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“O amanhã pertence a Deus”: O depoimento de Neto, Alan Ruschel e Follmann ao Players’ Tribune

Poucas histórias do futebol são tão fortes quanto a vivida pela Chapecoense. A dor prevalece, diante das 71 vidas perdidas no acidente aéreo. Mas, ainda assim, da tragédia se faz uma ponta de esperança. Um exemplo gigantesco, protagonizado por cinco sobreviventes. Por três atletas que perderam todos os seus companheiros e tentam seguir em frente depois do trauma. Alan Ruschel, Jakson Follmann e Neto merecem aplausos por onde passarem. Não é questão de futebol. É de vida, de humanidade. De respeito ao que cada um deles vem enfrentando e superando, mesmo com todas as dificuldades. Com tudo o que o desastre deixou marcado, no corpo e na alma.

Nesta quarta, foi a vez de Alan, Jakson e Neto falarem ao Players’ Tribune, site americano que reúne textos de atletas profissionais. Os três jogadores da Chape deram longo depoimento ao site americano, contando suas lembranças do dia doloroso, a luta pela recuperação e a esperança para o futuro. Eles participam de um vídeo, que reproduzimos abaixo. Além disso, selecionamos também trechos do texto atribuído a Neto. O artigo completo, em português, pode ser conferido clicando aqui.

Eu sonhei que iria acontecer. Poucos dias antes de nós partirmos para a primeira das finais da Copa Sulamericana na Colômbia, eu tive um pesadelo terrível. Quando eu acordei, contei para a minha mulher que eu estava em um acidente de avião. Eu estava na aeronave à noite e chovia bastante. Então o avião desligou. E caiu dos céus. Mas, de alguma forma, eu consegui me levantar dos destroços. Eu saí e estava numa montanha à noite. Estava tudo escuro. É tudo que eu me lembrei.

No dia da viagem para o jogo final, eu não consegui tirar o pesadelo da minha cabeça. O sonho era tão vívido. Estava martelando na minha mente. Então eu enviei uma mensagem para a minha mulher do avião. Eu disse a ela para orar a Deus e pedir para Ele me proteger daquele pesadelo. Eu não queria acreditar que aquilo iria acontecer. Mas eu pedi para que ela orasse por mim.

Então eu vi todas as coisas daquele sonho se tornarem realidade.

O avião desligou.

A força caiu completamente.

Eu estava completamente acordado.

… E o avião caiu dos céus.

Estava além de nossa compreensão como humanos.

*****

Quando eu acordei no hospital, eu não me lembrava de nada do acidente. Minha esposa me contou que a primeira coisa que eu disse a ela quando eu acordei do coma foi…

“Deus estava comigo o tempo todo”

“Deus estava comigo o tempo todo”

Eu disse duas vezes.

Mas eu não me lembrava de nada. Os médicos não podiam me contar a respeito do acidente ainda. Eles queriam que eu me recuperasse primeiro.

Eu tentei reconhecer o lugar onde eu estava. Eu sabia que era num hospital, mas eu não sabia onde. As pessoas que trabalhavam naquele hospital, eu olhava para eles, mas eu não os conhecia. Eles estavam falando espanhol. Eu estava muito confuso.

Foi quando eu vi o médico da Chapecoense que eu me lembrei que era para nós jogarmos a final.

Eu disse, “Doutor, o que aconteceu no jogo? Eu me machuquei?”

Ele disse, “Sim, Neto, você se contundiu no jogo”

Eu disse, “Quanto foi o jogo?”

Ele disse, “Eu não sei. Você se contundiu gravemente, e eu vim aqui diretamente te ver”.

Eu acreditei nele. Eu achava que o jogo ainda estava acontecendo, e eu estava chateado com Deus. Eu estava pensando, como você pode me tirar daquela final? Eu preciso estar lá com os meus irmãos.

*****

Um dia, eu acordei na Unidade de Terapia Intensiva, e nada fez sentido para mim. Eu estava olhando para o meu corpo. Estava tudo cortado. Minha orelha estava pendurada. Eu pensei, não é possível que eu me machuquei no jogo. Tem alguma coisa errada.

Então eu estava lá deitado pensando em todas as coisas que podiam ter acontecido comigo. Na verdade, eu perguntei ao médico, “Qual é o tamanho do cara que me machucou? Ele deve ser um tipo muito forte!”

Muitas coisas passaram pela minha cabeça. Eu pensei que talvez os torcedores tivessem invadido o campo e nos agredido. Ou que talvez eu tivesse sido atropelado no estacionamento antes do jogo. Mas eu nunca pensei do avião. Como eu podia imaginar aquilo?

Eu dormia e acordava. Uma vez, eu acordei de madrugada e vi que meu pai estava sentado na cadeira, chorando. Foi quando eu soube que eles estavam mentindo para mim.

Então, um dia, todos os médicos vieram até o quarto. Minha mãe e meu pai estavam lá. Minha irmã. Uma psicóloga. Um pastor. Eles disseram que tinham uma coisa para me contar.

Meu pai disse para mim, “Lembra do sonho que você teve?”

Eu respondi, “Claro que eu me lembro do sonho. Eu contei para a minha esposa. Eu estava no avião à noite. Chovia muito. O avião desligou. Caiu. Eu consegui me levantar dos escombros. Eu saí de lá e havia uma montanha à noite. Estava tudo escuro”.

Uma coisa estranha aconteceu quando eu comecei a falar do meu sonho.

A psicóloga saiu do quarto chorando.

Minha mãe estava chorando.

O médico disse, “Bem, não foi um sonho. Foi tudo verdade. O avião da Chapecoense caiu.”

Aquele foi um dos momentos mais difíceis da minha vida. Eu tentei não acreditar. Eu achei que ele estivesse louco. Isso não existe. O que você está dizendo para mim?

Então, eu comecei a pensar, O.K, se isso realmente aconteceu, e eu estou vivo, então todo mundo está vivo.

Eu disse, “Como está todo mundo? Onde eles estão?”

O médico respondeu, “Só você, o Alan e o Follmann, um jornalista e dois membros da tripulação estão vivos”.

Eu não podia acreditar. Não era possível. Eu pensava, Se eu estou vivo, como todos os meus amigos se foram? Como eu posso sobreviver a um acidente de avião? Isso não faz sentido. Se eu cair de um avião, estou morto. Isso não é verdade.

O médico disse, “Não era para você estar vivo. É só por Deus que você está aqui”.

*****

Eu fui o último a ser encontrado. Fiquei sob os escombros por oito horas. Dias depois, os socorristas me contaram o que tinha acontecido. Nas primeiras horas da manhã, boa parte da equipe de resgate já tinha deixado o local do acidente. A polícia ainda estava lá apenas para proteger os corpos e recolher os nossos pertences. De repente, um dos oficiais disse, “Ei, eu ouço alguma coisa”.

Ele voltou para ver o que era. Ele disse que conseguia ouvir alguém gemendo de dor.

O outro policial reagiu, “Você está louco. É impossível”.

Então o primeiro policial disse, “Não, não, não. Fica quieto. Todo mundo fica quieto. Vocês vão ouvir.”

E eles me ouviram gemendo.

Então todos correram para onde estava saindo o som.

O policial pegou o telefone celular e tentou iluminar aquela região dos escombros. Eles começaram a puxar os troncos das árvores e as partes do avião. O policial viu o meu rosto, e eu estava em péssimas condições. Eu estava quebrado.

Eles me libertaram dos escombros e me colocaram numa caminhonete. Levou uma hora para me tirar daquela montanha para uma pequena clínica de saúde. Meus olhos estavam virados para cima, tudo em branco. Eles disseram que parecia que eu estava morto. Mas de alguma forma eu ainda estava respirando.

Mais tarde, eles me contaram que ninguém acreditava que eu fosse conseguir sobreviver. Quando eu acordei do coma, a enfermeira que esteve na ambulância comigo na montanha veio me visitar. Ela estava de pé, parada na porta, olhando para mim. Quando ela me abraçou, o corpo dela inteiro estava tremendo. Ela estava sentindo os meus braços e os meus ombros, dizendo “No credo, No credo”.

“Eu não acredito, não acredito”.

Foi quando eu percebi o quão impossível era tudo aquilo. Tinha sido um milagre o fato de eu estar vivo depois que eles me encontraram daquele jeito.

*****

O que me comoveu mais foi quando eu vi meus filhos. Eu tenho gêmeos. Um menino e uma menina. Eles têm 10 anos de idade. Depois do acidente, minha esposa deixou nossos filhos no Brasil com a irmã dela. Então, eu não tinha visto as crianças até o dia em que me mandaram de volta para o Brasil. Quando eles vieram me visitar no hospital, os rostos deles estavam…

Eles estavam impressionados. Meu corpo estava tão magro, e eu tinha cicatrizes no corpo inteiro.

Eles estavam olhando para mim como se eu fosse um fantasma.

Eu disse, “Vocês não vão dar um abraço no papai?”

Foi a primeira vez que eles me deram um abraço sem me dizer nada. Eles ficaram chorando por muito tempo. Cinco ou 10 minutos. Eles não conseguiam falar. Eles somente me abraçavam e choravam. Foi um choro de alívio.

Nosso pai está em péssima forma. Mas ele está vivo. Ele voltou.

Eu pensei nos meus amigos que não estavam mais vivos, e eu pensei nos filhos deles. Foi a situação mais emocionante da minha vida.

*****

A companhia que operava o avião estava economizando combustível repetidamente. Olhando para os fatos, nós podemos ver que mais cedo ou mais tarde, isso ia acontecer. Eles fizeram isso muitas vezes com outros times.

A companhia queria economizar um pouco de dinheiro, e eles acabaram tirando a vida de muita gente. As pessoas falam muito do piloto, mas se você pensar a respeito, não pode ter sido só o piloto. Eles estavam seguindo os regulamentos. Para decolar daquele jeito, sem combustível extra, você tem de ter corrupção ao redor.

Eu queria muito que Deus colocasse gente honesta e gente competente para investigar o que aconteceu. Porque todos aqueles envolvidos têm que pagar pelo que ocorreu. Só porque o piloto morreu não significa que há justiça.

Infelizmente, por conta da ganância humana… sabe, a Bíblia diz: O amor ao dinheiro é o princípio de todos os males.

*****

Antes de ir para a Colômbia, eu tinha a expectativa de que a gente ia voltar para Chapecó depois da final. Eu imaginei todo mundo na rua, gritando “Nós somos campeões!”

Todo mundo estava tão feliz, e havia tanto amor. Eu me imaginei no alto de um grande caminhão de bombeiros, comemorando com toda a cidade.

Quando voltei para Chapecó depois do acidente, eu tive de pegar um avião na Colômbia para voltar para o Brasil, e eu estava muito assustado. Quando nós pousamos, eu estava chorando. Era tudo muito avassalador.

Então nós saímos do avião e fomos para o aeroporto, e estava cheio de gente para nos apoiar. Nós fomos para o hospital, e estava cheio de gente. Em todos os lugares, havia amor. Era surreal. Foi muito emocionante.

Quando você retorna de uma experiência como a que nós passamos, isso muda você. Marca você para sempre. Mas se eu for sincero, a minha mente é a mesma. Eu ainda vejo o bem no mundo. O acidente me ensinou a apreciar as pequenas alegrias na vida.

Eu lembro de quando eu estava no hospital, eu estava usando fraudas. Eu não pude tomar banho sozinho por meses. As enfermeiras vinham e me limpavam com toalhas.

Quando eu melhorei, e finalmente pude tomar banho sozinho, e senti a água caindo na minha pele pela primeira vez, eu quase comecei a chorar.

Eu senti como se fossem as águas do Caribe. Eu nunca tinha sentido nada parecido antes.

Quando eu chutei a bola de novo pela primeira vez depois do acidente, eu me senti como se fosse criança novamente.

Era para eu ter morrido naquele dia. Eu disse as minhas últimas palavras em voz alta. Deus me deu uma segunda chance, e eu farei o melhor para honrá-lo, e honrar todos os meus amigos que se foram.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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