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Como o jogo bonito transformou o amarelo na maior marca do futebol

O branco do Real Madrid de Di Stéfano é simbólico, assim como o do Santos de Pelé. O azul-grená do Barcelona ocupa o imaginário de muita gente, assim como o rubro-negro do Milan ou o vermelho do Manchester United. Mas não adianta. Não há nenhuma camisa de futebol mais emblemática do que a amarela da seleção brasileira. Associação imediata em qualquer parte do mundo. De um jogo que também virou grife.

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O Brasil passou a jogar de amarelo para se esquecer do branco de 1950. Trocou a imagem de um futebol pálido pelo ouro que brilho tanto na Suécia, no Chile e, principalmente, no México. Mais do que uma camisa, o amarelo também se tornou um sinal do futebol brasileiro. O futebol bonito de 1970 que teve outra mostra em 1982 e que continuou representado por craques em 1994, em 2002, em 2005. Mas que, em 2014, não representa mais o ouro que já foi um dia dentro de campo.

A invenção da camisa amarela

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O Maracanazo deixou um cenário de terra arrasada na seleção brasileira. A equipe passou quase dois anos sem entrar em campo depois da fatídica derrota para o Uruguai. Dos 11 jogadores que disputaram aquela partida decisiva, somente Bauer voltou a ser chamado para uma Copa do Mundo. Seis tiveram apenas aparições esporádicas, enquanto outros quatro nunca mais voltaram. E a intenção era mesmo a de reinventar a equipe, deixando para trás todas as dores daquela derrota.

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O passo mais contundente foi mudar o uniforme. Porque o branco tinha virado sinônimo do azar, da síndrome de vira-latas, da palidez brasileira diante da raça uruguaia no Maracanã. O jornal Correio da Manhã recebeu a permissão da CBD para promover, em 1953, um concurso que escolheria a nova camisa da Seleção. Para enterrar de vez a “falta de simbolismo moral e psicológico” que o antigo fardamento.

A única determinação do concurso era a de que todas as quatro cores da bandeira no uniforme. Venceu Aldyr Garcia Schlee, um gaúcho de 19 anos que trabalhava para o jornal local criando imagens para a editoria de esportes.  “Fiquei escandalizado porque eles exigiam que as quatro cores fossem utilizadas. Até três cores tudo bem. Mas com quatro fica realmente difícil. Nenhum time usa quatro cores. E as cores da bandeira juntas não combinam muito”, afirmou, ao livro Futebol: o Brasil em campo, de Alex Bellos. “Amarelo e verde são as cores mais usadas para representar a nação. Quando amarramos fitas nos cabelos, elas são verdes e amarelas. Então pensei, vamos trabalhar com o amarelo e o verde”.

Aldyr fez mais de 100 desenhos. Venceu mais de 300 concorrentes, muitos deles profissionais. Porém, nada superou a camisa amarela com detalhes em verde, o calção azul e as meias brancas. Em fevereiro de 1954, no primeiro jogo da história da Seleção pelas Eliminatórias da Copa, o novo uniforme tinha a sua estreia. Os gols de Baltazar definiram a vitória por 2 a 0 do Brasil, o bom presságio sobre a amarelinha. E Aldyr era um dos que lotavam o Maracanã no reencontro com os chilenos, a primeira partida em casa com o novo manto – que, pouco a pouco, se tornou padrão também para as equipes brasileiras de outros esportes.

“As camisas amarelas de Aldyr tiveram tanto sucesso que são possivelmente o mais reconhecível uniforme esportivo do mundo. É difícil imaginar o futebol brasileiro sem elas. São intrínsecas à mística e ao glamour da equipe. O amarelo é uma cor primária tão forte que sintetiza perfeitamente a exuberância e o brilhantismo do estilo brasileiro. Mais do que isso, o amarelo-ouro acrescenta um calor e uma elegância que complementam uma técnica prodigiosa. A cor da equipe é tão evocativa, visualmente inconfundível e simbólica que é quase como se os jogadores fossem personificações de estatuetas de ouro. Aldyr acredita que o amarelo dá ao Brasil ‘um toque de exotismo, como algo que você espera encontrar na África’. Para a Europa, o Brasil é exótico o bastante”, Alex Bellos, em “Futebol – O Brasil em campo”.

Quando a camisa amarela virou um símbolo
Brasil e Itálila postados antes da final da Copa de 1970
Brasil e Itálila postados antes da final da Copa de 1970

A primeira Copa do Mundo que o Brasil disputou com a camisa amarela foi a de 1954. E não dá para dizer que ela deu tanta sorte assim. O complexo de vira-latas continuou forte, sobretudo depois da derrota para a Hungria na famosa “Batalha de Berna”. Apesar disso, o trauma foi bem menor para que a Seleção mudasse de uniforme outra vez. De amarelo é que o time de Vicente Feola fez quase toda a sua campanha na Suécia. Até cruzar com os anfitriões na final, quando jogou de azul – “a cor do manto de Nossa Senhora Aparecida”, como Paulo Machado de Carvalho explicou a escolha ao elenco.

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No entanto, não dá para dizer necessariamente que a imagem mundialmente famosa do amarelo venha de 1958. Ou mesmo de 1962, quando o bicampeonato foi conquistado no Chile. Porque o espetáculo da Seleção, na maioria das vezes, ficava restrito às ondas do rádio. E quando os vídeos chegavam à televisão ou as fotos eram publicadas nos jornais, geralmente o Brasil estava de cinza – ou, melhor dizendo, a variação entre o preto e o branco que correspondia ao amarelo, em tempos nos quais imagens a cores eram raras.

A revolução veio a partir de 1970. Porque foi a Copa que passou a ser passada ao vivo para na televisão de muitos países e, na Europa, já com muitas transmissões em cores. O Brasil foi campeão com um futebol encantador. E aquelas imagens acabaram tornando a camisa amarela uma grande marca. “É algo totalmente influenciado por 1970. São imagens espetaculares, fantásticas. Aquela Copa influenciou muito no que seria tomado como ideal para as edições seguintes. E a camisa do Brasil era o símbolo daquele futebol. Individualmente, até acho a Seleção de 1958 melhor, mas 1970 marcou mais”, ressalta o inglês Tim Vickery, correspondente da BBC no Brasil.

Nenhuma grande seleção do mundo do mundo usa amarelo. Uma cor vibrante, como era aquela equipe de lances tão plásticos. A mística foi criada por Pelé, Rivellino, Tostão, Gérson e todos os craques daquele timaço: “Era o casamento perfeito entre o amarelo da camisa e o sol do meio-dia mexicano, combinado com a pele morena dos jogadores. Era algo que os europeus não estavam acostumados a ver, e isso moldou a imagem”, completa Vickery. Uma magia que continuou se associando ao futebol brasileiro, por mais que o futebol em campo não fosse tão exuberante quanto o daquela equipe.

Em 1974 e 1978, o Brasil não fez campanhas ruins na Copa do Mundo, mas esteve longe de ser tão impactante quanto no tricampeonato. Já em 1982, o amarelo recuperava o poder de fazer os olhos dos estrangeiros brilharem com a equipe de Telê Santana. Mesmo que o Brasil não vencesse, tinha a capacidade de jogar bonito. O jogo coletivo que se reforçou como sinônimo da Seleção no imaginário popular, especialmente dos estrangeiros. O amarelo, que representa as riquezas do Brasil na bandeira, ganhava uma conotação parecida no futebol.

A reinvenção da camisa como marca

A derrota em 1982 fez com que o Brasil passasse a jogar de uma maneira mais pragmática. Cada vez mais, o jogo ofensivo era substituído por um estilo que fizesse a Seleção reconquistar a taça que não vinha desde 1970. Com trocas de passes bem menos intensa e um jogo coletivo marcado mais pelo trabalho defensivo, a equipe de Carlos Alberto Parreira foi tetracampeã. Mas também porque contava com Romário, o melhor jogador do mundo na época, que carregou o time em muitos momentos. Um craque inquestionável para também resgatar um pouco do misticismo da camisa amarela.

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O Brasil tinha voltado ao topo com Romário, e a camisa amarela tinha grande impacto em uma época na qual o futebol voltou a ser mais comercial. O instante decisivo para a Nike, que pretendia entrar com força no futebol. “A Nike já era uma gigante, mas não atuava no maior esporte do mundo. Havia uma pequena linha, com produtos feitos no México para a pequena comunidade de norte-americanos que gostam de futebol, mas era quase irrisório. Quando quisemos entrar para valer em um esporte mundial, precisávamos estar atrelado a uma marca mundial. E a seleção brasileira é a maior marca no mundo. Estar ao lado do Brasil ajudou a projetar nossa marca dentro do público de futebol, e também foi muito importante para que entendêssemos a dinâmica desse mercado, as necessidades dele, para nos aperfeiçoar”, afirmou Cristián Corsi, presidente da Nike no Brasil, no lançamento do uniforme da Seleção pouco antes da Copa de 2014.

Vale contextualizar também o momento. Por mais que os jogos do futebol europeu de clubes já fossem transmitidos para vários países, ainda não havia esse impacto comercial no resto do globo. O Campeonato Italiano era a principal vitrine por causa dos craques, enquanto a Liga dos Campeões começava a se expandir. Como hoje, nada era maior do que a Copa do Mundo. E nenhuma outra equipe tinha tanta entrada em vários países quanto a Seleção.

Em 1997, a Nike passou a fornecer os uniformes do Brasil, em um contrato de US$ 160 milhões por dez anos – o maior já acertado com uma seleção até então. Mais do que isso, também promovia o time estrelado, com Ronaldo se juntando a Romário. A empresa americana tinha influência sobre os amistosos da equipe brasileira e começou a fazer propagandas vendendo a magia dos craques que vestiam amarelo. “A Nike entrou para vender camisas. E criou propagandas fantásticas, criaram a ideia de um Dream Team. Se você fala maravilhas em uma propaganda e não é capaz de realizar, você tem um problema para o futuro. Criaram uma medida para a Seleção acima dos outros times. O muro está despencando há muito tempo, depois de bater muita água, muito vento sobre ele”, analisa Tim Vickery.

Porque a Nike cumpriu o seu objetivo, fazendo o seu faturamento com futebol saltar de US$ 40 milhões em 1998 para US$ 2 bilhões em 2012. O problema é que nem sempre a Seleção correspondeu da forma como se imaginava. No Mundial da França, foi vice-campeão. Quatro anos depois, recuperou a taça, mas recebendo críticas. Segundo o jornalista inglês, uma das maiores críticas ao time de Felipão era por causa da dependência dos craques, ao invés do jogo coletivo que tanto caracterizava a magia da camisa amarela. O moral se recuperava com Ronaldinho e o “Joga Bonito” vendido pela Nike na época da Copa das Confederações de 2005, mas o fracasso no Mundial da Alemanha voltou a colocar o Brasil em xeque.

Do amarelo do penta ao amarelo-apatia de 2014
Júlio César e David Luiz seguram camisa de Neymar durante execução do hino brasileiro (AP Photo/Natacha Pisarenko)
Júlio César e David Luiz seguram camisa de Neymar durante execução do hino brasileiro (AP Photo/Natacha Pisarenko)

Dentro de campo, a seleção brasileira ia apresentando um futebol cada vez mais pobre, Copa a Copa. Fora dele, porém, a popularidade da camisa amarela seguia em alta. Ao menos a história impunha respeito à tal magia e as expectativas se cumpriam comercialmente. Até que o Mundial de 2014, quando a Seleção jogava em casa e tinha todos os olhares sobre ela, pode vir a representar um rompimento maior. Mais do que não cumprir a promessa de jogo bonito, ela ainda praticou aquilo que é “antijogo” para os europeus.

“A exigência de futebol bonito é muito maior no exterior. Aqui, todo mundo quer a vitória. No exterior, é o estilo do jogo, aquele futebol que pode te fazer sonhar e se sentir feliz. Estava em uma ilha estrangeira durante a Copa, especialmente com britânicos, e muita gente deixou de amar a seleção brasileira. O Brasil, como país, fez muitos amigos, mas a Seleção perdeu”, analisa Tim Vickery. “Antigamente era um jogo em que a bola circulava, de muito toque de bola. Hoje, a Seleção vive de momentos, de um contra-ataque ou de uma bola parada, se esqueceu de trocar passes. Até teve craques para tapar o buraco da falta de um jogo coletivo mais consistente. Mas o jogo faltoso, a reação sobre a lesão do Neymar, tudo isso foi contra”.

A forma como a imagem da Seleção se prejudicou nesta Copa é notável. E não apenas pelos 7 a 1, mas também por esse jogo excessivamente duro da equipe de Felipão e pelos erros de arbitragem favoráveis. A Nike, pelo menos, não deve se preocupar tanto. A empresa tem contrato até 2026 com o Brasil e é difícil de imaginar alguma outra camisa que possa competir com a amarela. “Essa é a segunda camisa de seleção mais vendida em todos os países, ficando atrás só da camisa da seleção local. Quer dizer, em todos os países menos um”, disse o argentino Corsi, com um sorriso no rosto. Por mais que a seleção alemã tenha sido campeã e chamado atenção pela simpatia, ainda há rusgas históricas do país com outros povos.

O momento é de repensar não apenas as estruturas do futebol brasileiro, mas também a própria marca. Por mais que a magia amarela ainda resista, ela já não é tão maior quanto outras cores que os torcedores do futebol globalizado se acostumaram a ver. Como repensar o futuro? Assunto para a última parte do Tema da Semana sobre os 100 anos da Seleção.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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