Brasil

Mudar é preciso?

Ganhar ou perder faz parte do esporte. É claro que as derrotas costumam ser doloridas, especialmente quando a expectativa é alta. O ouro olímpico no futebol era esperado na Olimpíada de Londres, não só porque é um título inédito para o futebol brasileiro, mas porque o Brasil era favorito. A derrota veio, mas é preciso tomar cuidado para não explodir todo o trabalho que foi feito sem pensar no que será feito.

Mano Menezes demorou demais para conseguir arrumar o time. Foi inseguro e quando sentiu a pressão por resultados aumentar, abriu mão da renovação para trazer veteranos que nada resolveram – e a Copa América caiu por terra na Argentina. O time só pareceu montado em 2012, às vésperas da Olimpíada. Sim, demorou demais. O time de Mano Menezes não conseguiu fazer jogos de igual para igual diante de adversários mais fortes. Acabou dominado e não soube sair das fortes marcações sobre o principal jogador do time, Neymar. Foi assim contra o México, foi assim em diversos outros jogos, como Alemanha, por exemplo. Falta saber sair dessa situação e esse é um problema grave, que precisará ser resolvido se o Brasil quiser chegar como um time capaz de disputar o título da Copa do Mundo em 2014. Mano é um dos responsáveis por isso, não há dúvida.

Para trocar de técnico, porém, é preciso saber o que se quer. Renovação? Jogar bonito? Focar em um time competitivo independente do estilo de jogo? As opções a Mano Menezes não parecem muito melhores. Muricy Ramalho, Luis Felipe Scolari e Tite são ótimos técnicos, mas não irão mudar muito do que já está sendo feito. Nenhum deles é um nome que tem no histórico montar times que proponham tanto o jogo de maneira envolvente. É verdade: Mano Menezes também não tinha esse histórico e Muricy e Felipão possuem currículos muito mais qualificados para dirigir a seleção. Mas para mudar, é preciso saber o que se quer. E, talvez, uma mudança para Muricy ou Felipão significa abrir mão daquilo que foi tanto criticado em Dunga para recorrer a técnicos que o inspiraram.

Há um time desenhado, uma base montada. Então, é preciso conter a vontade de destruir tudo e recomeçar. Mano Menezes faz um trabalho abaixo do esperado, mas tem um time com uma cara. A linha defensiva não deve variar muito entre Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz (ou Dedé) e Marcelo. No meio, pode haver dúvida em relação ao primeiro volante, mas Lucas Leiva continua favorito (e Fernando, do Grêmio, precisa ser testado pela bola que está jogando). Ramires deve ser seu companheiro, ou abre espaço para Hernanes e joga mais à frente, na linha à frente, junto com Oscar e Neymar. Leandro Damião não é o centroavante dos sonhos, mas parece o mais confiável até aqui.

Há mudanças pontuais e de postura que poderão vir com um novo técnico. Só é preciso que haja consciência sobre a quem será dada a missão. É preciso conhecer quem será o escolhido. Será Felipão? Basta lembrar das cornetas palmeirenses, recentemente, ou mesmo em 2001, após a derrota contra Honduras na Copa América. Não será um mar de flores. Com Felipão, nunca é. E é preciso lembrar também o histórico recente do técnico, não apenas o trabalho que levou a seleção brasileira ao título de 2002. Até porque lá se vão dez anos.

Se for Muricy, é bom lembrar o enorme número de críticas que o técnico recebe pelo estilo de jogo, que muitas vezes é consistente, mas nem sempre encantador, ou mesmo um time que proponha o jogo a todo momento. Montou times muito fortes do São Paulo entre 2006 e 2009, mas também foi muito criticado e deu origens a críticas irônicas como o “Muricybol”. É um técnico de currículo, mas que nem sempre consegue montar times que sejam envolventes. E não há demérito nisso: ele é um vencedor e futebol pode ser jogado de várias formas diferentes. Em um clube, isso pode ser mais do que suficiente. Mas e na seleção? Para contratá-lo, é preciso ter claro qual é a ideia.

Seja com Felipão, seja com Muricy, é de se esperar uma seleção forte, provavelmente capaz de brigar pelo título. Mas com o Dunga também era (basta lembrar o grande primeiro tempo contra a Holanda, quando a derrota parecia improvável) e o trabalho não era bom e nem deixou bons frutos. Então, é preciso pensar: o que queremos para a seleção brasileira?

Mais do que apenas o técnico

O que a seleção brasileira tem mostrado nos últimos anos é um problema que a tira do bloco das melhores seleções do mundo, mas que vai muito além do técnico. Uma geração inteira brasileira acabou deixando de ser protagonista antes do que deveria. Jogadores que na Copa de 2006 pareciam que iriam assumir as rédeas do time, como Kaká, Ronaldinho, Adriano, Robinho e Fred acabaram sucumbindo diante de problemas variados. De todos eles, apenas Kaká e Robinho continuam em grandes times europeus, mas com um papel bem menos preponderante do que se esperava.

Nenhum deles está na seleção e não há um clamor pela volta de algum deles. Destes, apenas Kaká é lembrado com alguma frequência para voltar. Ronaldinho esteve nos convocados em 2011 e acabou sucumbindo à própria má fase. Fred foi para a Copa América e, apesar de marcar gols com frequência, parece cada vez menos um jogador de seleção pelo seu comportamento e por sua instabilidade física. É um problema que torna a seleção mais suscetível a problemas por falta de experiência, já que o principal jogador do time é um atacante de 20 anos e os outros destaques do time ainda sejam jovens. O experiente da turma é Thiago Silva. É pouco.

O técnico que for comandar a seleção brasileira, seja Mano Menezes, seja outro, terá que lidar com essa questão. Jogadores de 30 anos sem liderança, como Daniel Alves, jogadores experientes como Thiago Silva e Marcelo, e um ataque formado apenas por jovens. É uma dificuldade de geração que o Brasil tem e que terá que superar. Seja com quem for.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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