Muricy Ramalho era a única alternativa do São Paulo
Há muitos motivos para considerar a demissão de Paulo Autuori um erro da diretoria do São Paulo. São só 17 jogos sob o seu comando, com direito a uma viagem no meio que desgastou o time em um péssimo momento. Depois de uma semana desgastante, com quatro jogos em oito dias, venceu uma, empatou uma e perdeu duas. Pior que as derrotas foram as atuações. Paulo Autuori não melhorou o time em nenhum aspecto. As melhoras que vieram foram extra-campo. E por isso, a demissão do técnico tem justificativa, ainda que fruto de uma série de erros anteriores da própria diretoria – a começar por contratar o próprio Autuori.
As três coisas que melhoraram fora de campo foram: a saída de Ney Franco, que tornou-se desafeto de alguns jogadores; o afastamento de Lúcio, um dos jogadores que causava problemas; a saída de Adalberto Batista, também desafeto de alguns jogadores e incapaz de gerir crises do vestiário. Das três, Autuori é responsável só por uma, o afastamento de Lúcio. Em campo, o time continuou mal, desorganizado, mal treinado. Não se via nenhuma melhora e muito menos perspectiva para acreditar nisso. A demissão do técnico acaba sendo compreensível. Não porque ele seja o único culpado, porque jogadores e especialmente a diretoria também têm culpa. Mas sim porque o técnico era um problema. Ainda mais considerando quem estava pronto a substituí-lo.
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Autuori coloca no seu currículo mais um trabalho muito ruim, como já tinha sido no Cruzeiro, no Grêmio e no Vasco, mesmo que em cada um desses lugares haja situações muito diferentes e atenuantes que não podem ser completamente descartados. Mas é fato que o trabalho era ruim. Jogo após jogo, o que se via era o mesmo time, com os mesmos erros, cada vez mais nervoso e com um desempenho digno de time que vai ser rebaixado. Taticamente, nada melhor. Defensivamente, ofensivamente, individualmente, coletivamente… Nada. O time não evoluiu.
A única coisa que melhorou em relação aos últimos jogos sob o comando de Ney Franco foi a vontade de maioria dos jogadores, nitidamente maior, fruto da confiança que tinham em Autuori. Um nome sempre muito falado, que dá ótimas entrevistas, um sujeito com um grande caráter, segundo todos que trabalham com ele. Mas ser uma grande pessoa não é ser um grande técnico. Autuori dá grande entrevistas, entende de futebol. Mas não se vê em campo esse conhecimento aplicado em uma ideia de como o time joga. Não dá para defender seu trabalho de campo.
A solução Muricy Ramalho era a única e mais óbvia. Demitindo Autuori, o time teria que buscar alguém capaz de chegar e impor respeito aos jogadores – algo que o São Paulo sente uma dificuldade enorme, se assemelhando ao Chelsea – e que seja da confiança da incompetente diretoria. Mais do que isso: um nome que a torcida não questione. Ou ao menos não questione muito. Muricy foi o grito das arquibancadas em muitos dos momentos ruins do clube, inclusive com Ney Franco. Paulo Autuori tinha o respaldo do seu último trabalho no clube em 2005 – um trabalho questionável, mas sem dúvida vencedor. A volta de Muricy certamente desagrada alguns são-paulinos, mas agrada à maioria. Certamente receberá apoio das arquibancadas.
O São Paulo vive uma sina. Nenhum técnico consegue ter sucesso no clube desde a saída de Muricy Ramalho, em meados de 2009, depois de ser eliminado da Libertadores pelo Cruzeiro. Foram sete técnicos desde então: Ricardo Gomes, Sérgio Baresi, Paulo César Carpeggiani, Adílson Batista, Émerson Leão, Ney Franco e Paulo Autuori. Isso sem falar em Milton Cruz, interino entre vários desses técnicos. Com Muricy no mercado, já tendo declarado sua vontade de voltar ao Morumbi e o histórico recente de técnicos no comando do clube, Muricy era a única opção.
Muricy conhece o clube, tem paixão pelo que faz e pelo São Paulo. Indubitavelmente sabe arrumar uma defesa, como já fez em diversos trabalhos, inclusive no próprio São Paulo. E em um time com uma insegurança defensiva tão grande, esse certamente será seu primeiro desafio. A diretoria do clube, comandada pelo “gestor”, como ele mesmo gosta de dizer, Juvenal Juvêncio, aposta no que a torcida pediu muitas vezes. Daqui em diante, não restará muito a fazer a não ser torcer para que tudo dê certo.



