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Nacho Fernández chega ao Galo como o mais importante reforço para ditar a transformação do time

O Atlético Mineiro apresentou nesta quarta-feira seu novo reforço, Ignacio Fernández. E o argentino desembarca em Belo Horizonte, desde já, como candidato a principal contratação do futebol brasileiro em 2021. Os atleticanos ainda não sabem quais os próximos passos, após a saída de Jorge Sampaoli. Ainda assim, seja quem for o próximo treinador do Galo, Nacho tende a ser o cérebro dos alvinegros na temporada. No caminhão de negócios feitos pelo clube nos últimos meses, o meio-campista é o mais credenciado para se tornar protagonista e influenciar positivamente no funcionamento do conjunto.

A contratação de Nacho Fernández representa seus riscos. O meia completou 31 anos em janeiro e nunca atuou fora da Argentina. Os US$6 milhões desembolsados pelo Atlético dimensionam bem o tamanho do negócio, num contrato de dois anos. No entanto, quem acompanhou os jogos do River Plate nos últimos anos sabe bem como a aposta dos mineiros faz total sentido. O camisa 26 era o “cérebro” da equipe de Marcelo Gallardo (em expressão usada pelo próprio treinador ao definir seu pupilo) e foi essencial aos sucessos recentes, principalmente na conquista da Libertadores de 2018 e na campanha até a decisão de 2019.

Nacho garantia um dinamismo tremendo ao River Plate. Era o meio-campista que fazia a roda girar, orquestrando os companheiros com seus passes. Mesmo sem ser um jogador forte fisicamente, o camisa 26 se destacava pela maneira como aparecia em diferentes pontos do campo de ataque para organizar a equipe e carimbar a bola com seus passes. Porém, não se restringia ao protocolar. Seus passes longos, suas enfiadas de bola e mesmo suas chegadas para concluir as jogadas tantas vezes fizeram a diferença aos millonarios.

Além da notável qualidade técnica, Nacho Fernández é um jogador inteligente e de senso tático aguçado. Contribui bastante por sua leitura de jogo e pela maneira como busca os espaços vazios no campo. Mais do que isso, também possui seus predicados defensivos, na hora de pressionar os adversários e recuperar a bola. Não à toa, virou um jogador intocável com Gallardo a partir de 2016. O crescimento foi mútuo, tanto na importância que Nacho ganhou no futebol argentino, quanto na própria evolução de jogo do River.

Cria da base do Gimnasia de La Plata, Nacho Fernández assinou com o River em janeiro de 2016, pouco depois da conquista da primeira Libertadores com Gallardo. Virou um dos jogadores mais regulares do time, utilizado em diferentes funções no meio-campo, mas sobretudo na condução. Era um destaque silencioso no título da Libertadores de 2018, eternizado como um dos heróis na decisão, ao determinar o empate no Bernabéu. Aquele tento permitiu que mais gente percebesse o tamanho do talento de Nacho e prestasse mais atenção em seu futebol. Juan Román Riquelme, lenda do Boca Juniors, se renderia ao carrasco.

O próprio River Plate se moldou ao jogo de Nacho Fernández. Tornou-se uma equipe que controlava melhor a bola, deixando um pouco a verticalidade de anos anteriores, até pela saída de outros jogadores. O maestro tinha essa capacidade, entre acelerar e cadenciar, ocupando diferentes faixas do campo. Na Libertadores de 2019, Nacho voltou a derrubar o Boca nas semifinais, guardando mais um gol contra os xeneizes. Também viveu sua temporada mais efetiva no Campeonato Argentino de 2019/20, com gols e assistências para manter as esperanças de título do River até a rodada final. Só na última Libertadores que esteve um pouco abaixo do protagonismo, apesar do destaque na vitória sobre o Palmeiras dentro do Allianz Parque.

O Atlético Mineiro (e a maioria absoluta dos clubes brasileiros) carece de um jogador como Nacho Fernández. É um meio-campista para facilitar o trabalho dos demais companheiros e dar mais velocidade nas ações a partir da bola, com raciocínio rápido. As últimas rodadas do Brasileirão deixaram evidente como o Galo tantas vezes precisou desse cara, muito previsível e encontrando dificuldades para romper retrancas a partir do passe. O trabalho de Jorge Sampaoli deixou a desejar pela falta de consistência. Nacho pode ser exatamente a peça que faltava, por mais que o novo treinador deva agregar outras ideias.

Durante os últimos meses, o Atlético realizou um investimento descomunal em seu elenco, que gera preocupações sobre a sustentabilidade a longo prazo – apesar da presença de um mecenas. Dentro de campo, é necessário que essas peças formem uma equipe mais competitiva, algo que não perdurou tanto com Sampaoli. Todavia, está claro como o Galo possui excelentes alternativas, especialmente do meio para frente. Talvez nem todos os jogadores à disposição tenham vez com o próximo comandante. Mas é difícil imaginar alguém que abra mão de Nacho e não o coloque como ponto de referência no meio-campo. Existe a possibilidade de que o novo reforço sinta dificuldades para se adaptar ao futebol brasileiro ou mesmo sofra um declínio físico. Contudo, por inteligência e refinamento, o camisa 26 se sugere uma tacada de mestre dos atleticanos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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