Brasil

O America se despede de Tia Ruth, a querida torcedora-símbolo de fé e gentileza

Emblema do amor americano, Tia Ruth faleceu nesta semana, aos 96 anos

*Por Stéfano Salles

“Como está aquela senhorinha que está em todos os jogos do América, sempre caracterizada de vermelho da camisa aos pés?” Mesmo sem saber o nome de Ruth Aragão Rodrigues ou, para nós americanos, simplesmente Tia Ruth, todo Rio de Janeiro perguntava por ela ao se deparar, surpresa, com algum dos poucos torcedores rubros que resistem ao ocaso do primeiro América do país. Há alguns anos a saúde debilitada afastou nossa torcedora-símbolo dos estádios e a pergunta passou a surgir com mais frequência. Sempre acompanhada com um tom de ternura e preocupação sincera de quem se encantara com um exemplo de fidelidade eneagenária que, mais do que ao tempo, sobreviveu a toda sorte de intempéries. 

A Tia Ruth que nos deixou essa semana, aos 96 anos, não era apenas mais uma integrante da nossa família. Era a matriarca que representava os melhores valores de nossa ancestralidade. A pureza e retidão de seus valores são daquelas referências que nos fazem crer que a luta vale a pena até mesmo nos momentos mais difíceis. Fundadora da Torcida Belfort Duarte, uma homenagem ao eterno capitão rubro e símbolo máximo do fair play no Brasil, ela carregava a cada jogo uma bandeira na qual se referia ao ídolo como nosso maior símbolo. Sem se dar conta que, na verdade, se tornara a principal intérprete dos valores que ele defendia. 

Não há uma geração de americanos que não conheça a história da decisão de 1960, quando foi ao Maracanã acompanhar a decisão contra o Fluminense. Mesmo grávida de muitos meses e proibida pelos médicos. Sentiu que não poderia perder a chance de ver o América romper um jejum de 25 anos sem o título máximo do estado. A rebeldia rendeu um desmaio e atendimento no setor médico do estádio. Quando despertou, ainda sem saber da vitória por 2 a 1, já estava cercada pelos primeiros campeões da Guanabara, que a ela dedicaram o troféu.

Se naquele momento de alegria carregava dentro de si uma vida, Tia Ruth apenas fazia com que uma história se repetisse. Em sua simplicidade sempre elegante, gostava de dizer que já era torcedora do América antes mesmo de nascer, porque sua mãe, Francisca Rodrigues, também americana, era apaixonada pelo clube e acompanhava as partidas em Campos Sales durante a gravidez.

Se Leônidas da Silva imortalizou a bicicleta, Didi consagrou a Folha Seca e Higuita será sempre lembrado pela defesa do escorpião, Tia Ruth eternizou a fidalguia de receber pessoalmente no estádio os árbitros com rosas vermelhas e abençoar os jogadores rubros. Volta e meia algum ex-atleta do clube, encarnando as cores do adversário, queria reviver o privilégio. Carinho que jamais ela negou.

Tia Ruth viu os elencos que conquistaram o Campeonato Carioca de 1960, a Taça Guanabara de 1974, a Taça Rio de 1982 e o Torneio dos Campeões daquele mesmo ano. Viu o América alcançar duas semifinais de Brasileiro e emplacar duas vezes o artilheiro da competição. Se emocionou com gols de Edu Coimbra e Luisinho Lemos, com os desarmes e tentos marcados de cabeça do zagueiro Alex Kamianecky, a quem considerava um filho. 

Mas se desesperou com os times sofríveis que têm nos assombrado nos gramados com a camisa rubra ao longo de décadas. Sua receita para lidar com isto era partir para os estádios acompanhada da fé em Santa Terezinha. Bradava o nome da santa com sua voz já gasta, na esperança de que ela desempenhasse para o América no papel desempenhado pelo Gravatinha na obra de Nelson Rodrigues. 

A cada ataque adversário, lance mais perigoso ou cobrança de bola parada que parecia ir em direção ao gol, o estádio ouvia: “Ai, minha Santa Terezinha! Não deixa, não”. Não víamos acontecer, mas tínhamos certeza de que às vezes a santa, coitada, diminuía a distância entre as duas traves, abaixava o travessão e providenciava para que o vento soprasse mais forte. Afastando o perigo.  

Do outro lado, geralmente estava sua amiga, uma Terezinha bem menos tolerante, madrinha da Belfort Duarte, que desabafava com as palavras de baixo calão que ela se negava a pronunciar. No final, sempre abraçava os torcedores mais próximos e mandava o recado: “Eu amo todos vocês”. E amava, mesmo. Chamava a todos pelo nome e perguntava pela família de cada um. O América era sem dúvida um amor, mas o tempo também o converteu em um espaço de convivência e afeto.

O filho que quase nasceu prematuro no Maracanã, Tia Ruth perdeu adulto, mas ainda jovem. Toda a saga está narrada no primoroso livro “Heróis do Cimento”, de Hilton Mattos. Se esse é o tipo de perda e dor que não se compensa de nenhuma maneira, sabemos ao menos que Tia Ruth distribuiu e recebeu amor, cultivou respeito em todos os estádios. Nossa torcedora símbolo conquistou, sem esforço, filhos e sobrinhos distribuídos por todo o país. Foi escolhida por eles pelo seu jeito de ser. 

Como vários dos grandes ídolos a quem reverenciou a vida inteira, Tia Ruth angariou carinho e simpatia de uma legião de torcedores de outros clubes que não a conheceram, mas estão tão consternados quanto nós com a perda. Há quem diga que ela se tornou uma estrela no céu. Não há quem duvide. Mas, com certeza, gostaríamos de tê-la também como uma estrela em nossa camisa, para que nos acompanhe para sempre. Na Terra e no céu.

*Stéfano Salles é jornalista e coordenador do Museu da Memória Americana

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