirigido por Ademar Pimenta, outros três rubro-negros: o zagueiro Domingos da Guia, o médio-esquerdo Jayme de Almeida e o centroavante Pirillo. Todos eles também fundamentais na conquista do título carioca em outubro, num certame no qual o Flamengo começou oscilante antes de enfileirar 15 vitórias seguidas, que tornaram o 1 a 1 com o Fluminense em Laranjeiras na última rodada suficiente para selar a conquista.

Para 1943, o Flamengo perdeu o ponta-direita Valido, que se retirou dos gramados para cuidar de sua gráfica. Mas compensou trazendo, na reta final, outro estrangeiro: o paraguaio Modesto Bria, que ganhou a posição de centromédio do veterano Volante. Assim, o bicampeonato veio de maneira ainda mais tranquila: apenas uma derrota em 18 jogos (para o America na quarta rodada) e goleadas a granel nas últimas três partidas: 5 a 1 no Bonsucesso, 6 a 2 no Vasco e 5 a 0 no Bangu na Gávea, na partida que confirmou o título.

O Flamengo que goleou o Vasco por 6 a 2 na reta final do Carioca de 1943

O tri, por outro lado, foi dramático. Além de ficar sem seu extraordinário zagueiro Domingos da Guia, vendido ao Corinthians no início do ano, o Flamengo ainda perdeu, em pleno campeonato, o ponta-de-lança Perácio, recrutado como pracinha pela Força Expedicionária Brasileira na Itália durante a Segunda Guerra. Quarto colocado na virada do turno, cinco pontos atrás do Fluminense na segunda rodada do returno, estava desacreditado e descartado da briga pelo título. Até mais uma vez começar a vencer seguidamente.

Na penúltima rodada, com a volta do ex-aposentado Valido, goleou o antigo líder Fluminense por 6 a 1, chegando em igualdade de condições com o Vasco à decisão em confronto direto no último jogo, na Gávea. Mas o esforço parecia cobrar seu preço, e o time chegou arrebentado à semana que antecedeu a partida. Pirillo sofria de orquite (inflamação nos testículos). Vevé tinha o joelho esquerdo inchado. E Valido tinha febre de quase 40 graus. Mas faria de cabeça, aos 41 minutos do segundo tempo, o gol da vitória por 1 a 0.

Junto com o trio da chamada “linha média” (Biguá, Bria e Jayme), Zizinho foi um dos únicos do time a participar integralmente daquela – acidentada, mas ao final vitoriosa – terceira campanha. E embora não fosse exatamente um artilheiro, balançava as redes com regularidade: nos 59 jogos que disputou num total de 63 da campanha somada do tricampeonato, anotou 26 gols. Assim, tornava-se cada vez mais indiscutível no posto de melhor meia-armador do futebol brasileiro, dono da posição nas seleções carioca e brasileira.

Com a primeira, seria novamente campeão brasileiro de seleções no fim daquele ano, brilhando como o grande destaque na melhor de três decisiva contra os paulistas. Já no escrete nacional, no Sul-Americano de 1945 disputado no Chile, ele integraria um formidável quinteto ofensivo completado por Tesourinha, Heleno de Freitas, Jair Rosa Pinto e Ademir de Menezes. E no fim do mesmo ano venceria a Copa Roca, com direito a goleada histórica de 6 a 2 sobre os argentinos em São Januário na segunda das três partidas.

O timaço do Brasil no Sul-Americano de 1945

O grande time do Flamengo, porém, entrou em longo declínio na segunda metade dos anos 1940, com seus craques envelhecendo, se aposentando ou saindo para outros clubes, sem encontrar substitutos à altura. Zizinho, entretanto, era um caso à parte. Seu futebol continuava em alta no clube e na seleção. Mas duas sérias fraturas na perna direita, quase uma após a outra, afastaram o meia da equipe por praticamente dois campeonatos inteiros. Não houve como os rubro-negros não sentirem a baixa de seu gênio do meio-campo.

A primeira aconteceu em julho de 1946, logo na estreia do Flamengo no Carioca, diante do Bangu no estádio do São Cristóvão, em Figueira de Mello. “Foi uma estupidez minha. O jogo estava ganho [os rubro-negros venciam por 4 a 0], mas eu queria mais. Fui com toda a velocidade numa jogada na linha de fundo. Quando tentei cruzar, por causa do gramado irregular, acabei furando e acertando a trava da chuteira do Adauto” relembrou Zizinho, que sempre fez questão de eximir o adversário de qualquer culpa no lance.

“Pedi que levassem o Adauto ao hospital para me visitar. Ele foi e parecia meio envergonhado. Fui logo dizendo: ‘Negão, o que aconteceu, aconteceu. Tem gente que quebra a perna andando na rua, sendo atropelado ou descendo uma escada. Eu quebrei no meu trabalho. Nós vamos continuar amigos. Esqueça isso, desça o cacete no próximo jogo, pois o que ocorreu foi um acidente’”, rememorou o Mestre Ziza, que alguns anos antes já havia se envolvido em outro controverso lance que resultou numa fratura.

Foi em 1942, numa partida entre cariocas e paulistas pelo Campeonato Brasileiro de Seleções no Pacaembu. Numa dividida forte, Zizinho e o zagueiro Agostinho, do Corinthians, se chocaram e o beque teve a perna fraturada. Com a rivalidade inflamada pelo alto-falante do estádio, que dizia estar o defensor alvinegro “à beira da morte” nos vestiários, o meia passou a ser perseguido pelo público, que gritava “É esse! É esse!” a cada vez que tocava na bola. O lance deixou Zizinho marcado por muitos anos no futebol paulista. 

A perna partida no choque com Adauto deixou Zizinho de fora dos gramados por nove meses, desfalcando o Flamengo por todo o Campeonato Carioca de 1946 e voltando a jogar somente em abril do ano seguinte. Aos treinos ele havia retornado pouco antes, mas seus companheiros de Flamengo evitavam dividir bolas com ele, temendo um novo incidente. Foi quando o meia tomou decisão surpreendente e impensável para os dias de hoje, mas que evidenciava sobretudo a raça e a coragem em campo que sempre o marcaram.

Entre uma fratura e outra, Zizinho no ataque do Flamengo de 1947, ao lado de Adílson, Pirillo, Jair Rosa Pinto e Vevé

“Pedi licença ao Flamengo durante um mês e fui jogar umas peladas em Niterói, naqueles campos bravos, onde o pau cantava. Fui testar se estava bom, porque no Flamengo não conseguia. Os caras tiravam a perna na hora de rachar. Pois me enfiei entre aqueles zagueiros maus para me acostumar de novo a levar pancadas e não ter medo”, contou o meia. O ato de bravura, porém, não impediria nova fratura na mesma perna dali a alguns meses, numa entrada de Jorginho, do America, em sua quinta partida pelo Carioca de 1947.

Por incrível que pareça, Zizinho ainda chegou a atuar com a perna quebrada: “Com o perônio partido, joguei ainda duas partidas. Só depois da segunda, contra o Olaria na Gávea, comecei a sentir dores terríveis. Quando saltei da barca em Niterói, não podia mais andar. Fui carregado por torcedores até em casa. Ainda por cima, chovia muito nesse dia. Fiquei gelado de tanta dor. No dia seguinte, minha mãe, que era enfermeira, me levou no hospital e ficou constatado que estava mesmo com a perna fraturada”, lembrou o craque.

Com a nova lesão, Zizinho ficou outros cinco meses de molho. A solidariedade e as mensagens de carinho e apoio vieram de torcedores de todos os clubes, tamanha a admiração que despertava. Quer dizer, quase todos. Mesmo muito amigo do atacante vascaíno e colega de seleção Ademir de Menezes, Zizinho costumava ser hostilizado por cruzmaltinos sempre que se apresentava em São Januário para treinos ou jogos. O que provocou situações curiosas, como a que aconteceu no amistoso entre Flamengo e Rapid Viena, em 1949.

Recém-operado do apêndice, Zizinho era como sempre vaiado por torcedores do Vasco presentes ao jogo. E em dado momento, o jogador não se conteve: virou-se para as sociais do estádio e baixou o calção para mostrar as cicatrizes da cirurgia. Só que o calção escorregou, descendo até os pés. De frente para a torcida do eterno rival, Zizinho gesticulava seminu da cintura para baixo. Horrorizados, os vascaínos exigiram a prisão imediata do jogador por atentado ao pudor. O meia acabou substituído antes que a coisa piorasse.

O craque já contou duas versões sobre o caso. Numa delas, o calção caiu sem querer. Já em outra, o gesto foi deliberado: “Me vaiavam sempre. A bronca é a seguinte. O Vasco tinha aquele famoso trio atacante: Ademir, Jair e Lelé, e sempre abriam uma vaguinha para mim, quando se tratava de seleção carioca ou brasileira. Não me perdoavam ser flamengo. Naquele dia do jogo com o Rapid, não me contive. Deixei o calção cair até quase os pés. Aí o pessoal do Vasco exigiu que eu fosse preso”, contou em entrevista de 1988.

Brasil campeão sul-americano de 1949

Ainda em 1949, sua participação fundamental no título da seleção brasileira no Campeonato Sul-Americano disputado aqui reiterou seu status indiscutível de maior craque do país. Como ídolo também convivia, por exemplo, com grandes nomes da música brasileira, entre eles os rubro-negros Wilson Batista e Ataulfo Alves e o torcedor americano Silvio Caldas, que chegava a visita-lo ao fim dos treinos na Gávea. Aquela mesma temporada, entretanto, seria sua última do começo ao fim como jogador do Flamengo.

Um gênio em Moça Bonita

Há muitas versões para a venda de Zizinho ao Bangu, uma das mais bombásticas da história do futebol brasileiro, em março de 1950. A mais contada é a que o presidente rubro-negro Dario de Mello Pinto teria ironizado o banguense, Guilherme da Silveira Filho, quando este afirmou que seu clube pretendia um reforço de peso, como Zizinho. Após ouvir do mandatário do Flamengo que os alvirrubros nunca teriam dinheiro para a contratação, Silveirinha perguntou o preço e de pronto fez o cheque de Cr$ 800 mil, uma fortuna.

Outra versão conta que o Flamengo queria um jogador do Bangu, o atacante Mariano, e que em troca, sugeriu que Silverinha pudesse escolher qualquer um do elenco rubro-negro. “Só quero o Zizinho”, retrucou o presidente banguense. E há ainda a que relata uma compensação: o cartola alvirrubro era filho de Manoel Guilherme da Silveira, então Ministro da Fazenda e patrono do clube, e Dario teria pedido a ele para que intercedesse junto ao pai para receber uma concessão de loteria. Em troca, Silveirinha pediu o Mestre Ziza.

Em todos os casos o desfecho foi o mesmo: Zizinho ficou profundamente magoado com Dario. Não imaginava que o cartola rubro-negro pudesse sequer admitir negociá-lo. “Difícil dizer o que me magoou mais. Se a perda daquela Copa [de 1950] ou a minha saída do Flamengo. Acho que foi a saída do Flamengo. A maneira como os homens que dirigiam o Flamengo fizeram a transação me machucou muito. Nunca aceitei”, lamentou o craque na mesma entrevista de 1988. O destino de Zizinho, porém, quase foi outro, fora do país.

Zizinho no Bangu

Decepcionado com os dirigentes rubro-negros e decidido a deixar a Gávea, Zizinho chegou a ser cogitado no chamado “Eldorado” colombiano, a liga pirata local que importava craques de outros países, como os argentinos Di Stéfano e Pedernera, o brasileiro Heleno de Freitas e até o inglês Neil Franklin, oferecendo-lhes salários altíssimos e sem pagar pelo passe aos clubes de origem. Mas no Bangu dinheiro não era problema: o meia receberia seis vezes mais que no Flamengo. Tornava-se o atleta mais bem pago do Brasil.

O clube da Zona Oeste carioca tinha grandes ambições. Após passar quase toda a década de 1940 na rabeira dos campeonatos, decidira se reerguer e voltar a ser campeão, como fora em 1933, no primeiro certame profissional do Rio. Em 1947, inaugurou o Estádio Proletário, popularmente conhecido como Moça Bonita, substituindo o velho campo da Rua Ferrer, anexo à Fábrica Bangu. A empresa do ramo têxtil, aliás, era de onde vinha o sustento do clube. De vento em popa então, permitia sonhos gloriosos aos alvirrubros.

Zizinho já era jogador do Bangu quando foi convocado para a Copa do Mundo de 1950. Porém, só foi vestir a camisa do clube pela primeira vez após o Mundial. Como o próprio Mestre lembrou: “Estava na concentração da seleção carioca, foi pouco antes da Copa, quando fiquei sabendo que tinham me vendido. Dali, emendei com a seleção brasileira. Fiquei então recebendo pelo Bangu sem ter pisado em Moça Bonita”.

Lesionado, Zizinho ficou de fora dos dois primeiros jogos da seleção – a vitória sobre o México no Maracanã (4 a 0) e o empate com a Suíça no Pacaembu (2 a 2). Estreou contra a Iugoslávia e logo marcou um golaço que o árbitro galês Benjamin Mervyn Griffiths anulou. Sem problema: poucos minutos depois, ele voltou a receber lançamento de Danilo Alvim e a passar pela defesa balcânica da mesma maneira, anotando um gol idêntico, o segundo do Brasil. Esse valeu. A vitória por 2 a 0 levou o escrete ao quadrangular final.

Zizinho em ação na Copa de 1950

Naquele jogo o meia já deslumbrava a imprensa mundial. “Os europeus não conheciam o futebol brasileiro da década de 1940, por isso ficaram estupefatos com o fenômeno Zizinho”, conta Ivan Soter na Enciclopédia da Seleção, citando o jornalista e árbitro espanhol Pedro Escartín, que escreveu em seu livro sobre o Mundial Lo de Brasil fué así na legenda de uma foto do meia: “Zizinho, a Arte. O interior do Brasil é um prodígio de habilidade. Jogador de futebol que às vezes parece um artista de circo. Sem mais”.

Em seguida, o meia seria a grande força motriz da seleção que aniquilou as fortes equipes de Suécia (7 a 1) e Espanha (6 a 1, em que marcou o sexto gol brasileiro) nas duas primeiras rodadas do quadrangular. E nem mesmo a perda do título com a derrota para o Uruguai por 2 a 1 abalou seu prestígio ou impediu que fosse apontado o craque daquela Copa. E dali a duas semanas, ele já tornava o Bangu o primeiro clube campeão no Maracanã, ao levantar o Torneio Início carioca, batendo o Vasco na prorrogação por 3 a 2.

No Campeonato Carioca daquele ano o Bangu terminaria com a terceira colocação, a quatro pontos dos campeões cruzmaltinos. Ao longo da campanha, golearia o Flamengo por 6 a 0 (na partida que ficou marcada como “a vingança de Zizinho”) e duas vezes o Fluminense por 5 a 0 e 5 a 1. Na temporada seguinte a equipe ficaria ainda mais forte com a chegada do ponta-esquerda Nívio, vindo do Atlético Mineiro para compor um quinteto ofensivo irresistível com Menezes, Zizinho, Joel e Moacir Bueno.

O time do Bangu que derrotou o Fluminense em 1951

Sob a batuta do Mestre Ziza em campo, ao alvirrubros venceriam um curioso Torneio Início do Rio-São Paulo, disputado no Maracanã em 30 de janeiro. Bateram Palmeiras (3 a 0) e Corinthians (2 a 0) antes de decidirem o título contra o America, conquistado no desempate pelo número de escanteios (4 a 1) após empate em 1 a 1 nos gols. Em seguida, o clube excursionaria pela primeira vez à Europa formando um combinado com o São Paulo. Zizinho, o craque do último Mundial, era presença obrigatória por contrato.

A temporada de 1951 culminaria numa excelente campanha no Carioca. O time brigou entre os ponteiros por toda a campanha. Na penúltima rodada, arrasou o Canto do Rio por 11 a 3 em Caio Martins. Zizinho marcou cinco vezes. Na última, já em 6 de janeiro de 1952, bateu o Fluminense por 1 a 0 e terminou empatado em pontos com os tricolores, com quem decidiria o título em dois jogos extras. As lembranças daquela final, no entanto, são bastante amargas para os banguenses, em especial as do primeiro jogo.

Foi uma partida ríspida. Com apenas seis minutos, Didi entrou duro no zagueiro Mendonça, que deixou o campo com a perna fraturada. No segundo tempo, num choque com Telê, o outro beque banguense, o experiente argentino Rafanelli, também se lesionou e teve de continuar em campo fazendo número na ponta direita. E antes do fim do jogo, Mirim e Telê trocaram pontapés e foram expulsos. O Bangu terminou com apenas oito jogadores e perdeu por 1 a 0, gol de Orlando “Pingo de Ouro” marcado ainda na primeira etapa.

Muito desfalcado, o Bangu não conseguiu reagir no segundo jogo e perdeu novamente, desta vez por 2 a 0. Anistiado pelo tribunal da Federação (ao contrário de Mirim), Telê anotou os dois gols tricolores. Aquela seria a maior chance que Zizinho teria de levar os alvirrubros ao título carioca. Mas outras campanhas consistentes viriam, bem como outras magníficas atuações individuais do meia. A vitória sobre o mesmo Fluminense pelo campeonato de 1952, com o Mestre comandando a virada de 2 a 0 para 3 a 2 foi uma delas. 

O Bangu parecia liquidado quando, aos 17 minutos do segundo tempo, Zizinho fez fila na defesa tricolor e só parou ao ser agarrado na área por Bigode. O meia bateu e converteu. Dois minutos depois, em nova arrancada, ele surgiu cara a cara com Castilho. Esperou o goleiro cair e, com gol aberto, tocou para empatar. Por fim, aos 41, lá foi Zizinho disparar de novo. Atraindo a marcação da defesa tricolor, ele viu Moacir Bueno correr livre do outro lado e passou. O atacante recebeu, driblou Castilho e entrou com bola e tudo.

Apesar de terminar apenas na quarta colocação, o Bangu teve disparado o melhor ataque daquele campeonato de 1952 – 62 gols – e os artilheiros – Zizinho e Menezes, ambos com 19 tentos. As exibições de talento e experiência em campo e a nova fase goleadora ajudaram o Mestre Ziza a retornar à seleção no início de 1953, pondo fim a um afastamento que vinha desde a Copa de 1950. Sua presença no Sul-Americano de Lima, que começaria com muito brilho e a braçadeira de capitão, acabaria, porém, em enorme celeuma.

Zizinho se indispôs com o chefe da delegação brasileira, o escritor José Lins do Rego, a respeito da premiação dos jogadores e retornou sozinho ao Brasil antes do desfecho do torneio após ter atuado no sacrifício contra Chile e Paraguai. O relatório entregue por Zé Lins à cúpula da CBD após a competição, no qual o meia era enquadrado como indisciplinado e uma má influência ao grupo, seria decisivo para sua ausência na Copa do Mundo da Suíça no ano seguinte. Mas sua longa história com o escrete não terminaria ali.

Zizinho com Maneco do America e o arbitro Gimenez Molina antes de um clássico no Maracanã em 1951

Em novembro de 1955, a seleção formada apenas por jogadores de clubes cariocas enfrentaria o Paraguai pela Taça Oswaldo Cruz no Maracanã. A partida marcava o retorno de Flávio Costa ao comando do time, e o técnico da equipe de 1950 decidiu trazer de volta o velho mestre. Zizinho começou no banco, mas entrou no intervalo no lugar de Vavá, com o placar ainda em branco. Para a etapa final, estava formado o que a imprensa apelidou de “o ataque dos cinco pretinhos”: Sabará, Didi, Zizinho, Válter Marciano e Escurinho. 

E o jogo, até ali amarrado, mudou completamente. Com apenas cinco minutos em campo, Zizinho já havia inaugurado o placar ao pegar um rebote do goleiro Benítez. O Brasil ampliou aos 20 minutos num cruzamento de Escurinho da esquerda para a cabeçada de Sabará. E aos 31, Zizinho ainda brindaria o público de cerca de 75 mil torcedores com um belíssimo tento em jogada individual, daquelas em que costurava toda a defesa adversária. A aclamação foi imediata: após o gol a torcida entoava: “É o maior! É o maior!”.

Também em 1955, o Bangu voltaria a conquistar o Torneio Início com outro show de Mestre Ziza no Maracanã em 31 de julho. O time começou superando o São Cristóvão nos pênaltis (Zizinho bateu e converteu os três). Depois venceu o Fluminense por 1 a 0 antes de superar o Flamengo também nas penalidades (outra vez com o meia acertando as três cobranças). E na decisão com o Vasco um golaço do craque, fazendo fila na defesa adversária antes de acertar um chutaço inapelável do bico da área, deu a vitória por 1 a 0.

Porém, seria no Campeonato Carioca daquele ano que a relação de Zizinho com o clube da Zona Oeste começaria a azedar. Antes da virada do ano, a equipe vinha em grande forma ao golear o Vasco (5 a 0) e a Portuguesa (8 a 1). Mas no empate em 2 a 2 com o Flamengo, já adentrando por janeiro de 1956, o meia desperdiçou um pênalti e perdeu outra chance clara de gol. A diretoria banguense acusou o meia de ter entregado o jogo. O técnico Tim saiu em sua defesa e ameaçou se demitir. Acabou permanecendo.

O treinador, porém, não resistiria a uma sequência de resultados ruins durante o campeonato de 1956 e acabaria demovido do cargo. Mas também sobraria para os astros do time, acusados pelos dirigentes de fazerem corpo mole: seis jogadores, entre eles Zizinho, seriam multados. E o meia ainda seria o pivô do polêmico desfecho do certame, ao ser expulso pelo árbitro Eunápio de Queiroz ainda no intervalo da derrota para o Vasco por 2 a 1 pela penúltima rodada, partida que acabou dando o título aos cruzmaltinos.

O Bangu havia saído na frente com um belo gol de falta de Nívio, mas Eunápio anulou marcando impedimento do atacante Hilton Vaccari. Os alvirrubros não desanimaram: Zizinho fez mais uma de suas jogadas magistrais e cruzou para o mesmo Hilton abrir a contagem aos 22 minutos. Pouco depois, o Vasco empatou num pênalti que Vavá cobrou. O clima esquentava, e o lateral vascaíno Coronel se excedia nas entradas mais duras, às quais Eunápio fazia vista grossa. Capitão do Bangu, Zizinho cobrava uma atitude do árbitro.

Mas ele próprio acabaria expulso. Na descida para o túnel, o bandeirinha delatou a Eunápio uma reclamação do craque banguense, que foi excluído do jogo na volta do intervalo. Revoltado, o camisa 8 alvirrubro explodiu aos microfones das rádios, apelidando o árbitro de “Larápio de Queiroz”. Sob forte temporal no segundo tempo e com Coronel em campo até o fim, o Vasco virou o jogo com mais um gol de Vavá aos 44 minutos, venceu por 2 a 1 e encaminhou o título. Ao Bangu restou protestar, mas sem efeito.

Zizinho, capitão da seleção contra o Paraguai em 1956

Em meados de 1956, o Mestre iniciaria sua última passagem pela seleção brasileira, já com quase 36 anos. Ainda no comando, Flávio Costa montou praticamente um combinado Bangu-America no escrete para as Taças Oswaldo Cruz (contra o Paraguai) e do Atlântico (contra Argentina e Uruguai), além dos amistosos contra Itália e Tchecoslováquia. Com Zizinho novamente de capitão, marcando cinco gols e construindo muitos outros, o Brasil venceu cinco dos sete jogos, empatou um e perdeu um dos jogos contra os tchecos.

Seus últimos capítulos com a camisa agora canarinho viriam na sequência, no Sul-Americano de março de 1957, compondo outro formidável ataque: Joel, Didi, Evaristo, Zizinho e Pepe. Nestes últimos anos de carreira, Mestre Ziza atuava mais avançado, encostando no centroavante. Contra a Colômbia, ajudaria Evaristo a quebrar um recorde estabelecido pelo próprio veterano 11 anos antes: ao marcar cinco vezes na goleada de 9 a 0, o atacante do Flamengo se tornava o jogador com mais gols numa única partida pelo Brasil.

Zizinho havia sido o primeiro a marcar quatro gols num só jogo pela seleção – feito igualado mais tarde por Ademir de Menezes e Julinho Botelho – na goleada de 5 a 1 no Chile pelo Sul-Americano de 1946. Já no de 1957, ele se despediria da seleção ostentando duas marcas importantes: com 53 jogos, era o atleta que mais vezes vestira a camisa do Brasil. E com seus 18 gols em suas participações somadas na competição, tornava-se, ao lado do argentino Norberto Mendez, o maior artilheiro da história da Copa América.

Zizinho e Puskas batem bola e conversam na piscina do Hotel Glória, no Rio – 1957

A passagem pelo São Paulo e o desfecho da carreira

Sua última partida pelo Bangu aconteceria em 7 de novembro de 1957. Em Buenos Aires, o clube representaria a seleção carioca num amistoso contra a Argentina, campeã sul-americana. Zizinho fez o gol do empate em 2 a 2. Na volta, nem retornou ao Rio: desceu na escala em Congonhas, onde o São Paulo, seu novo clube, o aguardava após ter acertado sua contratação com os cartolas alvirrubros. O veterano era um reforço pedido pelo treinador húngaro Béla Guttmann para a reta final da campanha tricolor no Paulistão.

O São Paulo não fazia uma campanha exatamente empolgante. Na etapa de classificação, havia perdido para o Juventus e o XV de Piracicaba no Pacaembu e avançado num discreto quinto lugar, atrás do Jabaquara. E começou a fase final também oscilante, chegando a sofrer uma goleada de 4 a 0 para a Portuguesa. Duas semanas depois, em 10 de novembro, Zizinho estrearia mudando totalmente o rumo do time: em seus quatro primeiros jogos, venceu Palmeiras (4 a 2), XV de Piracicaba (7 a 1), Santos (6 a 2) e Ponte Preta (6 a 2).

A arrancada registrou dez vitórias e dois empates. E terminou na conquista do título paulista com um 3 a 1 sobre o Corinthians na última rodada, em 29 de dezembro. Embora o São Paulo contasse com grandes nomes como Poy, De Sordi, Mauro, Maurinho, Gino e Canhoteiro, o pesquisador Alexandre da Costa comenta em seu Almanaque do São Paulo, que Zizinho “transformou um time comum em campeão em apenas 12 jogos”. Era a magia do velho Mestre Ziza, então já contabilizando 36 anos de idade, fazendo das suas.

Zizinho em sua passagem de cerca de um ano pelo São Paulo

O meia vestiu a camisa tricolor até novembro de 1958, mas seu passe ficou preso ao clube até o fim de 1960. Chegou a ter uma rápida passagem pelo São Bento de Marília por empréstimo em 1959. Depois, mesmo inativo, chegou a ser especulado no Botafogo, no Santos, no America, no futebol colombiano e em clubes menores de outros estados brasileiros. Até retornar ao Bangu, agora como técnico, entre outubro de 1960 e fevereiro do ano seguinte. Era o pontapé inicial em uma nova – ainda que bissexta – carreira.

No Chile, trabalhando no Audax Italiano, ele ainda teria de aliar os cargos de jogador e treinador em 1961. Mestre Ziza ainda retornaria algumas vezes ao Bangu como técnico. Também teria passagens pelo comando do Vasco e do America (onde formou um bom time em 1971). À frente da seleção brasileira de base, conquistou a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos da Cidade do México em 1975 (num time que contava com os jovens Carlos, Edinho, Batista e Cláudio Adão) e classificou a equipe aos Jogos Olímpicos de Montreal.

De personalidade sempre forte, desentendeu-se com os dirigentes da CBD antes do embarque ao Canadá e deixou o cargo, sendo substituído por Cláudio Coutinho. Depois disso, recolheu-se ao seu emprego de fiscal de rendas do estado do Rio de Janeiro, com aparições esporádicas na imprensa esportiva, como quando lançou seus livros de memórias de seu passado glorioso no futebol. Até falecer aos 80 anos em Niterói, onde morou a maior parte da vida, no dia 8 de fevereiro de 2002, vitimado por problemas cardíacos.

Zizinho – Flamengo veteranos

Na entrevista de 1988, ao fazer um balanço da carreira, falou com carinho dos clubes em que atuou. “Passei 11 anos no Flamengo. Fui tricampeão pelo Flamengo. Sou flamengo até hoje, embora goste também do Bangu e do São Paulo, clubes que me trataram de forma estupenda, maravilhosa”, contou. Pelos rubro-negros foram 328 partidas e 145 gols, número que o coloca como o nono maior goleador da história do clube. Já com os alvirrubros foram 282 jogos e 126 gols, que fazem dele seu quinto maior artilheiro. Por fim, na breve passagem com a camisa tricolor disputou 66 partidas e marcou 27 gols.

Os últimos lances da carreira do Mestre Ziza coincidiram com a ascensão o garoto Pelé, que anos depois revelaria em entrevista: “Zizinho foi meu ídolo e meu mestre”. Ao saber disso, o velho craque respondeu com um bilhete: “Grande Rei Pelé, se fui um bom espelho para você no início de sua carreira, pode estar certo de que isso me enche de orgulho. Se tivesse que começar tudo novamente, do ano em que parei, 1958, teria que voltar a aprender, pois o reflexo do seu espelho foi mais forte”. Além de genial, Zizinho era também gentil.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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