Mudança de hábito

O dia 4 de outubro do ano passado foi importante para a história do futebol brasileiro. Com o Maracanã abarrotado, o emergente e vibrante Flamengo de Joel Santana colocava fim à invencibilidade de 16 jogos do São Paulo, campeão com Muricy Ramalho. A vitória flamenguista, construída através do placar mínimo com gol de Ibson, foi suficiente para ratificar o crescimento rubro-negro. A última semana, por uma sucessão de fatos, aprofundou a tendência de que o Fla pode tomar a frente no cenário nacional.
Primeiramente, o São Paulo deu demonstrações de fraqueza nos jogos contra Noroeste e especialmente Nacional de Medellín. Contra a equipe bauruense, o tricolor paulista iniciou bem, deu a sensação da vitória fácil, mas provou de uma de suas maiores fragilidades nesse começo de ano: a defesa instável. O empate de 2-2 deixou o time de Muricy Ramalho momentaneamente fora do grupo de classificação do Campeonato Paulista.
Em Medellín, onde a Libertadores se iniciaria para o São Paulo, ficaram ainda mais notáveis as dificuldades do time tido como o maior do país. Mesmo diante de uma equipe apenas boa, os brasileiros estiveram acuados em quase todo o jogo, demonstrando dificuldades na compactação de espaços, marcação à frente e manutenção da posse de bola. Talvez, a parte física venha pesando nesse momento um pouco delicado no Morumbi.
E, finalmente, a política de contratações para 2008 começou a dar seus sinais de fracasso. Em pouco mais de dois meses, Adriano já protagonizou alguns fatos negativos, confusões e problemas com Marco Aurélio Cunha e Juvenal Juvêncio, principais referências de Muricy Ramalho na direção. Já há novamente quem se pergunte se o Imperador voltará aos seus melhores dias aqui no Brasil. Até Fábio Santos, titular e responsável pela mudança de posição de Richarlyson, tem tido seu nome discutido.
Por sua vez, o Flamengo de Joel Santana mostrou estar suficientemente maduro para as grandes conquistas. Após a heróica classificação para a Libertadores, o título do primeiro turno no Rio de Janeiro foi mais uma demonstração de força dos rubro-negros. Com consistência na parte defensiva e uma formação tática segura, o time vai crescendo na medida em que Kléberson ganha espaço e principalmente Ibson se firma como um jogador de primeira linha. A qualidade técnica começa a aparecer e a alma do time se nota em campo.
Mesmo com dificuldades, os flamenguistas colheram dois razoáveis resultados nos primeiros jogos pela Libertadores, aliviando a tensão e as expectativas que existiam em torno da segunda participação consecutiva no torneio. Há de se esperar uma melhora nas próximas exibições internacionais.
É evidente que a temporada apenas se inicia e é principalmente com o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores se aprofundando que melhores conclusões poderão ser tomadas. Mas, desde o fim do último ano e nos primeiros meses de 2008, o crescimento flamenguista parece muito consistente e elogiável. Por sua vez, o São Paulo já não transmite a mesma segurança que teve com o bicampeonato nacional conquistado de forma absoluta e inquestionável. Talvez, hábitos que estejam se alterando.
Viva o créu
Muito se fala sobre o excesso de bom mocismo no futebol brasileiro dos últimos tempos. Craques polêmicos como Viola e Túlio se tornaram espécies em extinção, ao mesmo tempo em que os “politicamente corretos” como Kaká e Ronaldinho Gaúcho se tornaram modelo de comportamento. A questão, capa da Revista Trivela em edição de outubro do último ano, voltou à tona com força nos últimos dias, especialmente no Rio de Janeiro.
Thiago Neves, Souza e Túlio estiveram em torno de polêmicas na fase final da Taça Guanabara. A tensão botafoguense em ambos os episódios mostra como Caio Martins tem sido um poço de instabilidade emocional. Encarar as declarações de Thiago como provocação foi apenas a constatação do que parece ser o grande problema na gestão de Cuca.
Imaginar que a comemoração de Souza ou o comentário de Thiago Neves provocariam uma violência generalizada entre torcedores é ignorar a causa do problema. Ou seja, quem cria confusão por conta disso, na verdade, é que está errado. Demonstrações de alegria, irreverência e provocações sadias, isso sim, faltam ao nosso futebol. As autoridades competentes que dêem respostas.
Ver menosprezo e/ou provocação quando Thiago Neves imaginava enfrentar o Flamengo na final da Taça Guanabara, deve se admitir, é um tremendo exagero. A popular dança do créu, o “choro” de Souza, as firulas e gracejos de Valdívia – claras demonstrações do que é a essência do futebol brasileiro. E algo pelo qual deve se levantar a bandeira.
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