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No Brasileirão, em 40% dos jogos mandantes atuam “fora de casa”

Mando de campo é sempre um fator importante em um campeonato. Não por acaso, alguns times ficam conhecidos por serem difíceis de serem batidos em casa, mesmo sem nem serem grandes times. Jogar em casa é fundamenta, mas no atual Campeonato Brasileiro, esse tem sido um grande problema. Com seis rodadas disputadas, 40% dos jogos tiveram times mandando jogos fora dos seus estádios. Em grande parte, porque três dos quatro times cariocas estão sem estádio para mandar seus jogos e fazem um verdadeiro Brasileirão itinerante. Mas os motivos vão além disso. As obras para a Copa do Mundo, o calendário brasileiro que segue com jogos quando a Fifa assume os estádios e até a ganâncias de alguns times fizeram o mando de campo não ser sempre óbvio na tabela.

Dos 60 jogos disputados até agora, 24 tiveram mandantes jogando fora dos seus estádios. Sim, isso mesmo: 24 vezes um time mandante jogou longe de casa. São diferentes razões: estádio interditado no Rio, obras dos estádios da Copa do Mundo e “sequestro” dos estádios para a Fifa antes da Copa das Confederações. Em seis rodadas, cada motivo pesou um pouco. E o mando de campo se tornou uma mercadoria para ser negociada. Os novos estádios brasileiros se candidatam a receber os “sem casa”. Alguns passeiam pelo Brasil, enquanto outros resolveram se fixar em um só local.

O Internacional manda seus jogos no estádio Centenário, em Caxias do Sul, já que o Beira-Rio está em obras para a Copa do Mundo. A previsão de entrega do estádio é dezembro de 2013, o que significa que o Colorado jogará o campeonato todo fora de Porto Alegre. A situação é parecida com a do Atlético Paranaense, que também está sem o seu estádio, a Arena da Baixada, que está sendo reformada para a Copa do Mundo. As obras também duram até dezembro, o que significa que o time não usará seu estádio neste Brasileirão. Só que diferente do time gaúcho, o Atlético ao menos manda seus jogos em Curitiba – primeiro no estádio Olímpico do Boqueirão e depois na Vila Capanema. De qualquer forma, não é o seu estádio.

Por causa da Copa das Confederações, alguns times também tiveram que deixar seus estádios por duas rodadas. Vitória, Atlético Mineiro, Cruzeiro e Vasco foram times que tiveram que sair de casa para mandar seus jogos porque a quarta e quinta rodadas foram disputadas quando a Fifa já tinha solicitado os estádios para a Copa das Confederações. Neste caso, a culpa é do calendário – e dos clubes, que o aceitam e assinam, covardemente. Ou seja: mesmo quando as competições estão paradas por causa da Copa das Confederações, no Brasil os jogos seguem acontecendo e, assim, os clubes precisam procurar outro lugar para jogar. São “expulsos” das suas casas. Mas não são vítimas. Como disse, os clubes são culpados por não fazer um levante contra esse calendário ridículo. Então, pagam o preço, que vem em prestações durante todo o ano.

Tem ainda o caso de times que vendem o seu mando. Assim, nesses termos mesmo. Foi o caso de Santos x Flamengo, disputado no Mané Garrincha, em Brasília. O primeiro jogo dos dois times no Campeonato Brasileiro foi disputado com casa cheia, mais de 60 mil pessoas, uma renda de mais de R$ 6 milhões. Só que o Santos vendeu o mando de campo à organizadora do evento por R$ 800 mil. Isso mesmo: menos de 15% da renda foi para o mandante. Que grande negócio, não é mesmo? Pior que a diretoria do time se justificou dizendo que se o jogo fosse na Vila Belmiro, a renda não chegaria a R$ 800 mil e, portanto, por esse raciocínio bastante torto, o time teve lucro. Então tá.

Mas o principal motivo para tantos jogos de mandantes longe de sua casa é mesmo a interdição do estádio Engenhão e as obras do Maracanã. Com isso, o Rio de Janeiro ficou sem um estádio para que os times mandem seus jogos. Só o Vasco, que tem estádio próprio, São Januário. Botafogo, Fluminense e Flamengo precisam encontrar estádios em outros lugares para mandar suas partidas. Volta Redonda, Macaé, Brasília, São Lourenço da Mata (a famosa Arena Pernambuco, região metropolitana de Recife) e até Florianópolis foram cidades onde os times cariocas mandaram jogos neste Brasileiro. Alguns veículos de imprensa estrangeiros chamam os brasileiros, erroneamente, de “cariocas”. Mas eles nunca estiveram tão certos. Os times cariocas jogam pelo Brasil, sem casa, sem estádio.

São times ciganos, em busca de estádios para mandarem seus jogos. E considerando que ainda não houve acordo com a concessionária que administra o Maracanã, as perspectivas não são boas para as equipes do Rio. Só há um jogo marcado para o mais tradicional estádio carioca: Vasco x Fluminense se enfrentam no dia 21 de julho. O Fluminense está perto de um acordo para mandar seus jogos no Maracanã, mas o Flamengo não. Há diversas diferenças que passam por tempo de contrato e valores a serem divididos entre o mandante e a empresa que administra o estádio.

O Flamengo já acertou mandar sete partidas no estádio Mané Garrincha, em Brasília – um deles foi a partida do último sábado, quando empatou com o Coritiba por 2 a 2. Mandará também o clássico contra o Vasco, no segundo turno do Campeonato Brasileiro – o Vasco também mandará o clássico no estádio, no próximo domingo. Não há muita perspectiva de um acordo tão cedo. O que torna ainda mais provável que o Flamengo continue sendo um time nômade, ao menos nas próximas rodadas.

O cenário então é esse: o Campeonato Brasileiro tem 40% dos seus jogos com mandantes sem jogar em casa. Em 2012, o Fluminense foi campeão vencendo 11 dos 19 jogos que fez em casa. Mesmo aqueles que reclamam do acesso ao Engenhão sabem que seria melhor tê-lo de volta nesse momento do que ter que ficar mandando seus jogos fora do Rio de Janeiro. Jogar em casa é importante. Ter que mandar jogos fora de casa implica em mais viagens e mais desgaste, como bem destacou Abel Braga antes do jogo deste domingo contra o Botafogo, na Arena Pernambuco. E em um campeonato tão longo e tão difícil, esse é um detalhe que pode pesar.

Veja a lista de jogos com os mandantes sem poder jogar em casa até a sexta rodada:

1ª rodada
Grêmio 2×0 Náutico – Alfredo Jaconi (Caxias do Sul)
Santos 0x0 Flamengo – Mané Garrincha (Brasília)
Fluminense 2×1 Atlético Parananese – Moacyrzão (Macaé)

2ª rodada
Atlético Paranense 2×2 Cruzeiro – Vila Olímpica do Boqueirão (Curitiba)
Botafogo 2×1 Santos – Raulino de Oliveira (Volta Redonda)
Flamengo 0x2 Ponte Preta – Municipal de Juiz de Fora (Juiz de Fora)
Internacional 2×0 Criciúma – Centenário (Caxias do Sul)
Atlético Mineiro 2×0 Grêmio – Arena do Jacaré (Sete Lagoas)

3ª rodada
Botafogo 2×1 Cruzeiro – Raulino de Oliveira (Volta Redonda)
Atlético Paranaense 2×2 Flamengo – Arena Joinville (Joinville)
Fluminense 3×0 Criciúma – Moacyrzão (Macaé)
Internacional 1×2 Bahia – Centenário (Caxias do Sul)

4º rodada
Vasco 2×0 Atlético Mineiro – Raulino de Oliveira (Volta Redonda)
Flamengo 0x1 Náutico – Orlando Scarpelli (Florianópolis)
Bahia 2×1 Botafogo – Batistão (Aracaju)
Cruzeiro 1×0 Corinthians – Arena do Jacaré (Sete Lagoas)

5ª rodada
Cruzeiro 2×2 Internacional – Arena do Jacaré (Sete Lagoas)
Vasco 1×1 Bahia – Raulino de Oliveira (Volta Redonda)
Fluminense 2×1 Goiás – Moacyrzão (Macaé)
Vitória 3×2 Atlético Paranaense – Jóia da Princesa (Feira de Santana)

6ª rodada
Flamengo 2×2 Coritiba – Mané Garrincha (Brasília)
Atlético Paranaense 1×1 Grêmio – Durival de Brito (Curitiba)
Internacional 5×3 Vasco – Centenário (Caxias do Sul)
Botafogo 1×0 Fluminense – Arena Pernambuco (São Lourenço da Mata)

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

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