Meritrocracia premiada

Vencer o Campeonato Brasileiro é uma tarefa árdua. O Fluminense levou o título em 2010 com uma campanha que pode ser considerada a mais regular da competição. Foi o que mais liderou e teve um jogador de linha presente em simplesmente todos os jogos: Darío Conca. Mais do que jogar, jogou bem em boa parte desses jogos.
A começar pelo aproveitamento, o Fluminense terminou com um aproveitamento de 62,2% dos pontos. Dos 38 jogos, foram 20 vitórias (foi o time que mais venceu ao lado do Cruzeiro), 11 empates e sete derrotas. Marcou 62 gols – o quarto melhor ataque – e sofreu 36, uma média de menos de um gol por jogo que levou o time a ser a melhor defesa da Série A.
O Fluminense passou nada menos do que 15 rodadas sem perder, a maior série invicta da competição. Passou também cinco jogos sem vitória, é verdade, mas não foi o suficiente para afastar o time das primeira posições. O time assumiu a terceira posição na 5ª rodada. Na 9ª, chegou à segunda colocação. A partir daí, variou entre primeiro e segundo colocado.
As estatísticas mostram um pouco do que foi a campanha do Flu, mas não é só isso que explica o título. O time quase foi rebaixado em 2009, escapando milagrosamente sob o comando de Cuca e com dois jogadores tendo papel preponderante: o meia Conca e o atacante Fred. A promessa era de um 2010 melhor. Depois da campanha decepcionante no estadual, veio a troca de comando: sai Cuca, entra Muricy Ramalho, tricampeão brasileiro pelo São Paulo, e que teve passagem ruim pelo Palmeiras, quando deixou escapar um título que parecia perto.
Muricy representa algo que faz muita diferença: trabalha pelo mérito. Jogador que não trabalha muito, tem menos chance com ele. Assim, planificou vaidades, fez com que todos os jogadores se sentisse importantes.Fernando Henrique, esquecido antes, voltou a ser titular. Depois, com sua lesão, Ricardo Berna, que era terceiro goleiro, virou titular e deu segurança ao time.
Na zaga, Muricy começou com três zagueiros, o que deu aos laterais uma liberdade grande para atacar, o que fez e Mariano uma arma ofensiva importante do time. Do final do segundo turno em diante, o time mudou o esquema e passou a usar dois zagueiros centrais, abrindo uma vaga para um meia ofensivo no time – que seria o lugar de Deco. O luso-brasileiro não teve grande sequência por causa das lesões.
No ataque, Emerson e Fred eram os jogadores para serem titular da equipe, mas as lesões também atrapalharam. Fred acabou ficando muito tempo no estaleiro e Muricy foi buscar o insatisfeito Washington no São Paulo para marcar gols importantes pelo tricolor carioca. Foram oito gols pelo clube carioca, especialmente nos primeiros jogos – os últimos 15 do Flu ele não marcou.
Emerson foi importante pela qualidade que deu ao time e os gols que marcou – o mais importante, claro o gol contra o Guarani na última rodada, que deu o título ao time. Foram outros oito gols, também importantes para a campanha do time. Aliás, há quem não considere o Sheik campeão brasileiro de 2009, porque saiu no meio do campeonato. Mas em 2009, Emerson fez 14 jogos. Em 2010, fez 11.
Fred, que seria o titular se não fossem as lesões, acabou fazendo 14 partidas, mas não teve a importância que teve em 2009, quando foi fundamental para a permanência do time na primeira divisão. Marcou cinco gols e participou da campanha bem-sucedida do time.
Não dá para não lembrar da defesa. Gum e Leandro Eusébio deram muita segurança ao time. O fato de ser a melhor defesa deixa esse sucesso claro. André Luizx, ex-São Paulo, foi o reserva principal, sendo inclusive titular no início da campanha, quando o time jogava com três zagueiros.
O lateral Mariano foi outra peça importante nesse esquema. O lateral foi o melhor do campeonato na sua posição, fazendo boas jogadas pelo lado direito, o mais forte do Fluminense. Depois de passagens pouco inspiradas pelo Cruzeiro e Atlético-MG, o jogador tornou-se um dos mais importantes do Flu e chegou a ser chamado por Mano Menezes para a Seleção.
O artilheiro do time você pode adivinhar. Darío Conca fez 38 jogos e marcou nove gols, sendo o goleador máximo do time. Mas não foi nos gols que Conca mais contribuiu com o time. O argentino fez nada menos do que 19 assistências, oito à frente do segundo colocado, Dougla,s do Grêmio, que fez 11. Isso significa que Conca participou diretamente de 28 gols do Fluminense no campeonato – pouco mais de 45%.
Assim, Muricy deu a todos os jogadores a sensação que era possível ganhar. Aos poucos, o time ganhou mais corpo, mais força e apouca variação na tabela mostra que a equipe foi muito regular. Vencedor como é, Muricy conseguiu inclusive segurar a ansiedade no clube por um título que não vinha há 25 anos, além da ansiedade dos próprios jogadores. Não foram poucas as vezes que a insegurança ficou evidente no time, inclusive nas últimas rodadas. Ainda assim, foi um time consistente e acabou sendo premiado com a taça. O quarto título nos cinco últimos Campeonatos Brasileiros mostra que Muricy é, atualmente, o melhor técnico brasileiro, de longe. Sorte do Flu.



