O Atletiba em que as torcidas não foram prioridade e ambas se manifestaram contra isso

O maior clássico da rodada do Campeonato Brasileiro contou com o menor público. O Atletiba deste domingo será mais lembrado pelos imbróglios fora do campo do que propriamente por aquilo que aconteceu com a bola rolando, durante a vitória por 2 a 0 do Furacão, importante na briga da equipe por uma vaga na próxima Libertadores. Por conta do show de Andrea Bocelli (que também alterou um mando de jogo do Palmeiras, diga-se), a diretoria rubro-negra optou por realizar a partida na Vila Capanema. Além disso, houve um aumento de 100% no preço dos ingressos destinados à torcida visitante. Reflexos disso: apenas 6,7 mil “pagantes” (em entradas que só precisavam da manifestação de interesse dos sócios atleticanos) e 7,7 mil presentes estiveram nas arquibancadas. Enquanto isso, o Coxa se recusou a vender os bilhetes para os seus torcedores e reuniu 10,3 mil alviverdes no Couto Pereira, para assistir ao jogo através de telões.
A realização do Atletiba fora da Arena da Baixada não agradou muitos torcedores do Atlético Paranaense. O clube até tentou alterar a data do clássico, mas esbarrou na CBF e no próprio Coritiba pela falta de encaixe no calendário. Deu um motivo a mais para os protestos contra a atual diretoria, que já têm sido frequentes. Foram várias faixas pedindo a saída de Mário Celso Petraglia, atual presidente do conselho deliberativo. E o próprio vazio nas arquibancadas sinalizam uma resposta de que a situação não agradou. Os 6,7 mil ingressos adquiridos ficaram bem abaixo dos 17 mil oferecidos aos torcedores atleticanos, assim como representam menos de um terço dos 21 mil sócios ativos que o Furacão conta e que poderiam fazer a solicitação das entradas. A média de público na Baixada durante a atual campanha no Brasileirão é de 14,5 mil pagantes por jogo, enquanto o último clássico na arena contou com 26,3 mil pagantes, na decisão do Paranaense.
E isso porque o Atletiba da Vila Capanema viveu uma situação rara em relação aos últimos meses. Desde abril a atual diretoria do Atlético está rompida com as organizadas, incluindo a principal, Os Fanáticos. Os cartolas proibiram que bandeiras, camisas e quaisquer materiais referentes ao clube que não sejam oficiais entrem na Baixada. Neste domingo, entretanto, houve um acordo para o clássico. As baterias foram camufladas, enquanto os bandeirões ganharam permissão especial nas arquibancadas. Não fosse isso, os números poderiam ser um pouco menores e a atmosfera no estádio seria certamente mais silenciosa. Após a vitória, o técnico Paulo Autuori elogiou a festa feita pelos rubro-negros.
Enquanto a Vila Capanema atravessava tarde de torcida praticamente única, com apenas 12 almas torcedores se aventurando no setor visitante, o Couto Pereira concentrou a metade verde do Atletiba. Por disponibilizar os ingressos apenas para os sócios, o Atlético teve passe-livre para estipular o preço dos ingressos para os rivais. Assim, os rubro-negros passaram a vender as entradas por R$ 200 a inteira, o dobro do valor geralmente praticado na Baixada, o que desagradou a diretoria do Coritiba, recusando os bilhetes. Assim, o Coxa resolveu organizar um evento em seu próprio estádio, abrindo os portões e lucrando com a comercialização de produtos. Contou com uma adesão maior do que a ocorrida na Vila Capanema, em público presente 33% maior.

Independente dos clubes envolvidos, a situação gera questionamentos pertinentes. Que a arrecadação com o show seja importante e que a diretoria do Atlético tenha realmente tentado alterar a data do jogo, ainda assim soa estranho que a prioridade se dê ao evento, e não à própria torcida. Natural que parte dos rubro-negros proteste contra a decisão. Além disso, a postura em relação ao Coritiba gerou um estresse desnecessário. Será que os R$ 14 mil arrecadados a mais, caso o Furacão vendesse apenas inteiras e toda a carga de ingressos aos visitantes, faria diferença ao clube? Pareceu uma maneira de afastar os rivais do clássico ou de se aproveitar de seus bolsos, mas para isso colocando em xeque a relação entre as diretorias, além de uma pluralidade maior nas arquibancadas.
Em meio a tantos entraves, o ponto central é: justo no clássico, que só é tão grande graças às duas torcidas, elas acabaram relegadas ao segundo plano por questões financeiras. Triste retrato de um tipo de postura que se torna cada vez mais comum.




