Brasil

Neymar desequilibrou um teste importante para fazer Tite pensar sobre as suas escolhas

Não dá para negar o caráter amistoso do confronto entre Brasil e Croácia, neste domingo. As duas equipes aproveitaram os 90 minutos para fazer observações e testar os seus sistemas de jogo, dosando o ritmo em diferentes momentos da partida. A seleção croata oferecia um teste interessante ao time canarinho, considerando a qualidade de muitos de seus jogadores. Desta maneira, o duelo valeu para que Tite fizesse algumas observações pertinentes. Não foi uma exibição brilhante de seus comandados, apesar da avaliação positiva do sistema defensivo, seguro em quase todas as ameaças. Além disso, há alguns sinais sobre a principal dúvida quanto à escalação: quem sairá para a entrada de Neymar. Neste momento, pela falta de criatividade no meio-campo, quem começa um passo atrás é Fernandinho, ante a atuação burocrática do primeiro tempo. E foi o camisa 10, em seu retorno aos gramados, saindo do banco na volta do intervalo, que deu o toque de talento necessário ao Brasil. Anotou um golaço, que abriu a vitória por 2 a 0, finalizada no último minuto por Roberto Firmino. Mostra o quanto Neymar é valioso ao time, assim como nega qualquer desconfiança por sua falta de ritmo de jogo. Segue sendo “o cara” da equipe rumo à Rússia.

As mudanças na escalação do Brasil

Tite não fez mistério sobre as suas escolhas. No meio da semana, já havia anunciado os jogadores que iniciariam o amistoso em Anfield. Danilo era o lateral direito e Thiago Silva vinha na vaga de Marquinhos no miolo de zaga. Já o ponto de maior discussão ficou sobre a escolha de Fernandinho, tornando o meio-campo mais conservador. O volante do Manchester City entrou na segunda linha de quatro, no 4-1-4-1 de Tite, pelo lado esquerdo. Segundo reportagem do UOL, foi um pedido dos próprios jogadores, para oferecer mais liberdade a Marcelo. Desta vez, Willian e Coutinho entraram nas pontas. A braçadeira ficou com Gabriel Jesus.

Começo estudado e com dificuldades na saída

A Croácia possui um meio-campo muito forte. E se aproveitou da sua principal característica para dificultar a vida do Brasil nos primeiros minutos. Marcava de maneira adiantada, espelhando o 4-1-4-1. Dava poucos espaços à saída de bola brasileira, bloqueando a faixa central e pressionando os laterais, o que gerou chutões frequentes dos comandados de Tite. Além disso, os europeus tentavam explorar as jogadas pelos lados do campo e os cruzamentos na área. A primeira oportunidade clara foi dos croatas. Cabeçada de Dejan Lovren que passou ao lado da meta de Alisson. Além disso, fariam o goleiro trabalhar ao forçarem os erros do Brasil.

Willian se apresenta

As subidas do Brasil ao ataque dependiam extremamente dos lados do campo. Philippe Coutinho e sobretudo Willian se apresentavam. O ponta direita, aliás, parecia disposto a mostrar serviço e a reafirmar suas condições na equipe. Era quem mais chamava o jogo para si. Teve uma boa arrancada em diagonal e poderia ter levado perigo em um cruzamento de Danilo, no qual tentou enfeitar com um chute de letra e furou. Já as primeiras finalizações saíram dos pés de Coutinho, em arremates sem direção. Pouco ao que se pedia do Brasil.

Mais abertura

A partir dos 25 minutos, a Croácia diminuiu um pouco mais a intensidade de sua marcação, o que permitiu ao Brasil se posicionar um pouco mais no campo de ataque. Marcelo era a grande válvula de escape, bastante acionado pelo lado esquerdo para iniciar os avanços. Além disso, sobrava espaço a Willian do outro lado, tornando as inversões recorrentes. O Brasil começou a fazer mais jogadas de linha de fundo e a entrar na área, com bolas salvas na pequena área pelos croatas. Paulinho foi outro que passou a se soltar, aparecendo para as conclusões.

A inoperância do meio-campo

Se o Brasil fica mais protegido com Fernandinho, um problema que se expôs durante o primeiro tempo foi a falta de criatividade no setor central. Não existiam as triangulações aplicadas por Tite, com três jogadores de menor qualidade nos passes. E evidentemente a Seleção sentiu esta carência, ao concentrar suas investidas com os dois pontas e com Marcelo. Sobrou força, mas faltaram ideias para conseguir destravar a compacta marcação dos croatas, muito bem na ocupação de espaços.

Neymar voltou

Três meses após a sua cirurgia, Neymar voltou a entrar em campo. E a alteração de Tite realmente tentou dar maior qualidade à criação pelo meio-campo. Saiu Fernandinho, com Philippe Coutinho ocupando a faixa central, como tantas vezes fez no Liverpool. Já Willian permaneceu na ponta direita, reconhecimento à atuação satisfatória durante a etapa inicial.

Mais posse

O Brasil voltou para o segundo tempo com mais posse de bola. Conseguia trabalhar os passes e encurralar a Croácia. Além disso, havia uma liberdade maior na movimentação. Neymar transitava pela faixa central e Coutinho garantia uma fluidez maior. Não queria dizer que a Seleção, todavia, ameaçasse mais. Ainda permanecia certa dependência à criação de Willian, com alguns cruzamentos. Além do mais, a letargia dos brasileiros em suas investidas permitia que os croatas marcassem com segurança.

Um pequeno susto

A Croácia se limitava aos contra-ataques e às bolas alçadas na área do Brasil. Mesmo assim, criou a primeira chance do segundo tempo. Ante Rebic ganhou pelo alto e cabeceou no canto, para que Alisson espalmasse ao lado. O ponta do Eintracht Frankfurt, de ótima temporada com seu clube, é um nome que pode surpreender na equipe croata durante o Mundial.

Muitas alterações

Dos 15 aos 20 minutos, houve um festival de alterações nas duas equipes. Tite mandou a campo Marquinhos, Filipe Luís e Roberto Firmino, nos lugares de Miranda, Marcelo e Gabriel Jesus. Já a Croácia ganhou Kovacic, Brozovic e Pjaca, nas vagas de Modric, Badelj e Rebic.

O craque e o gol

O Brasil começou a acelerar um pouco mais o jogo a partir dos 20 minutos. E em uma dessas jogadas, nasceu o gol, com a participação dos três grandes talentos da segunda linha. Willian avançou em diagonal e passou a Coutinho, que encontrou Neymar na esquerda. Então, pesou o talento do craque. Encarou a marcação de Vrsaljko e driblou como quis o lateral direito croata. Conseguiu se desvencilhar do segundo marcador e, quando chegava o terceiro, soltou uma bomba. A bola explodiu no travessão antes de entrar, sem qualquer chance de defesa para Subasic. Golaço. Um lance sensacional que ressalta a importância da qualidade individual para desequilibrar duelos truncados. É esta a diferença que o camisa 10 oferece ao Brasil.

A saída de Coutinho

O Brasil ainda tentou acelerar mais algumas vezes na sequência da partida, sem sucesso em suas empreitadas. Não teve brechas para finalizar com contundência. E com o passar dos minutos, o jogo caiu de ritmo. Tempo para novas alterações em ambos os lados. A saída de Philippe Coutinho, aliás, merece destaque especial. Entre vaias e aplausos, o meia sentiu de maneira mais evidente o reencontro com a torcida do Liverpool. Deixou o campo ao lado de Willian, com Fred e Taison os substituindo.

O gol derradeiro

Depois dos 40, um pouco mais de abertura aos dois times, que não marcavam de maneira tão rigorosa. Desta forma, o Brasil conseguiu marcar o segundo gol no último lance. Casemiro deu um lançamento primoroso a Roberto Firmino, que dominou e contou com a furada de Jedvaj. De frente para Subasic, deu um toque com categoria para tirar do alcance do goleiro. Muita festa nas arquibancadas, para aplaudir o ídolo local. Na saída de campo, ainda rolou um Beatles, com os alto-falantes tocando ‘Hey Jude’, em meio aos cumprimentos.

Próximos compromissos

O Brasil volta a campo em uma semana. No domingo que vem, pega a Áustria em Viena. Já a Croácia se despede de sua torcida na sexta-feira, encarando Senegal em Osijek.

Ficha técnica

Brasil 2×0 Croácia

Local: Anfield, em Liverpool (ING)
Árbitro: Michael Oliver (ING)
Gols: Neymar, aos 24’/2T; Roberto Firmino, aos 48’/2T
Cartões amarelos: Andrej Kramaric, Fernandinho, Ivan Perisic, Ivan Rakitic
Cartões vermelhos: Nenhum

Brasil
Alisson, Danilo, Thiago Silva, Miranda (Marquinhos, aos 20’/2T) e Marcelo (Filipe Luís, aos 15’/2T); Casemiro; Willian (Fred, aos 36’/2T), Paulinho, Fernandinho (Neymar, no intervalo), Philippe Coutinho (Taison, aos 36’/2T); Gabriel Jesus (Roberto Firmino, aos 15’/2T). Técnico: Tite.

Croácia
Danijel Subasic, Sime Vrsaljko (Tin Jedvaj, aos 42’/2T), Vedran Corluka (Duje Caleta-Car, aos 7’/2T), Dejan Lovren, Domagoj Vida; Milan Badelj (Marcelo Brozovic, aos 16’/2T); Ante Rebic (Marko Pjaca, aos 19’/2T), Luka Modric (Mateo Kovacic, aos 13’/2T), Ivan Rakitic (Filip Bradaric, aos 38’/2T), Ivan Perisic; Andrej Kramaric. Técnico: Zlatko Dalic.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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