Brasil

Mea culpa. E a sua?

Era uma tarde ensolarada. Um feriado, bonito, convidativo. Eu tinha várias opções, mas você apareceu. Um amor velho, surrado, mas com uma aura de confiança. Disse que queria sentir o meu calor. Voltou como se nada tivesse acontecido, depois de muito tempo longe. Esqueceu das noites que me fez te ver, longe, encantada com a organização inglesa, os belos vestiários, os euros na sua conta.

Agora, voltou. Pediu meu amor, como se nunca tivesse ido embora. Não me venha falar da festa do Ronaldo, quando você apareceu, como se aquilo tivesse sido sério. Até porque o que me importava ali era o Ronaldo, que passou o fim da carreira aqui. Você foi ao Gabão, mas não veio para cá. Mesmo podendo escolher onde ir. E diz que aqui é sua casa. Casa? Você tem coragem mesmo de dizer isso?

Não se diga surpresa. Você sabe que comigo nunca foi fácil. Nunca neguei isso. Aqui você precisava conquistar. Sempre precisou. Nunca te prometi amor. E admito que exagerei. Estava cheio de pequenos sádicos, quase torcendo para que você viesse e mostrasse o que você tem mostrado ultimamente: muita banca, nenhuma beleza. Eu sei, já fui pré-disposto a te esculachar. Faltou um pouco de respeito, talvez. Mas você volta me pedindo amor, como se não tivesse me abandonado. Reclama que eu não te abracei e carreguei no colo, mas você acha mesmo que eu deveria? Se você ainda viesse desfilar tua beleza, me mostrar como você é bela, alegre, interessante, como é envolvente, seria impossível resistir. Você sabe disso.

Mas você chega de qualquer jeito, mal vestida, mal organizada. Você nem tem cara. Mal te conheci. Tá, não precisava estar te xingando menos de cinco minutos depois de você voltar. Mas cá entre nós, você consegue se ver no espelho? Está ridícula. Irreconhecível. Há tempos era assim. Mesmo quando esteve aqui nas últimas vezes. Aquela beleza de quando te conheci eu não vejo há muito tempo. E você fala dela como se ainda fosse aquela que todos admiravam, aquela que todos reverenciavam. Você acha que ainda é a melhor do mundo. Aquela que as pessoas param para ver, seja onde for ou como for. Não sei se você sabe, mas há muita gente por aí te dando um banho. E não é só de beleza que falo. Em tudo. Você não consegue ser minimamente organizada. Nem sei quem é você. Sua identidade está perdida por aí, em algum lugar.

A recepção que te dei foi mais hostil do que deveria. Eu admito o excesso. Espero que você saiba admitir também que você não tem feito nada para merecer coisa melhor. E talvez você devesse se olhar no espelho. Está um caco. Aquela beleza que você acha que tem não aparece há anos. Você vive de pequenos brilhos. Aquele cabelo vermelho às vezes te faz parecer mais bela do que você é. Não se engane. Nós dois sabemos que você, hoje, não encanta mais ninguém. Não quer dizer que não goste de você. Mas você precisa mostrar mais personalidade, precisa fazer mais para me conquistar. Do jeito que está, nossa relação continuará sendo fria. Estimo melhoras a você. E que da próxima vez que nos encontrarmos, possamos fazer melhor um para o outro, seleção brasileira.

Atenciosamente,

São Paulo

Mostrar mais

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo