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O adeus a Nadinho, lenda do Bahia e muralha do Vitória, que foi o pioneiro entre os goleiros campeões nacionais

Nadinho é o goleiro com mais partidas pelo Bahia, herói na Taça Brasil de 1959, enquanto ainda ajudou o Vitória a encerrar um jejum de 44 anos

Em qualquer lista dos campeões nacionais, o nome de Nadinho será o primeiro citado. O goleiro encabeça a escalação do Bahia vencedor da Taça Brasil de 1959, competição que abriu as portas para a história do Campeonato Brasileiro. Nadinho também teve o gosto de ser o primeiro arqueiro brasileiro a figurar na Copa Libertadores. O pioneirismo do baiano de Alagoinhas, ainda assim, é apenas uma manchete numa carreira gigantesca. Para muitos tricolores, é ele o maior camisa 1 do Bahia em todos os tempos. Da mesma forma, o Vitória pode considerá-lo um ídolo, apelidado de “Muralha” no título estadual que encerrou um jejum de 44 anos dos rubro-negros. Dono de ótimo posicionamento, Nadinho dizia que “não gostava de se sujar” com saltos e também levava para fora dos gramados tal sobriedade, de quem tinha aversão ao boleirismo e estudou enquanto ainda atuava para trabalhar depois por décadas como advogado. O veterano permaneceu como parte da história viva do futebol nacional até esta quinta-feira, quando, aos 91 anos, faleceu em decorrência das complicações causadas pela COVID-19.

Leonardo Conceição Cardoso nasceu em 24 de agosto de 1930, no interior da Bahia, em Alagoinhas. Os primeiros contatos com o futebol aconteceram em sua cidade natal, mas primeiro como atacante. Foi uma fratura na perna que levou o jovem a mudar de posição e assumir a meta. Passou pelo Ypiranga local, até se mudar para Salvador na adolescência. A princípio, chegou para estudar na capital, onde já moravam dois irmãos mais velhos. A chance de se provar no futebol veio meio ao acaso, quando reencontrou um velho amigo de Alagoinhas, Marrom, que era zagueiro nos aspirantes do Vitória.

Nadinho foi convidado para fazer um teste no Vitória, mas Marrom tinha dito ao treinador que ele ainda era centroavante. Paulinho Dantas não gostou muito de saber que o novato era goleiro e o próprio arqueiro acredita que estavam de má vontade com ele, ao darem um uniforme furado e chuteiras em número maior. Porém, com a ausência de um dos goleiros, Nadinho assumiu a meta dos reservas no treino e fechou o gol. Ficou de vez nos rubro-negros a partir de então.

Nadinho assinou seu primeiro contrato com o Vitória quando tinha 17 anos. Ainda estava no terceiro ano do colegial e não largou os estudos. Seu pedido nas negociações, aliás, era de que o clube lhe arranjasse um emprego e reduzisse o salário assim que ele fosse contratado. A promessa dos dirigentes nunca se concretizou, mas desde já ficava claro como o arqueiro tinha uma postura diferente do meio em que convivia. A ascensão foi rápida e, dois anos depois, o jovem assumiu a posição de titular na equipe principal do Leão da Barra.

Aquele momento seria marcante para o Vitória. O clube mais antigo do Nordeste era uma força do Campeonato Baiano em seus primórdios e levou duas das primeiras taças, em 1908 e 1909. Porém, a partir de então, os rubro-negros passaram a amargar um jejum que se estendeu por 44 anos e rendeu seis vices no período. O fim da seca aconteceu em 1953, quando Nadinho já tinha se firmado no time e era um dos destaques. A conquista sobre o Botafogo, com triunfo por 3 a 0, marcaria um novo período ao Leão da Barra – que contava com Quarentinha no comando de seu ataque. Nessa época, o arqueiro ganhou o apelido de “Muralha” e faria parte da seleção baiana.

O Vitória voltou a reinar no Campeonato Baiano em 1955 e os amistosos contra clubes do Sudeste se tornavam mais frequentes. Assim, Nadinho se transformou num talento reconhecido. Em 1956, o Bangu convidou o arqueiro para fazer um teste durante uma excursão do Vitória pelo Rio de Janeiro e ele provaria seu valor em Moça Bonita. O acerto da transferência aconteceu em maio daquele ano, frustrando o interesse também de Vasco e Botafogo. Nadinho chegava com status de titular, numa equipe forte dos banguenses que tinha Zizinho como figura de maior relevo. Uma das promessas dos dirigentes alvirrubros para convencê-lo foi de que ajudariam em seu sonho de se formar em Direito.

Nadinho seria acolhido por Zózimo e Calazans, irmãos que protagonizavam o Bangu naquele momento e também eram baianos. “Pode acreditar que é um grande goleiro. Não faz cinema, é arrojado e tem magnífica colocação. Estou certo que vai fazer sucesso”, analisaria Calazans, ao Jornal dos Sports. E o desembarque de Nadinho no Rio de Janeiro guardou uma grata coincidência. Em junho de 1956, a seleção brasileira participaria de uma série de amistosos contra adversários da América do Sul. O técnico Flávio Costa convocou um time que se resumia basicamente a jogadores do Bangu e do America. O novo arqueiro banguense era um dos escolhidos.

Nadinho, porém, teve uma infeliz experiência com a Seleção. O goleiro agradou no primeiro treino, mas viveu um pesadelo no coletivo seguinte. Os titulares venceram por 8 a 1, numa atuação péssima do baiano. Os torcedores presentes passaram a caçoar e pediam outros goleiros, como Castilho, do Fluminense. No fim das contas, ele seria dispensado antes da viagem para Assunção, onde o time enfrentaria o Paraguai, e Veludo seria chamado para seu lugar.

“Eu não fazia questão. Eu era meio tabaréu mesmo. Chamei o Flávio Costa e disse que não queria ir. Ele disse que tinha gostado do meu treino, mas eu falei que estava sem vontade de ir mesmo. Ele pediu para eu ficar até o dia do embarque, e aí eu decidiria, se não quisesse mesmo ir, ele me cortava. Fiquei treinando bem, mas no dia do embarque eu fui embora”, relembrou, ao livro reportagem ‘Bahia, bicampeão brasileiro de futebol’, de Christiano Caldeira. “Foi uma fuga do sucesso. Meu irmão fala isso todo dia. Ele diz que eu deixei de ser rico porque quis”.

A estreia de Nadinho pelo Bangu aconteceu só depois disso, em julho de 1956. Curiosamente, ocorreu durante um jogo-treino contra a Seleção – elencando seus principais nomes. Mesmo com Zizinho e Zózimo vestindo amarelo, os banguenses perderam apenas por 3 a 2. Treinado por Tim, o Bangu faria uma campanha de meio de tabela no Campeonato Carioca. Nadinho tomou conta da posição durante boa parte da campanha, mas perdeu seu lugar na reta final para Ubirajara. Durante o início de 1957, os dois arqueiros se alternavam no posto e o baiano ganhou sequência durante uma turnê do Bangu pela América do Sul. Porém, para o início do Campeonato Carioca, Ernani foi contratado do Vasco e Nadinho só esquentaria o banco.

A personalidade tímida e introspectiva era colocada, pelo próprio Nadinho, como motivo para não ter emplacado no Rio de Janeiro. “O Rio de Janeiro me assustou muito. Primeiro, porque sou família. Sempre vivi com minha família. Pra ir assim e enfrentar as feras, meu irmão, eu não estava preparado. […] A distância da família pesou, ela e os estudos. Sempre joguei com medo do futuro. Se quebra a perna, como é que faz? Eu fugia do futebol. Queria uma profissão. Tudo isso pesa. O atleta não pode ter esses problemas”, relatou ao livro reportagem de Christiano Caldeira. “O médico do Bangu sempre me perguntava: ‘Nadinho, por que você não se entrosa com a turma? Você tá sempre num canto isolado’. Ele quis alugar um apartamento para mim, mas se no alojamento era assim, imagine só no apartamento. Pelo menos eu conversava com a garotada”.

Em março de 1958, Nadinho deixou o Bangu. A saudade da família e a vontade de retomar os estudos pesaram, assim como o interesse do Bahia em comprá-lo. Os dirigentes cariocas faziam jogo duro para liberá-lo, mas, depois de se acertar em Salvador, o arqueiro pagou metade da passagem para o Rio de Janeiro do seu bolso para convencer os banguenses. A pedida era de que o Tricolor pagasse 150 mil cruzeiros, num prazo de poucas horas, para que a transferência se concretizasse. Os cartolas desacreditaram que a movimentação ocorreria a tempo, mas, no fim das contas, os baianos bancaram a aposta no antigo ídolo do Vitória.

Nadinho voltou à Bahia com o pé direito. O goleiro já seria decisivo para ajudar o Tricolor na conquista do Campeonato Baiano de 1958. Seria só o início de um penta estadual. E aquele primeiro título se tornaria fundamental para colocar o Bahia na primeira edição da Taça Brasil em 1959. Seria o ponto alto da carreira de Nadinho e também um dos ápices do clube, com o gosto de derrotar algumas das equipes mais temidas do país.

Nadinho disputou 13 das 14 partidas do Bahia na Taça Brasil. O Tricolor eliminou o CSA na primeira fase e o Ceará na segunda, antes de passar aperto contra o Sport na decisão do Norte e Nordeste. Depois do triunfo baiano por 3 a 2, os pernambucanos enfiaram 6 a 0 em Recife. Todavia, o regulamento previa um jogo desempate e os tricolores acabaram ganhando por 2 a 0. Assim, estariam nas semifinais para enfrentar o Vasco, campeão carioca no ano anterior, num título muito celebrado.

Nadinho seria um dos destaques na classificação contra os vascaínos. O goleiro fechou sua meta na vitória por 1 a 0 no Maracanã e, apesar da derrota por 2 a 1 no reencontro, também teria ampla contribuição no 1 a 0 que selou a vaga na decisão durante o jogo-desempate. Isso até que aparecesse no caminho o temido Santos. O Bahia venceu por 3 a 2 na Vila Belmiro, com Pelé e tudo em campo, mas perdeu por 2 a 0 na Fonte Nova. O reencontro no Maracanã, três meses depois, valia a taça. Pelé não estava em campo, mas o Peixe reunia Mauro, Zito, Dorval, Pagão, Coutinho e Pepe. O campeão, ainda assim, foi o Tricolor de Marito, Biriba, Henrique e outros ídolos. Nadinho de novo teve atuação destacada e contribuiu para o triunfo decisivo por 3 a 1. Curiosamente, durante a festa pelo título em Salvador, preferiu não desfilar com o resto do time. Foi direto para casa ver a família.

“Nosso time mostrou naquele campeonato que era um time de categoria. Ganhou do Vasco e do Santos, que na época tinha um time fantástico, cheio de jogadores renomados. O Bahia conseguiu ter uma continuidade. Tínhamos uma base. Onde a gente fosse, impunha respeito. Além de campeões em 1959, fomos ainda duas vezes vice nacional”, rememorava Nadinho, enfatizando ainda como o elenco se dava muito bem e tinha uma ótima relação com o técnico Geninho, que dirigiu o time ao longo da campanha, mas deu lugar a Carlos Volante no início de 1960 para voltar ao Rio de Janeiro.

O Bahia também se tornou o primeiro clube brasileiro a disputar a Libertadores. Enfrentou o San Lorenzo logo de cara e acabou eliminado na fase equivalente às quartas de final, com derrota por 3 a 0 na Argentina, apesar dos 3 a 2 na Fonte Nova. Nadinho, ainda assim, via orgulho naquela participação. “Sei que fui parte da história do futebol brasileiro. O Bahia não chegou na Libertadores à toa. Nós procuramos representar o Brasil com dignidade. E creio que conseguimos”, declarou o veterano, à Revista Conmebol.

O Bahia manteve sua relevância com o pentacampeonato baiano emendado até 1962. E chegaria a mais duas finais da Taça Brasil, em 1961 e 1963, após eliminar Náutico e Botafogo nas semifinais. O Santos, contudo, teria sua vingança e venceria ambas as decisões. O Peixe chegou a enfiar um 5 a 1 em 1961, antes de emplacar um 6 a 0 em 1963. Apesar das lavadas, não foi isso que estragou a reputação de Nadinho como um dos melhores goleiros do Brasil. Num dos duelos contra o Botafogo, sua atuação foi tão impressionante que Garrincha foi cumprimentá-lo depois da partida.

Dentro do Bahia, Nadinho costumava ser visto como uma grande referência. O goleiro se notabilizava por sua seriedade, assim como pela maneira como era avesso à badalação. Por isso, treinadores como Geninho só deixavam os jogadores saírem se tivessem a companhia do goleiro. Também era quem puxava os exercícios nos treinamentos e se empenhava ao máximo. Isso rendeu o apelido de “Macho”, que seguiu repetido pelos antigos colegas por décadas. E a maneira de se portar permitiu que Nadinho cumprisse um sonho antigo em meados da década de 1960: formar-se em Direito, na Universidade Católica de Salvador. Por causa dos compromissos com o Bahia, Nadinho atrasou sua formação em dois anos. Em compensação, chegou a se ausentar de excursões para fazer provas e cumprir o cronograma do curso. No último ano da graduação, ameaçou até mesmo rescindir seu contrato para não viajar aos Estados Unidos com a equipe.

Nadinho não escondia seus amores pelo Bahia. Quando perguntado pela Revista do Esporte, em 1963, se estava satisfeito com o clube, Nadinho foi bem enfático: “Satisfeito é apelido: estou satisfeitíssimo, bem prestigiado por seus diretores e por uma torcida que sabe ser fiel como bem poucas. O ambiente do Bahia é 100%. […] Eu já disse e confirmo: vou encerrar minha carreira jogando no Esporte Clube Bahia”.

Nadinho permaneceu no Bahia até 1967, ano em que conquistou o Campeonato Baiano pela oitava vez em sua carreira, a sexta com o Tricolor. No entanto, seu pai faleceu e o goleiro, já formado em direito, voltou para Alagoinhas para administrar a fábrica de móveis da família. Permaneceu no interior até 1969, quando o negócio faliu e o Vitória manifestou interesse em contratar o veterano. Depois de 13 anos, o arqueiro voltaria à meta rubro-negra, apesar da identificação maior com os tricolores. Aceitou ser reserva de Ditinho, sob a condição de só treinar e se concentrar quando quisesse – algo também combinado em seus últimos anos no Bahia.

O primeiro Ba-Vi seria uma provação a Nadinho. O goleiro temia ser vaiado pela torcida do Bahia. Na verdade, os tricolores reconheceram o ídolo gigante: levantaram-se nas arquibancadas da Fonte Nova e dedicaram longos aplausos ao velho herói. Seria uma prova de como sua grandeza conseguiu transcender a rivalidade. O veterano permaneceu no Vitória por três anos, até 1971. Foi quando se despediu do esporte e seguiu em frente com sua vida longe do futebol.

Nadinho ainda trabalhou como professor de educação física até meados da década de 1970. Porém, sua paixão era o Direito. Montou um escritório de advocacia e exerceu a profissão. Ali, passava a ser o “Doutor Leonardo Cardoso”, um advogado trabalhista com as lembranças dos tempos de futebol deixadas de lado. Apesar disso, se valeu da sua experiência anterior para ganhar causas favoráveis a atletas e garantir o passe livre de diferentes jogadores. Nadinho não frequentava a Fonte Nova como torcedor e não gostava de comparecer nem mesmo nas homenagens aos antigos campeões, por querer se distanciar da politicagem que geralmente permeia esses atos. “Não tenho saudade do tempo de futebol. Só tenho saudade dos amigos que fiz em 22 anos de carreira”, assinalou.

Nadinho, ainda assim, permaneceu por mais de seis décadas como parte viva da memória do Bahia campeão da Taça Brasil e de tantas outras histórias. Ainda hoje é o goleiro com mais partidas na história do Tricolor, 421 no total, 177 delas sem ser vazado. Até por seu pioneirismo, seguia muito solicitado para entrevistas e outras ações. Seria assim até o fim da vida, antes de ficar debilitado pelo Mal de Alzheimer. Vivia numa casa de repouso, até contrair a Covid-19 e sofrer uma parada cardiorrespiratória em decorrência da doença. Sua história seguirá por muito tempo recontada. É uma lenda do futebol baiano que precisa ser valorizada.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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