Brasil

Não é o caminho

Ganhar tudo o que disputasse em 2009. Era este o sonho, ainda que inconfesso, do Internacional, para o ano de seu centenário. Meta que pode ser considerada impossível: o futebol, hoje, é muito equilibrado, e o Colorado precisaria ter um elenco que tivesse reservas, no mínimo, tão bons quanto os titulares. Mesmo assim, as perspectivas para o clube da Beira-Rio eram muito boas para o ano. Primeiramente, a equipe encerrou o ano passado numa sólida ascensão, conseguindo alcançar a sexta posição, ao final do Brasileiro. Depois, o título da Copa Sul-Americana, que não só foi um bom exemplo de como levar a competição a sério, mas também comprovou a qualidade de razoável para boa que o elenco tinha.

A demissão de Tite, nesta semana, colocou um ponto final no projeto de domínio pleno que a diretoria colorada (leia-se, principalmente, Fernando Carvalho) estabelecera para o ano. E a demissão não esconde o fato de que o centenário colorado, em matéria de títulos, foi muito menor do que poderia estar sendo. Veio o tricampeonato gaúcho, com direito aos 8 a 1 sobre o Caxias na final, mas os estaduais há muito não são um parâmetro fiel do que os clubes podem resultar na temporada. E veio a Copa Suruga – de relevância quase residual.

Tite não é um mau técnico. Fez bons trabalhos no Grêmio, no Corinthians, quando levou um elenco limitado ao quinto lugar no BR-2004, e no Palmeiras, levando a uma pequena reação em 2006, antes da infeliz discussão com Salvador Hugo Palaia, na qual foi humilhado (além do aceitável, diga-se) e ficou só com a demissão como única hipótese plausível.

Porém, o ex-jogador de Guarani e Portuguesa já não conseguia evitar as críticas cada vez mais ácidas a seu trabalho. Se mesmo na época do título da Sul-Americana, já sofria com dúvidas, passou a ser ainda mais visado na perda mais lamentada do ano. Sem conseguir fazer com que o time entrasse no ritmo sempre forte da torcida, o técnico não criou mecanismos que fizessem o time conter a precisão cirúrgica do Corinthians, que foi mais soberano do que se supunha no Beira-Rio e venceu a Copa do Brasil.

Depois, foi deixando que apenas a esperança vã de que “no Brasileiro tudo entraria nos eixos” guiasse a equipe. A saída de Nilmar já era prevista, mas não foram criadas alternativas que suprissem a falta que o camisa 9 certamente faria, e faz. D'Alessandro, mais isolado na armação com o desfalque de Giuliano, caiu de produção – o que não o exime de culpa, ao lembrar o jogador indolente que fracassou em Wolfsburg e Zaragoza.

E aí começam as responsabilidades do elenco. Com a queda de produção, Taison não conseguiu se firmar como a opção definitiva para o ataque. Na cabeça-de-área, Magrão também teve queda de produção até sua saída, o que sobrecarregou Guiñazu. O argentino, por sua vez, mantém a pegada quase incansável na marcação – porém, parte da torcida o critica, pela falta de ousadia na saída de bola.

A defesa também sofreu, ao prescindir tão facilmente de Álvaro, que mostrava alguma utilidade. Isso, sem contar os pontos perdidos que fazem falta, como nas derrotas para Cruzeiro e Corinthians e o empate com o São Paulo, para ficar só em jogos disputados no Beira-Rio.

Porém, a qualidade do elenco colorado permanece relativamente boa, para os padrões do futebol brasileiro. Na disputa contra Goiás e Atlético-MG pelas vagas na Libertadores, o clube leva vantagem: goleou o Esmeraldino, e terá o confronto contra o Galo, ainda. O modo como a reação iniciou é que não parece alvissareiro. Criticar a contratação de Mário Sérgio apenas por criticar tem algo de precipitação. O técnico também tem suas qualidades, fez bom trabalho no Figueirense, em 2007 (para não citar o longínquo começo, no Corinthians) e acompanha futebol, mesmo que não esteja empregado.

Entretanto, a contratação do ex-meia é tratada, até por ele próprio, como uma “interinidade de luxo” até que novo trabalho seja iniciado, no ano que vem. Tal visão pode prejudicar muito o time gaúcho – e ainda neste Brasileiro. Técnico por técnico, Tite mantinha a equipe num patamar que permite a disputa pela vaga na Libertadores. Se a questão era apenas “demitir por demitir”, que isso tivesse sido feito mais cedo, como foi a reclamação de muita gente.

Agora, se a intenção é iniciar novo ciclo em 2010, permitir que Tite encerrasse seu ciclo em dezembro, como ele próprio lamentou não poder na despedida, não seria algo absurdo. Talvez, o Inter nem perdesse coisa alguma. De todo modo, a esperança é que Mário Sérgio consiga levar o time a encerrar 2009 como encerrou o ano passado: em ascensão. E, para 2010, o desafio é tentar manter a boa fase por um longo tempo. Pois, se falar que o Inter não ser campeão brasileiro é “inadmissível” parece exagero, o elenco pode fazer bem mais.

2007 reloaded?

A torcida do Flamengo ainda guarda fresca na memória a reação incrível, nas últimas rodadas do Brasileiro de 2007, quando o Rubro-negro saiu da ameaça de rebaixamento diretamente para conquistar uma vaga tão improvável quanto merecida na Copa Libertadores. Pois, devagar, a equipe da Gávea volta a dar mostras de que pode recuperar-se a tempo de participar da equilibrada disputa travada entre Atlético-MG, Goiás e Internacional.

Sem gols sofridos há seis rodadas, e conseguindo mostrar um nível de jogo novamente aceitável, se não brilhante, o Flamengo reage bem. Vencer Sport e Fluminense tinha um pouco de “obrigação”, pela situação desalentadora de pernambucanos e, principalmente, tricolores. Mais meritório foi o empate contra o Internacional, no Beira-Rio – em que pese o estado inacreditável do gramado no estádio porto-alegrense.

Nas próximas onze rodadas, o desafio é considerável. Para transformar-se num candidato real à vaga no torneio sul-americano, o time carioca precisará superar tanto os dois primeiros colocados, Palmeiras e São Paulo, quanto os dois clubes mais bem colocados na disputa pelas vagas da Libertadores, Goiás e Atlético-MG. E, dentre esses quatro jogos, somente terá o apoio da torcida contra são-paulinos e esmeraldinos, que viajarão ao Maracanã.

De qualquer modo, a reação vale, para comprovar que o elenco ainda rende. As atuações que fazem de Adriano um dos artilheiros do campeonato não são justificadas só pelo baixo nível das defesas: parece genuína a vontade que o camisa 10 flamenguista demonstra em campo. E, finalmente, Andrade demorou, mas começou a mostrar serviço. Além disso, o ex-volante de Juiz de Fora tem uma característica que desde Carlinhos não se via: um técnico que sabe como poucos o modo de se comportar no Flamengo, os códigos “invisíveis” que o clube tem. Será difícil, mas brigar pela Libertadores é possível.

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Equipe Trivela

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