Brasil

Morre Dario Alegria, quilombola campeão por Palmeiras e América Mineiro

Ex-atacante, de 77 anos, faleceu em decorrência de um AVC na cidade de Paracatu, em Minas Gerais

Conhecido nacionalmente como Dario Alegria, o ex-atacante Jurandir Dario Gouveia Damasceno dos Santos morreu no último sábado, aos 77 anos, vítima de um AVC. Natural de Paracatu, nas Minas Gerais, ele brilhou entre as décadas de 1960 e 70, sobretudo quando defendeu o América Mineiro, seu clube formador, e o Palmeiras, durante o período da Academia. Figura importante do movimento negro, o ex-atleta deixou um legado magnífico também fora de campo.

O Leopardo das Alterosas

A história de Dario começou no futebol em meados dos anos 1960, quando ele deixou equipes juvenis do Vasco para tentar o sonho do profissionalismo no América, que havia se interessado pelo seu talento. A aptidão para o futebol ficou clara muito cedo. Enquanto trabalhava como pedreiro, em Brasília, o atacante defendia a equipe da sua empresa e acabou sendo convocado para a Seleção do Distrito Federal. Em um amistoso contra o Santos de Pelé, chamou a atenção do Vasco, que ofereceu uma compensação financeira à sua família durante três meses de teste antes de virar profissional.

Mas a chance surgiu mesmo no Coelho, o que resultou em uma fuga de Dario do Rio de Janeiro, algo que ele reconhece que não foi correto, embora tenha trazido frutos rapidamente. Em 1964, estreou no time principal e causou grande impacto, a ponto de ser contratado logo no ano seguinte pelo Palmeiras, que vivia anos gloriosos no futebol nacional. No Verdão, foi campeão do Rio-São Paulo em 65, do Paulista em 66 e do Brasileiro em 67.

Em sua passagem pelo Palmeiras, participou do histórico jogo entre Brasil x Uruguai, na inauguração do Mineirão, em 1965. O Verdão cedeu seu elenco à Seleção para a partida, a qual venceu por 3 a 0. Dario entrou na segunda etapa no lugar de Rinaldo.

O goleador, conhecido como Leopardo das Alterosas, defendeu o Monterrey, do México, antes de retornar ao país, e ainda vestiu outras camisas importantes, embora sem tantos títulos: passou por Fluminense (conquistando o Carioca em 1969) e Flamengo antes da virada para a década de 1970. Depois, iniciou uma longa jornada por equipes de menor expressão, como Caldense, Botafogo-SP, CEUB, Villa Nova e Olaria, se aposentando em 1976.

Sua relação com o Coelho, por sinal, acabou se fortalecendo anos depois, quando retornou à capital mineira para ser campeão estadual, em 1971. Aquela equipe americana venceu o Mineiro de forma invicta e teve em Jair Bala, grande parceiro de Dario no futebol, como artilheiro.

Ações em defesa do movimento negro

A grande contribuição de Dario Alegria, no entanto, se deu fora dos campos. Nascido na comunidade quilombola Muriti do Costa, em Paracatu, o ex-atleta veio de uma família de escravos refugiados nas Minas Gerais. Seu avô foi escravo e se estabeleceu na região. Filho de um garimpeiro, Dario levou adiante a marca da luta e depois de começar a trabalhar, muito jovem, no ramo da construção civil, viu no futebol uma grande oportunidade de uma vida melhor.

O pai de Dario, que também era músico, fundou um clube de lazer voltado ao público negro da cidade de Paracatu, o que fortaleceu ainda mais o senso de comunidade no restante da família. Anos mais tarde, impulsionado pela grande carreira nos gramados, o ex-atleta dedicou seu tempo e fundou o Instituto de Defesa da Cultura Negra e dos Afrodescendentes – o Fala Negra – , que colaborou na identificação de mais de 80 comunidades quilombolas ao redor do Brasil, sobretudo na região na qual ele havia crescido.

Em 2020, o site oficial do Palmeiras publicou uma entrevista com Dario, na qual mencionou seu histórico no movimento negro e relembrou seus momentos com a camisa do clube, bem como o início de sua trajetória no futebol.

Mostrar mais

Felipe Portes

Felipe Portes é editor-chefe da Revista Relvado, zagueiro ocasional, ex-jornalista, cruyffista irremediável e desenhista em Instagram.com/draw.portes

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo