Brasil

Missão: 2010

Muricy Ramalho não costuma fazer críticas diretas a Vanderlei Luxemburgo. Nunca se furtou, porém, de criticar o fato de treinadores adotarem relação quase promíscua com a imprensa para se promover, venderem a imagem de moderno ao utilizar discursos motivacionais, acumularem a função de gerente de futebol e se vestirem elegantemente para parecer distinto. Bem, talvez uma crítica direta não seja necessária para ele deixar claro o que pensa.

Vanderlei Luxemburgo nunca escondeu que se considera o melhor técnico do Brasil. Ele foi por muitos anos, algo consolidado pela implantação do Brasileirão em pontos corridos, sistema de disputa que privilegia o planejamento. No entanto, seu status caiu nos últimos anos devido aos maus resultados de suas equipes e à ascensão de Muricy, tricampeão nacional com o São Paulo. Ainda que tente, “Luxa” não convence ninguém quando diz que é o melhor do país.

Há um duelo, mesmo que ambos digam o contrário. Cada um tem uma personalidade muito marcada e oposta, a própria imprensa alimenta essa necessidade de se rotular “o melhor” e, claro, ambos trabalhavam em clubes rivais. E, depois de um período de descanso, voltam à baila. Só que, dessa vez, sem a expectativa tão grande de serem protagonistas imediatos.

Logo de cara, quem terá mais cobrança será Muricy. O Palmeiras, com todos os seus defeitos (defesa insegura e ataque frágil), é co-líder do Brasileirão. Haveria uma chance razoável de o time, independentemente do técnico, perder um pouco de terreno com o passar do campeonato. Mas, no momento em que o ex-são-paulino assumiu, ainda estava no topo. E, para a torcida, fica uma obrigação implícita de permanecer nesse patamar.

De qualquer modo, a Luis Gonzaga Belluzzo agiu bem na busca de um substituto para Luxemburgo. Ele nunca perdeu de vista que insistir em um interino até o fim do ano não seria possível, mas também não caiu na tentação de, na dificuldade de acertar com alguém de peso, apostar em um treinador inexperiente (o que, na prática, não seria muito diferente de ter um interino com salário bem mais alto). A diretoria ainda deu a sorte de o time fazer muitos pontos no tradicional período de empolgação inicial com o técnico temporário.

A chegada de um técnico experiente e competente pode dar mais solidez ao time, mesmo com seus defeitos. Isso pode ficar mais evidente no segundo turno, quando os elencos começam a se desgastar e ficam sedentos por opções táticas e técnicas para seguirem em ritmo forte. Talvez a presença de Muricy seja o que faltava para o Alviverde entrar definitivamente na lista de candidatos ao título brasileiro.

Ainda assim, só um fanático palmeirense ignora o fato de que o técnico assumiu uma equipe cheia de problemas. Estão no Parque Antarctica o melhor goleiro em atividade no Brasil e um dos melhores meio-campos do campeonato. Mas a defesa e o ataque são de mediano para baixo, mesmo no padrão brasileiro. Isso pode ser decisivo em curto prazo.

O cenário do Santos de Luxemburgo é diferente. O time tem bons nomes, mas o vestiário está cheio de fraturas internas. Além disso, a torcida cobra por resultados como se fosse o elenco da década de 1960, o que cria uma pressão exagerada sobre todos na Vila Belmiro. Para piorar, o técnico assume uma equipe em situação ruim na tabela, o que já cria uma dificuldade extra para uma eventual luta pela ponta.

Como tem força entre a diretoria santista, o ex-palmeirense pode domar um pouco as vaidades dos jogadores. Como já conhece bem o Santos, terá mais facilidade que outros para se aclimatar a esse ambiente hostil. E, como precisa realizar um bom trabalho para recuperar o respeito de todos, Luxemburgo deve se dedicar mais do que vinha fazendo. Isso deve tirar o Peixe da parte de baixo da tabela, mas não deve ser suficiente para muito mais que garantir um segundo semestre tranquilo.

E, aí, a situação de Muricy e Luxemburgo ficam parecidas. Ambos devem dar mais estabilidade aos clubes que acabaram de assumir, mas, pelos problemas que herdaram, o sucesso imediato pode ser parcial em 2009. A expectativa maior fica mesmo para a próxima temporada, se ambos permanecerem (o santista tem contrato apenas até dezembro deste ano). Aí, ambos terão condições de implementar sua filosofia de trabalho, darem suas caras aos times e poderem ser cobrados como os dois técnicos mais vitoriosos do Brasil na década.

Kid Abelha

Assim que foram definidos os quatro promovidos da Série B 2008, já se tinha na ponta da língua o nome de três favoritos ao rebaixamento da Série A 2009. Avaí, pela falta de costume das pessoas em vê-lo na elite, Santo André e Barueri, ambos pela falta de tradição e torcida de verdade, já chegaram ao Brasileirão com carimbo de time ioiô. Pois, após 12 rodadas, as duas equipes da Grande São Paulo fazem campanha convincente. E, no caso do Barueri, ensaiando entrar na briga por uma vaga na Libertadores.

O chavão para analisar o Barueri é falar em “continuidade”. Será? Na primeira partida na temporada, a Abelha tinha três técnicos: Toninho Moura, Diego Cerri e Luiz Carlos Goiano. Depois de alguns jogos, o último foi efetivado como comandante único. Mais algumas semanas e Estevam Soares foi contratado. Do time titular da estreia no Paulistão, contra o Corinthians, só três jogadores começaram a partida contra o Náutico, compromisso mais recente pelo Brasileirão: Renê, Diego e Thiago Humberto (Val Baiano, Daniel Marques e Márcio Hahn também atuaram nas duas partidas, mas foram reservas em uma delas).

Fica evidente que não há a tal continuidade no elenco e na comissão técnica. Mesmo assim, o time joga com segurança e mostra um nível de competitividade interessante. Assim, evidencia o fato de que os elementos que dão força ao Grêmio Recreativo Barueri (que, desde 2008, é chamado só Barueri a pedido da prefeitura, que queria ressaltar o nome da cidade) estão fora do campo.

O Barueri teve muita ajuda do poder público para crescer. O prefeito Rubens Furlan, que chegou a se considerar candidatável a governador, usou o esporte para projetar Barueri, que cresceu muito depois da construção de Alphaville (condomínio de luxo e bairro comercial) e de um parque industrial, mas que convive com uma série de problemas típicos de municípios que orbitam em torno de capitais brasileiras.

Furlan mandou construir um dos ginásios mais modernos do Brasil (recebeu jogos do Mundial de basquete feminino em 2006) e, para o GRB, uma arena muito acima da realidade do clube. O investimento em jogadores não foi extravagante, mas se buscou uma base com atletas medianos e experientes. Além disso, a prefeitura criou programas para facilitar a aquisição de ingressos por parte da população.

Isso criou um ambiente raro nos clubes brasileiros. A infraestrutura não é fantástica, mas supre as necessidades do time. O elenco não é particularmente bom, mas atua sem nenhuma pressão. E o Barueri ainda conta com o menosprezo dos adversários, pelo menos nesse momento inicial. Em um campeonato que é um deserto de organização e de talentos, com raros oásis, essas condições de trabalho são suficientes para fazer uma equipe ficar acima das expectativas por um tempo. Mesmo que o planejamento “de verdade” seja ficção.

É mais ou menos o que ocorria em São Caetano. No Azulão, a instabilidade de técnicos era semelhante, o investimento em jogadores era maior, mas a infraestrutura era bastante pior. Uma coisa compensava a outra e, no final das contas, o que importava é que o elenco trabalhava solto pela falta de cobranças e a sensação de que a diretoria não sairia trocando todos os jogadores de uma hora para a outra. Em alguns casos, esses fatores podem ser mais fortes do que manter o mesmo técnico e apostar em alguns jogadores famosos.

Isso não significa que o Barueri terá tanto sucesso quanto o time do Grande ABC. Primeiro, porque o São Caetano se beneficiou de um momento de baixa em alguns clubes, que viviam dificuldades depois de abandonar parcerias que os deixaram “bombados” por um tempo (casos de Corinthians, Flamengo, Palmeiras e Grêmio), ou que sofriam pela turbulência política (como São Paulo, Atlético Mineiro e Internacional). Segundo, porque a parceria entre a Abelha e a prefeitura já é passado.

No final do ano, o GRB deixou de ser gerido por uma ONG (modo encontrado pela prefeitura de Barueri para financiar o futebol) para andar com pernas próprias. Walter Jorquera Sanches, presidente do clube, rompeu com Furlan e colocou a seu lado um grupo de empresários. Passando a viver de acordo com as regras de mercado (ou seja, não tendo mais proteção estatal), o Barueri pode expor sua fragilidade institucional.

O primeiro sinal disso está nas arquibancadas da Arena Barueri. Na Série B 2008, com a prefeitura distribuindo ingressos, o Barueri teve média de 9.204 pagantes por partida (quinta maior da competição, atrás apenas de Corinthians, Vila Nova, Ceará e Fortaleza). Na elite, enfrentando adversários muito mais fortes, o time levou 2.706 pagantes em média, pior marca da competição. O total das cinco primeiras partidas, 13.530, é quase o mesmo que a média do ano passado.

A situação pode piorar em breve. Já surgem informações de que a diretoria não pagou o salário dos últimos dois meses. A venda de Pedrão ao Al-Shabab, da Arábia Saudita, pode colocar a folha de pagamentos em dia, mas já se cria um foco para problemas no futuro.

Como não há sinais de que a direção pretende criar um esquema poderoso nas categorias de base ou aumentar o vínculo com a população local, a projeção é de que o Barueri acabará afundando em algum momento. Mas, enquanto conseguir manter as condições de trabalho para o time, obterá resultados interessantes. Como o São Caetano.

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