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O adeus a Nilson Borges, o ponta habilidoso que virou sinônimo de Athletico-PR e dedicou 53 anos de sua vida ao clube

Durante as décadas de 1960 e 1970, Nilson Borges esteve entre os pontas mais talentosos do futebol brasileiro. Habilidoso e autor de gols importantes, estourou com a camisa da Portuguesa, embora sua maior identificação tenha sido criada no Athletico Paranaense. Bocão, como era conhecido, participou do histórico título do Campeonato Paranaense de 1970 e virou um dos grandes ídolos rubro-negros. Resumir a trajetória de Nilson ao que fez em campo, porém, seria perder uma parte essencial de sua ligação com o futebol. Afinal, depois de pendurar as chuteiras, o veterano também se tornou um sinônimo do Furacão fora das quatro linhas.

Juntando os tempos de jogador e de funcionário do Athletico, Nilson Borges viveu 53 anos nos corredores do clube. Desempenhou diferentes funções e criou uma relação maciça com outros ídolos que seguiriam seu legado. O sorriso largo, a gentileza, a humildade e o carisma eram marcas de Seu Nilson no CT do Caju. Uma alegria perene que fará falta no dia a dia rubro-negro a partir desta quarta-feira. Às vésperas de completar 80 anos, Nilson Borges faleceu – de causa ainda não especificada. Deixa uma legião de fãs na Baixada, inclusive os próprios jogadores, que aprenderam tanto com a velha referência. É uma parte do Furacão que se vai, mas que fica na memória.

Nilson Borges nasceu no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, no dia 16 de fevereiro de 1941, e iniciou sua história no futebol ainda na várzea. O pai do garoto trabalhava na Portuguesa e isso facilitou seu caminho ao Canindé. Primeiro atuou nos juvenis dos rubro-verdes, com uma rápida passagem pelos profissionais em 1959. A afirmação na equipe de cima aconteceu a partir de 1960, promovido por Nena, ídolo do Internacional e da própria Lusa que trabalhava como treinador naquele momento. Como um ponta esquerda habilidoso e com qualidade em ambos os pés, o Bocão logo conquistou seu espaço no time principal.

Em entrevista à Revista do Esporte, Nilson Borges citava Canhoteiro e Pepe como suas inspirações na posição. “Jogam o fino”, era seu comentário. Naquela época, o jovem despontava como destaque na Portuguesa, também atuando como centroavante se necessário. E a Lusa contava com uma equipe bastante forte na época. Nomes como Félix, Jair da Costa e Servílio garantiam a competitividade dos rubro-verdes. Com eles, o clube passou perto de conquistar o Paulistão em 1960. Ficou a dois pontos do Santos de Pelé, mesmo ganhando por 4 a 3 dentro da Vila Belmiro. Naquela campanha, a Lusa também goleou a Academia do Palmeiras por 4 a 1 e impôs a primeira derrota do São Paulo no recém-inaugurado Morumbi, em outro 4 a 3. Nilson marcou dois contra os alviverdes e um diante dos tricolores.

Nilson Borges não chegou a conquistar títulos na Portuguesa. No entanto, os rubro-verdes ainda impunham respeito naquela época e conquistavam resultados memoráveis nos clássicos. Nenhum deles foi maior do que os 7 a 0 sobre o Corinthians no Paulistão de 1961. O Bocão foi um dos responsáveis por arrebentar com os alvinegros naquela ocasião, com dois gols marcados em meio ao baile. “Foi a minha partida inesquecível na Portuguesa”, contaria o ponta, anos depois, à Tribuna do Paraná. A Lusa encerraria aquele estadual numa igualmente honrosa quarta colocação, em tempos nos quais era difícil se equiparar a Santos e Palmeiras.

Nilson permaneceu como um nome importante na Portuguesa até 1965. Naquele ano, o ponta esquerda ganharia a chance de se testar na Europa. Passou períodos de experiência no Standard de Liège e no Sporting, sem ficar por causa das altas pedidas de seu empresário. “As passagens pela Europa não foram muito boas, porque naquele tempo era difícil. Eu fui para uma cidade pequena da Bélgica, Liège, mas as coisas não estavam muito boas. Em Portugal fiquei mais um pouco, mas não me dei bem e vim embora. Um pouco por falta de adaptação, mas o motivo maior é que na época meu pai ficou doente e eu me preocupei. Achei melhor vir embora”, declarou, ao site do Athletico-PR. Conforme reportagem da época, o empresário responsável pela viagem também abandonou o ponteiro, que o denunciou à embaixada brasileira em Lisboa e decidiu voltar ao Brasil.

De volta a São Paulo, Nilson Borges vestiu primeiro a camisa do America de São José do Rio Preto. Depois, seria reforço do Corinthians, que tão bem o conhecia dos tempos de Portuguesa. O ano era 1966 e o ponta não se deu muito bem no Parque São Jorge, limitado à reserva. Também passou pelo Juventus da Mooca, até arrumar as malas para o Paraná em 1968. A partir de então, começaria a forte relação de Bocão com o Athletico Paranaense.

A chegada de Nilson Borges ao Athletico Paranaense seria acompanhada por outros destaques. O Furacão realizava fortes investimentos para recuperar o título do Campeonato Paranaense, longe da Baixada desde 1958. O timaço do Furacão tinha veteranos do porte de Djalma Santos, Bellini e Dorval. Na mesma época, outro a vir de São Paulo foi Sicupira, um dos maiores ídolos da história rubro-negra. Ainda levou um tempo para o Furacão reconquistar o estadual, acabando com a modesta quinta colocação em 1969.

Curiosamente, durante o segundo semestre daquele ano, Nilson vestiu a camisa do rival Coritiba. Atuaria ao lado de Dirceu Krüger, lenda maior do Coxa. “A torcida do Coxa ia bater papo comigo na concentração. Foi muito bacana. Mas eu sou atleticano doente. Meus amigos atleticanos pedem para eu rasgar as fotos que tenho jogando no Coxa, mas não posso fazer isso. Afinal, é a minha história”, afirmaria, à Gazeta do Povo. Porém, sem grande impacto no Alto da Glória, o ponta esquerda retornou ao Athletico Paranaense no início de 1970. Enfim, para marcar seu nome na Baixada.

Nilson Borges era uma das figuras principais no Athletico campeão paranaense em 1970, um título que encerrou o jejum de 12 anos e consagrou uma geração de ídolos que não puderam levantar muitas taças. Foi o reconhecimento a um dos mais simbólicos jogadores do clube. Bocão anotou três gols no hexagonal final, inclusive na goleada por 4 a 1 sobre o Seleto de Paranaguá, que selou o troféu. De quebra, ainda foi eleito o melhor jogador da rodada pelo Diário da Tarde. “Não foi só o melhor de seu time, mas de todos os jogadores que estiveram em ação. Nilson armou as jogadas, destruiu, cumpriu esplendidamente a sua missão e, consignando gols, foi o artífice da vitória rubro-negra”, avaliou o periódico paranaense.

Nilson Borges vestiu a camisa do Athletico Paranaense até 1974, com direito a uma breve passagem pelo Bahia em 1972. O ponteiro seguia com enorme moral na Baixada, mas as lesões no joelho provocadas por entradas duras dos marcadores acabaram por abreviar sua carreira. Aos 33 anos, Bocão se despediu dos gramados. Ainda assim, continuou intrinsecamente ligado aos rubro-negros. Foram cinco décadas trabalhando no departamento de futebol do Furacão, nas mais diferentes funções. Foi técnico, auxiliar e observador, tanto no time profissional quanto nas categorias de base.

O último posto de Nilson Borges no Athletico foi como auxiliar técnico da equipe principal. Desde março, o veterano estava afastado de suas funções por causa da pandemia. Por conta de uma doença que ainda era investigada, o ídolo perdeu forças nos braços e nas pernas, ficando impedido de andar. “Dá saudade [do trabalho], a gente sente falta, né? Principalmente estar no campo todo dia com o pessoal, brincando, cornetando”, contaria ao UmDois Esportes, em dezembro. Nesta semana, Nilson seria internado por insuficiência cardíaca. Não resistiu. Como bem definiu o massagista Bolinha, outro personagem histórico na Baixada, “uma estrela do Furacão se apagou hoje”. Os rubro-negros perderam seu sorriso mais conhecido.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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