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Na dúvida, o brasileiro ficou do lado da zoeira. O que está certo

– Estou gostando do Brasil, mas acho que vocês não gostam muito da gente. Torceram contra em todos os jogos.

Eram essas as impressões de um torcedor inglês logo após a última partida de sua seleção na Copa, um empate insosso contra a Costa Rica em Belo Horizonte, em conversa com a Trivela. Ele dizia entender o motivo da torcida contra na estreia contra a Itália, pois Roy Hodgson não ajudou a estreitar as relações anglo-manauaras ao criticar o calor e a umidade de Manaus, mas era um mistério para ele por que os brasileiros se alinharam com uruguaios e costarriquenhos.

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Dias depois, foi a vez de Lugano cornetar o comportamento da torcida quando ela empurrou a Colômbia no duelo sul-americano das oitavas de final. O zagueiro disse que o torcedor brasileiro é “superficial” e insinuou que essa secação se devia a um medo de enfrentar a Celeste nas quartas.

Essa dificuldade de compreender o comportamento das arquibancadas foi manifestado por delegações ou jornalistas de diversos países, incluindo Holanda, Portugal e Espanha. O motivo da surpresa variava, do “nós somos países irmãos” (Portugal) a “o país do jogo bonito deve estar do lado de quem joga o futebol mais bonito” (Espanha).

Não, não é assim que funciona. Pequenos grupos podem seguir um país com relações familiares (Portugal contou com isso em Recife, contra Gana) ou de afinidade pessoal (alguns apoiaram a Inglaterra por gostar da Premier League), mas a massa segue uma lógica própria.

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Com base em observações in loco da equipe Trivela, pudemos identificar um padrão de comportamento do torcedor. Não é uma ciência exata, até porque alguns pontos entram em choque dependendo da partida. Mas dá para perceber que, ao contrário do que Lugano disse e o torcedor inglês imaginou, não é algo superficial e não significa que os brasileiros odeiem os ingleses.

A torcida brasileira é maioria no Castelão, mas colombianos também fazem barulho (AP Photo/Themba Hadebe)
A torcida dividida no jogo entre Brasil e Colômbia (AP Photo/Themba Hadebe)

1) Brasil em campo
Torce a favor, claro.

2) Argentina em campo
Torce contra. Alguns brasileiros até simpatizam com o futebol argentino, ou com o fato de ser uma seleção sul-americana, mas o comportamento médio é de secar a Argentina até segunda ordem.

3) Onde estiver a melhor piada
Esse é o ponto fundamental. Um time grande se dando mal, como a Espanha contra o Chile ou o Uruguai contra a Costa Rica? Ótimo! Um jogador tido como arrogante se dando mal, como Cristiano Ronaldo contra os Estados Unidos? Excelente! Mas isso não significa que a piada seja necessariamente ver os grandes e famosos tropeçarem. Se um deles estiver protagonizando um feito histórico, a torcida vai junto. Afinal, todo mundo quer dizer que esteve presente a um momento marcante das Copas do Mundo.

4) Latino-americanos
Há uma afinidade latino-americana (e, nesse aspecto, a Argentina é tão europeia quanto a Alemanha) nítida. Basta ver como a torcida se alinhou com o Uruguai contra Inglaterra e Itália e ficou do lado dos equatorianos contra a Suíça.

5) Países em desenvolvimento (sobretudo africanos)
Se não há um time sul-americano, a galera vai para o lado dos países em desenvolvimento, sobretudo se for um africano. Gana, Nigéria, Costa do Marfim e Argélia tiveram grande simpatia. Camarões teve essa oportunidade apenas contra a Croácia (os outros jogos foram sem torcida inicialmente neutra, contra Brasil e México), mas tomou uma piaba tão grande que ficou difícil.

6) Quem for legal com os brasileiros
Esse aspecto ajudou muito. Os ingleses reduziram sua rejeição em Manaus pela maneira como a torcida se integrou aos manauaras. No entanto, aumentaram em Belo Horizonte quando se negaram a integrar a ola que a torcida mineira fez. Os alemães também foram ganhando seguidores durante o Mundial devido à simpatia de seus jogadores, e isso pode ter sido fundamental para ter apoio da maioria dos cariocas contra a França.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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