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O adeus a Tata, a “Metralhadora do Martins Pereira” e o grande parceiro de Muricy em tantos títulos

Como atacante, Tata foi um dos grandes ídolos do São José, enquanto empilhou taças como auxiliar de Muricy Ramalho

Muitos treinadores possuem um homem de confiança ao seu lado. Aquele auxiliar técnico que os acompanha sempre e marca também o sucesso de seus trabalhos. Para Muricy Ramalho, Tata era esse braço direito inseparável. O assistente era figura onipresente em tantos times vitoriosos. Esteve nas comissões técnicas campeãs estaduais com Náutico, Internacional e São Caetano. Ajudou a soberania no Brasileirão com o São Paulo, troféu que também ergueu com o Fluminense. Isso antes de experimentar o gosto da Libertadores pelo Santos. Além da história de amizade com Muricy, que começou na adolescência de ambos, Tata também teve seus próprios voos solo como treinador, em especial na dupla Re-Pa. Já nos tempos de jogador, o atacante ganhou principalmente a idolatria no interior de São Paulo, como atacante do São José. Personagem de muitas histórias, Tata faleceu nesta quarta-feira, aos 68 anos, após lutar nos últimos tempos contra um câncer no pulmão.

Mário Felipe Perez nasceu em São Paulo, em 3 de outubro de 1953. O meia-atacante habilidoso e de chute perigoso passou por diversos clubes tradicionais do estado. Começou no Juventus, antes de passagens por Santos e Portuguesa, até chegar ao São José – onde consta na lista de grandes ídolos. Num momento importante da Águia do Vale, em que o clube de São José dos Campos passava a figurar na elite do Campeonato Paulista e também do Brasileirão, Tata era um dos nomes mais notáveis. Ganhou o sugestivo apelido de “Metralhadora do Martins Pereira”, especialmente pela maneira como seu nome era anunciado pelo radialista Alberto Simões, com a repetição da sílaba “ta”.

Trazido da Lusa, Tata chegou ao São José em 1979. Mais usado no meio-campo naquele primeiro momento, logo participaria de um dos períodos mais reluzentes do clube, com a conquista da segunda divisão do Campeonato Paulista em 1980. No ano seguinte, a equipe estrelada também por Tião Marino e Ademir Melo chegou à decisão do segundo turno do Paulistão. Perdeu a vaga na finalíssima para o São Paulo, inclusive com um gol de Tata na derrota dentro do Morumbi. Aquela campanha ainda levou a Águia do Vale a estrear na elite do Brasileirão em 1982. Tata estava presente numa histórica vitória por 1 a 0 sobre o Grêmio, campeão do ano anterior, logo na primeira rodada. Os joseenses alcançaram as oitavas de final, eliminados pelo Bangu.

Tata defendeu o São José até 1988, com breves hiatos em que deixou o clube em 1984 e também em 1986, rumo ao Paulista de Jundiaí. O veterano estava presente no elenco que conquistou novo acesso no Campeonato Paulista em 1987, assim como na campanha que valeu a terceira colocação no Paulistão de 1988. A Metralhadora do Vale se despediria dos gramados com 232 jogos e 53 gols, quarto na lista de maiores artilheiros do clube joseense – segundo dados do “Almanaque do São José Esporte Clube”, escrito por Alberto Simões. Quatro desses tentos foram em clássicos com o Taubaté. A Metralhadora fez história e no Martins Pereira também iniciou seus trabalhos como treinador.

Tata seria convidado para ser assistente de Vail Mota, que conquistou o acesso em 1987. Já no Paulistão de 1988, passou a auxiliar o jovem técnico Emerson Leão, que tinha se aposentado pouco antes de sua vitoriosa carreira como goleiro, iniciada exatamente no São José. A Metralhadora do Martins Pereira seria o comandante principal da Águia do Vale em diferentes momentos, a começar por 1988, de maneira interina. Tata acompanhou Leão como auxiliar do Palmeiras em 1990, antes de retornar ao São José. Viveria outro momento memorável, ao começar o Brasileirão de 1990 à frente da Águia.  O treinador levou o time a vencer o Botafogo, além de empatar com o Vasco. Seria substituído logo depois por Ademir Melo, vice no estadual do ano anterior.

Durante o início dos anos 1990, Tata se aventurou em outros cantos do Brasil. Chegou a retornar brevemente à Portuguesa. De qualquer forma, o treinador deixaria seu nome marcado mesmo no Pará, onde dirigiu Paysandu e Remo. A passagem pelo Leão seria mais curta, mas no Papão trabalharia num momento importante entre 1992 e 1995. Primeiro, veio a conquista do Campeonato Paraense de 1992, única do clube entre 1987 e 1998, com direito a quatro vitórias seguidas nos clássicos. Tata também foi o responsável pelo ótimo desempenho no Brasileirão de 1994, quando os bicolores superaram São Paulo, Portuguesa, Atlético Mineiro e Vitória na primeira fase de classificação. O desempenho caiu na segunda fase, mas garantiu a permanência do Paysandu na elite nacional.

Em 1995, Tata voltou ao São José, para o último ato de sua idolatria. Deixaria sua marca com a conquista da Copa Vale em 1996. Saiu antes do início da segunda divisão paulista, mas preparou a base que conquistou o acesso com Gílson Nunes, na última empreitada da Águia do Vale rumo à elite estadual. O fim dos anos 1990 ainda permitiu que Tata trabalhasse em equipes como o Moto Club, o Vila Nova e o Santo André. Isso até iniciar a grande parceria de sua carreira.

Por mais que Tata conhecesse Muricy Ramalho desde a juventude, a dobradinha entre o técnico e seu auxiliar começou apenas em 1999, com a Portuguesa Santista. A dupla logo decolaria e passaria a marcar a história de diferentes clubes. Conquistaram um simbólico bicampeonato pernambucano com o Náutico entre 2001 e 2002, que encerrou o jejum do clube que perdurou por 12 anos. Levaram o Gaúcho com o Internacional em 2003, antes de retornarem para outra taça em 2005, além da marcante campanha no Brasileirão. Entre uma passagem e outra pelo Beira-Rio, lideraram o São Caetano ao inédito troféu do Paulistão em 2004.

Isso até que a história no São Paulo começasse em 2006. Tata era uma pessoa muito importante e querida no Morumbi durante o tricampeonato brasileiro. Ficou na história dos tricolores. A série vitoriosa com Muricy, de qualquer maneira, não parou por aí. Tata seguiu ao lado do amigo durante o título do Brasileirão de 2010 com o Fluminense, bem como quando finalmente botaram as mãos na Libertadores, com o Santos em 2011. O auxiliar ainda esteve nas comissões técnicas de Muricy no Palmeiras em 2009 e no Flamengo em 2016, além da nova passagem pelo São Paulo de 2013 a 2015.

A notícia da morte de Tata foi lamentada por vários clubes onde ele trabalhou. A mensagem mais significativa seria assinada por Muricy. “Hoje está sendo um dia muito difícil pra mim, perdi um amigo de mais de 40 anos de amizade, que conheci no Bairro do Caxingui, em São Paulo. Meu parceiro de futebol, trabalhamos juntos em muitos clubes. Fomos campeões em vários times e ele sempre ao meu lado nos momentos de vitórias e derrotas. Meus sinceros sentimentos a todos os familiares. Descanse em paz, meu amigo”, escreveu o ex-treinador, em suas redes sociais. Uma amizade eternizada na história de diversos clubes, e que merece ser lembrada como uma das parcerias mais significativas do futebol brasileiro.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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