Miranda encerra uma carreira que o coloca entre os zagueiros da mais alta estirpe que o Brasil teve neste século
Miranda foi um dos zagueiros mais qualificados que o Brasil teve nas últimas décadas, com uma carreira cheia de momentos à altura dessa capacidade
Há zagueiros e zagueiros no futebol. E entre as diferentes classes de beques que dá para encontrar no esporte, Miranda pertence a uma categoria que enche os olhos. Nunca deixou de ser um zagueiro firme, mas também com uma capacidade técnica como poucos. O paranaense foi dono de excelente posicionamento, precisão nos desarmes, um jogo aéreo muito forte. Mantinha o peito estufado e o senso de liderança para cumprir seu trabalho com enorme eficiência. E teve muito sucesso na missão. Basta notar pela gratidão dos torcedores de São Paulo e Atlético de Madrid, também pelo respeito que conquistou com outras camisas, inclusive na Seleção. Desde antes de sua aposentadoria, Miranda era um defensor para ser mencionado com nostalgia por seu auge. A partir de agora, ficam mesmo só as lembranças de quem foi ótimo, diante da notícia do fim de sua carreira, aos 38 anos.
“Fala, pessoal. Estou aqui para contar para vocês que chegou o momento de dizer adeus. Se o futebol fosse uma pessoa, depois de tudo que eu vivi, diria que foi emocionante, que a gente viveu uma coisa inexplicável, mas chegou o momento de ser o João Miranda. Eu, como seguidor do futebol, vou continuar apaixonado, mas de uma forma diferente, como torcedor”, declarou Miranda, sem contrato desde o fim de 2022. “Não mudaria nem uma vírgula (da carreira), pois tudo o que conquistei foi de maneira digna, honrosa. Hoje estou com a cabeça tranquila, posso deitar no travesseiro e saber que aquele super-herói ficou para a história”.
A maturidade do jogo de Miranda sempre foi uma característica do zagueiro. E isso desde muito cedo, quando despontava nos campinhos de Paranavaí, sua cidade natal. O mais novo de 12 irmãos, que perdeu o pai quando tinha apenas 11 anos, viu nos gramados um caminho para seu futuro. Já tinha sua personalidade bem formada, como alguém que falava pouco, mas ouvia muito e absorvia quase tudo. Ficava claro como era um ótimo aprendiz e transformava os ensinamentos em técnica apurada dentro de campo. O bom posicionamento e o tempo de bola apurado já eram suas virtudes quando chamava atenção na escolinha em que atuava no interior do Paraná.
O Coritiba se tornou a porta de entrada de Miranda para o futebol de alto nível, mas o beque ainda levou um tempo para deslanchar nas categorias de base. Seu verdadeiro impulso aconteceu a partir de 2004, quando se destacou na Copa São Paulo pela equipe de juniores que alcançou as semifinais. Foi quando passou a ser aproveitado no time profissional, por intermédio de Antônio Lopes. E o Delegado, tão experiente em seus caminhos no futebol, percebeu que ali surgia um defensor da melhor estirpe. Miranda se firmou como titular e virou um xodó do Coxa. Logo em seu primeiro ano, disputou a Libertadores com os alviverdes e foi dono da posição no Brasileirão. Conquistou o Campeonato Paranaense.
A passagem de Miranda pelo Coritiba não seria tão longa. Afinal, em 2005, o zagueiro começou a atrair atenção de outros clubes. Sua primeira aventura seria fora do país. O Sochaux desembolsou €2 milhões para comprar o beque prestes a completar 21 anos. Porém, sua adaptação à França não seria imediata. Disputou apenas 20 partidas na Ligue 1 2005/06 e frequentou o banco de reservas na reta final da temporada. Àquela altura, poderia se tornar uma promessa brasileira que passaria a rodar pela Europa justo num momento importante de sua afirmação. Que bom que não foi assim.

Estava claro, afinal, que Miranda tinha bola para ser um dos melhores zagueiros de sua geração. E diante de sua vontade de voltar para o Brasil, dois clubes em fases excelentes tentaram trazê-lo. O Internacional chegou a negociar com o beque, mas o São Paulo levou a melhor. Ganhou um ídolo. Inicialmente emprestado ao Tricolor, até ser comprado em definitivo, Miranda não demorou a estourar no Morumbi. Parecia não apenas jogar por muito tempo num time que acabara de ser campeão mundial, como também indicava muito mais maturidade que os 20 e poucos anos poderiam sugerir. Estava pronto para o melhor.
Miranda completou cinco anos no São Paulo. Cinco anos dos mais felizes para o Tricolor. O zagueiro se tornou imprescindível ao sucesso da equipe de Muricy Ramalho, calcada em sua defesa. Se não jogou tanto na conquista do Brasileiro de 2006, emendaria o tricampeonato como um dos principais nomes são-paulinos nos dois títulos seguintes. Não à toa, também colecionou prêmios individuais. Por quatro anos seguidos recebeu o troféu de melhor zagueiro no Craque do Brasileirão da CBF, de 2007 a 2010, enquanto também recebeu a Bola de Prata da Placar em 2008 e 2009. Mesmo quando os troféus começaram a minguar no Morumbi, a excelência de Miranda não esteve em xeque. Pode se discutir se não houve outros zagueiros mais identificados com o São Paulo. Em termos de qualidade, entretanto, é indiscutível que o paranaense se coloca na primeira prateleira do clube.
Uma hora a Europa pintaria novamente no caminho de Miranda. E a nova mudança para o continente aconteceu através de uma porta bem maior, com a camisa do Atlético de Madrid. O zagueiro chegou em julho de 2011, ao final de seu contrato com o São Paulo. Passaria a defender um clube tradicional, mas que ainda lidava com suas oscilações naquele momento. Foi exatamente a temporada em que tudo mudou. Diego Simeone assumiu o comando em dezembro e tornou os colchoneros bem mais competitivos. O brasileiro se firmaria como um dos grandes pilares na zaga, formando uma dupla inesquecível com Diego Godín. Firmeza e qualidade nas medidas certas para tornar o Atleti vencedor.

Miranda marcou o gol que virou a chave do Atlético de Madrid no futebol espanhol. Foi na decisão da Copa do Rei de 2012/13, quando o clube amargava um jejum de 17 anos sem títulos nacionais e de 14 anos sem sequer ganhar um clássico contra o Real Madrid. Aquele era o momento da redenção, exatamente na decisão contra os rivais no Estádio Santiago Bernabéu. A vitória na final dependeu de um empate suado dos rojiblancos no tempo normal, com uma atuação impressionante de Thibaut Courtois. Já na prorrogação, os 2 a 1 que encerraram o tabu e decretaram a taça saíram numa cabeçada de Miranda. É um dos gols mais importantes da história do Atleti, e que serviu como ápice a uma linda trajetória do beque no Estádio Vicente Calderón.
A temporada seguinte do Atlético de Madrid marcou a reconquista de La Liga após 18 anos. Miranda mais uma vez foi essencial para o sucesso da forte equipe dirigida por Simeone. Godín saiu como o herói pelo gol do título, mas ao longo da temporada o brasileiro foi até melhor. Seria também o momento de disputar a final da Champions, embora a decisão contra o Real Madrid tenha se encerrado com amargor pela goleada na prorrogação. Àquela altura, ainda assim, o defensor também somava seus sucessos internacionais. Já tinha levado a Liga Europa 2011/12 logo em sua primeira temporada e, na sequência, marcou até gol na conquista da Supercopa Europeia de 2012, em goleada sobre o Chelsea estrelada por Radamel Falcao García. O beque já era eterno para os torcedores colchoneros.
Miranda atuou um pouco menos em sua última temporada pelo Atlético de Madrid, em 2014/15, com problemas de lesão. Totalizou 178 partidas pelo clube e 13 gols, num lugar muito privilegiado da história rojiblanca, ao lado de outros brasileiros adorados como Vavá, Luis Pereira, Leivinha, Baltazar e Filipe Luís. Entretanto, do alto de seus 31 anos, o referendado defensor ganhava uma nobre tarefa a partir de 2015: a de auxiliar na reconstrução da Internazionale. Seu estilo de jogo sóbrio parecia perfeito para se encaixar numa escola de zagueiros como a italiana.

Em seus primeiros anos na Internazionale, Miranda continuou em excelente forma. Ainda conviveria com a instabilidade do clube e não teria um nível tão alto quanto o visto no Atlético de Madrid, mas não se nega que também deixou seu nome marcado com os nerazzurri. Foram três temporadas em que passou a usar a braçadeira de capitão ocasionalmente e se firmou entre os melhores beques da Serie A. A boa fase, inclusive, auxiliou a desfazer uma injustiça: a falta de uma Copa do Mundo no currículo do zagueiro. Enfim ele preencheria a lacuna também pela Seleção.
Miranda ganhou suas primeiras convocações em 2008 e foi reserva do time campeão da Copa das Confederações em 2009, mas perdeu espaço com Dunga ao ser expulso na reta final das Eliminatórias. Não jogou a Copa de 2010. Já durante a passagem de Felipão, sua ausência no elenco foi um dos grandes absurdos, diante da qualidade que apresentava no Atlético de Madrid. Não se nega que poderia ter auxiliado muito a equipe na Copa de 2014. O retorno definitivo ao time aconteceu apenas depois do Mundial, primeiro como titular absoluto de Dunga, inclusive capitão em parte dos jogos da Copa América de 2015. Tite também não abriu mão do beque quando assumiu o comando e o viu como nome importante na crescente de rendimento, desde as Eliminatórias.
Com quase 34 anos, enfim, Miranda teve a sua Copa do Mundo em 2018. E fez um torneio muito bom na Rússia, entre os melhores de sua posição, para honrar a oportunidade. O Brasil deixou o sonho escapar nas quartas de final contra a Bélgica, mas não que o veterano tenha comprometido o desempenho geral dos brasileiros. Ao lado de Thiago Silva, ele formou uma dupla segura e continuou nas listas apesar da idade. Integrou a Seleção continuamente até a Copa América de 2019, já reserva na conquista do título continental. Sua última aparição com a Canarinho aconteceu na semifinal, diante da Argentina, embora ainda tenha sido reserva em duas partidas nas Eliminatórias depois disso.

A essa altura, o fim da carreira de Miranda se tornava mais aparente. O zagueiro virou reserva da Internazionale em 2018/19 e, num acordo com os donos do clube, se transferiu ao Jiangsu Suning logo depois. Ficou duas temporadas no futebol chinês, tempo suficiente para conquistar a inédita Super League, mesmo num momento em que seu time estava às vésperas de fechar as portas. Já em 2021, chegou a hora de voltar ao Brasil. Optou por novamente vestir a camisa do São Paulo. Não foi mais o paredão de outrora, mas teve também bons momentos e conquistou um simbólico troféu no Campeonato Paulista. Superou as 300 aparições pelo time, num lugar privilegiado entre os ídolos recentes dos tricolores.
Miranda merece ser lembrado entre os melhores zagueiros do futebol brasileiro neste século – certamente num Top 10, provavelmente num Top 5, conforme a preferência até num Top 3. Talvez tenha faltado um pouco mais de projeção com a Seleção para respaldá-lo, mas não se nega sua grandeza pelo São Paulo e a importância pelo Atlético de Madrid, ainda com motivos para ser querido por seu início no Coritiba e pela liderança na Internazionale.
Quem viu Miranda jogar em seu auge sabe como o beque foi diferente. E conseguiu ser diferente por muito tempo, por mais de uma década, período mais que suficiente para enchê-lo de orgulho nesse adeus. De fato, foi um super-herói para muita gente.




