O BBB do Botafogo

Os últimos meses de 2008 foram terríveis para os botafoguenses. Entre outubro e dezembro, o time de Ney Franco só venceu quatro partidas e, quando percebeu que estava distante de seus objetivos – vaga na Libertadores e título da Sul-Americana -, se desmotivou. Ainda era 12 de novembro e Carlos Alberto fez as malas e partiu de General Severiano com salários atrasados, a custo zero. Ali já estava claro que Túlio, Diguinho e Lúcio Flávio, símbolos da recuperação do clube nos últimos anos, também seguiriam o mesmo rumo e, o que podia ser apenas uma troca de alguns jogadores, se transformou em reformulação total.
O caminho aberto por Carlos Alberto foi seguido por nada menos que 20 outros jogadores e coincidiu com o conturbado processo eleitoral pelo qual passou o Botafogo no fim de ano. O novo presidente, Maurício Assumpção, assumiu com a missão de não permitir que o clube voltasse a atrasar salários, algo que assombrou General Severiano nos tristes capítulos de sua história no fim dos anos 90 e início do ano 2000. E que reapareceu em 2008.
Isso fez com que discurso de valorização das categorias de base ganhasse força, bem como o de enxugar a folha salarial de R$ 1,6 milhão mensais para R$ 1,1 milhão. Para se ter uma idéia do baque, Botafogo e Sport pagam basicamente as mesmas quantias em salário neste ano de 2009.
A conjuntura indicou um elenco novo, discreto e formado com muito esforço para esta temporada que se inicia. Em outras palavras, o famoso “bom, bonito e barato” que qualquer dona de casa de classe média-baixa conhece como poucos. E que não deixou boas lembranças com o Corinthians em 2004, Palmeiras em 2001, Flamengo em 2005 e Vasco em 2008, por exemplo.
Não dá para dizer que o Botafogo não trouxe bons reforços. São 11 no total e Renato, ex-Atlético Mineiro, deve ser o próximo a assinar. Wellington e Teco são bons zagueiros, mas não tinham espaço na Toca da Raposa. Juninho é identificado com as cores botafoguenses e tem tudo para recolocar a carreira nos eixos. Fahel é um volante de atuações lineares e é conhecido de Ney Franco, assim como Léo Silva. O experiente Batista, de boas passagens por Avaí e Paraná Clube, enfim tem, aos 29 anos, a justa oportunidade de defender um clube grande.
Mais adiante, Maicosuel é o único meia contratado até aqui, mas precisa de regularidade e uma boa dose de confiança, tudo o que lhe faltou no Parque Antártica. No ataque, há três boas apostas: Diego, emprestado pelo Cruzeiro, fez um grande Brasileiro em 2005, enquanto o goleador Victor Simões se encaixa no mesmo perfil de Batista. Por fim, Reinaldo não pode ser encarado com convicção, mas soa como uma aposta justa. Um jogador que, se vingar, pode se tornar a referência que Dodô foi em sua passagem pelo clube.
Da base, o Botafogo traz algumas boas figuras, especialmente o lateral-esquerdo Gabriel, o atacante Laio, e os meio-campistas Pará, Jougle e Wellington Júnior, responsáveis por levar o clube até o vice da Taça OPG de 2008, espécie de campeonato estadual. Eles se juntam aos reforços e aos poucos remanescentes da equipe do ano passado, como Leandro Guerreiro, Eduardo, Alessandro, Túlio Souza, Lucas Silva e Thiaguinho, além dos goleiros Renan e Castillo.
Não se duvida da capacidade de observação de Ney Franco, grande nome a permanecer para 2008 no Botafogo. Por outro lado, o treinador mineiro teve dificuldades com jogadores que indicou ao Flamengo, em 2007. A turma do Ipatinga, comandada por Walter Minhoca, é de triste lembrança na Gávea, e Ney precisará principalmente da paciência que normalmente falta no ambiente interno de General Severiano.
Um torneio normalmente frágil como o Estadual do Rio indica um território teoricamente ideal para aprimorar o entrosamento e formar, com tantos nomes novos, uma equipe nova. Mas, após as boas temporadas de 2007 e 2008, não tem como não dizer que o Botafogo deu um passo para trás. Como foi dito aqui na última coluna do ano passado, o futebol brasileiro, com o modelo atual, não vai mais comportar tantos clubes grandes. General Severiano já sente os efeitos desse processo.
Seleção em campo
Pela primeira vez, essa coluna irá falar sobre a Seleção Brasileira. Mas não a de Dunga, mas sim a de Rogério Lourenço. Não a de Kaká e Robinho, mas a de Dentinho e Renan Oliveira. Enfim, é dos meninos que compõem a amarelinha sub-20, que disputa o Sul-Americano da categoria a partir da próxima semana, que vamos falar.
Rogério Lourenço, para quem não se lembra, é o mesmo ex-zagueiro de Flamengo e Cruzeiro nos anos 90. Ainda está na Gávea, aliás, onde comandou os juvenis e recentemente assumiu os juniores no lugar de Adílio. Ele tem nas mãos uma geração talentosa, mas que vem desfalcada: com exceção do Internacional, nenhum clube liberou mais de dois jogadores, e ainda não foi possível trazer ninguém do exterior. Assim, Pato, Breno e Rafael, entre tantos outros, se tornam desfalques. Marquinhos, lesionado, deixou a Granja Comary e foi para o Palmeiras, se transformando em outra ausência a ser sentida.
A preparação para o Sul-Americano, iniciada em 2008, esteve longe de empolgar. A Seleção fez feio no torneio de L’alcudia, na Espanha, e venceu de maneira tímida a Sendai Cup, no Japão. Já com o grupo atual convocado, passou de maneira discreta por amistosos preparatórios. Rogério Lourenço, porém, tem convicção da qualidade do grupo que tem em mãos, e certamente há mais talento que em 2007, quando nomes como Pato e Lucas ofuscavam alguns medíocres como Amaral, Carlinhos, Ji-Paraná, Leandro Lima, Edgar e Fabiano Oliveira, para não ir além. Do banco, aliás, Nelson Rodrigues é um nome de tristes lembranças, também.
Se o grupo atual (ver convocados ao lado) aproveitar o tempo razoável que teve para treinamentos, se encorpar, e tiver gana, passará sem sustos por um Sul-Americano Sub-20 normalmente marcado por batalhas mais físicas que técnicas. No Mundial, o caroço é mais embaixo, mas já será possível contar com um grupo bem mais completo. Olho nos meninos!



