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O bom filho

Como você se sente quando o quarto árbitro levanta a plaquinha que anuncia a estreia de um jogador formado pela base do seu clube? Se o time estiver vivendo um bom momento, a reação é sempre das mais positivas por parte do público. O moleque vai entrar em campo sob uma salva de aplausos, acompanhado de toda a paciência do mundo. Caso o clube esteja em uma draga, por mais que o fanático adepto tente ser paciente, não conseguirá disfarçar a insegurança. Fica, porém, a esperança de que o novato arrebente e tenha sido mandado ao mundo (e a campo) para salvar o clube de maus bocados. Pouquíssimos salvam. E só alguns se salvam, a ponto de terem a sua estreia lembrada com carinho.

E quando o menino vinga na equipe de cima, faz gols, se destaca, dá sinais de que está virando um craque e… vai embora? Existem casos e casos (e taí um clichê que serve para tudo, até para defender o uso de clichês em um texto). Às vezes, ele força a barra para sair e mancha de vez a sua história no clube. Mas também pode acontecer dele ter cumprido um ciclo ali dentro e ter de sair para viver outras coisas e conquistar tudo o que merece. Até mesmo para evoluir como pessoa e profissional. A despedida, então, não é raivosa, mas melancólica. E na arquibancada, haverá sempre aquele otimista que dirá, como se tentasse se convencer do melhor: “Um dia, esse cara vai voltar e ainda vai nos dar muitas alegrias”.

Pois Alex voltou ao Coritiba. Depois de ganhar o epíteto nunca assumido de “Cabeção”. Depois de ser ídolo no Palmeiras, no Cruzeiro e no Fenerbahçe, onde até virou estátua. Depois de ter vestido tantas vezes a camisa da seleção, sem o mesmo brilho com a qual vestiu a dos seus clubes, é verdade, mas muito dignamente. E depois de de ter vivido em algumas oportunidades a decepção de não envergá-la em uma Copa do Mundo, por mais que tenha sido um dos grandes nomes de sua geração. Mesmo depois de tudo isso, o amor de Alex pelo Coxa, clube do qual sempre foi torcedor declarado, não arrefeceria. Só um mau caráter esqueceria do clube de coração, ainda mais quando ele lhe formou para uma carreira bem sucedida. Nunca pareceu ser o caso de Alex.

Mas ele bem que poderia ter dado uma abordagem mais “profissional” à sua carreira. Para não dizer cínica. Pegue-se o exemplo de Ronaldinho Gaúcho, que poderia ter feito as pazes com a torcida gremista, que ficou ressabiada pelo modo como ele os deixou. Preferiu fazer leilão e foi parar bem longe de Porto Alegre. Ou mesmo o de Ronaldo, que tinha os seus motivos para desconfiar da competência e idoneidade da diretoria do seu Flamengo, mas não pensou duas vezes antes de abraçar o bom projeto corintiano. Mais um no bando de loucos? Não exagera. Bons relacionamentos nascem de conveniência, amor não. Rivaldo nunca sequer cogitou voltar a defender o Santa Cruz. Mágoas passadas, talvez. Mas quando retomou seu laço com o Mogi Mirim, em um piscar de olhos foi parar no São Paulo.

Há esperança

Não dá para recriminá-los por terem pensado na carreira, ou mesmo no dinheiro. Cada um sabe o que é melhor para si. Mas me permitam ficar feliz ao ver um jogador retornar ao berço, em uma tentativa, ainda que tardia, de recompensar todo o apoio que recebeu quando ainda não era ninguém. Se Alex optasse por Palmeiras ou Cruzeiro, onde viveu grandes histórias, também seria bonito, claro. Mas a escolha pelo Coxa é, além de tudo, simbólica. E por isso mesmo, nenhum torcedor dos dois ex-Palestras Itálias tem direito a fazer beicinho para a escolha do ídolo. Isso corresponde a ser ingrato com alguém que demonstra gratidão por alguém. O que seria duplamente condenável.

Alex volta ao Brasil já consagrado. Terá o respeito de todos os adversários e o carinho do clube de coração. Pode até não conquistar nada no seu retorno, mas deverá encerrar sua trajetória no futebol com a cabeça erguida. A mesma postura com a qual sempre se apresentou nos gramados e que lhe possibilitou marcar tantos gols e dar outros tantos passes e lançamentos geniais. Excelente para o Coritiba, que ganha um maestro, daqueles que elevam o nível de uma equipe. Veja o exemplo de Juninho Pernambucano no Vasco. O retorno do ídolo poderá influenciar até mesmo na forma com que as atuais promessas da base se relacionarão com o clube a partir de então. Um craque vale muito. Um bom exemplo é de valor inestimável.

Por isso mesmo, a notícia é boa para todos nós, que, quando nos depararmos com um garoto estreando com a camisa do clube para o qual torcemos, poderemos lembrar do Alex e acreditar que aquele atleta não está ali apenas esperando a primeira oportunidade para ir embora, quando seu empresário encontrar uma boquinha em um clube maior, ou pior, de mesmo porte. E sonhar que aquele cara poderá nos salvar de maus bocados ou até mesmo nos levar a grandes conquistas. E que, se ele nos deixar de forma prematura, poderá voltar, ainda que já veterano, para provar que sente por aquele escudo, o mesmo carinho e respeito que nós sentimos por aquela instituição. E assim, esta continuará sobrevivendo às maiores provações, sempre à espera de seu próximo bom filho.

Afinal, “ele vai chegar e ainda vai nos dar muitas alegrias”.

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Ricardo Henriques

Jornalista agnóstico formado pela Universidade Católica de Pernambuco, Ricardo Henriques nasceu, foi criado e se deteriorou no Recife, cidade com a qual vive uma relação de amor (mentira) e ódio. Não seguiu adiante com seus sonhos de ser repórter esportivo, nem deu continuidade à carreira como centroavante trombador e oportunista nas areias de Boa Viagem, mas encontrou no Twitter a plataforma ideal para palpitar sobre todos os assuntos onde não foi chamado. Viciado em esportes, cinema, seriados de TV e escolas de samba, tem mania de fazer listas que só interessam a si próprio, chegando ao ponto de eleger suas musas como se selecionasse o onze inicial de um time de futebol. Esse blog não trará informações quentes de bastidores, análises táticas abalizadas ou reflexões ponderadas. O que talvez, por consequência, não traga leitores. No cardápio: ranzinzices bem humoradas, cornetadas debochadas e fartas doses de cretinice e cultura pop, temperando o que há de mais ridículo e pernóstico no mundo do futebol. PS: ele tirará uma onda com o seu time ou os seus ídolos, mais cedo ou mais tarde. Não vai adiantar você fazer careta e espernear que nem o Mourinho faz quando é contrariado. Contato: [email protected]

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