Brasil

Marivaldo representa um lado do futebol brasileiro que ainda é o melhor aos olhos do mundo: o do amor incondicional

Faz algum tempo que o Brasil não anda fazendo sucesso nas premiações de melhor jogador do mundo. Neymar acabou na modesta nona colocação no The Best de 2020. O atacante do Paris Saint-Germain até foi o segundo colocado no voto popular, mas teve parca popularidade entre jornalistas, capitães das seleções e técnicos das seleções – que representam 75% da pontuação final. Ainda assim, o futebol brasileiro anda em alta na Fifa de outras maneiras. Pelo segundo ano consecutivo, o país levou o Fifa Fan Award, que reconhece histórias especiais entre torcedores. Marivaldo, fanático pelo Sport, acabou sendo premiado.

Em 2019, a condecoração já tinha vindo ao Brasil. A Fifa homenageou Silvia Grecco e Nickollas. A história da mãe palmeirense ganhou o mundo, com sua dedicação para que o filho cego e autista acompanhe os jogos do time de coração e se desenvolva através de sua paixão. Marivaldo ganhou os holofotes de outra maneira, mas também por uma atitude incondicional de amor ao futebol. O pernambucano de 47 anos caminha 60 quilômetros a cada vez que vai à Ilha do Retiro para ver os jogos do Sport.

Marivaldo morava antes em Olinda e frequentava o estádio nessa época. Há dez anos, mudou-se para a cidade de Pombos e deixou de assistir às partidas nas arquibancadas. Antes inibido pelas limitações financeiras, a partir de 2017 o rubro-negro decidiu encarar a estrada para ir a pé até a Ilha nos dias de jogo – mesmo sem ingresso. Passou a contar com a ajuda de outros torcedores para entrar no estádio. Assim, não deixou de perder mais os compromissos do clube. São 12 horas de caminhada apenas para chegar à Ilha do Retiro. Na volta, quando não consegue carona, o fanático passa a noite no mercado ao lado do estádio, antes de voltar no dia seguinte.

A profissão de fé de Marivaldo continuou se repetindo durante os últimos anos, criando uma relação mais forte com os outros torcedores rubro-negros. E a peregrinação semanal chamou a atenção do Globo Esporte de Pernambuco, com uma reportagem realizada em setembro de 2019 – feita por Elton de Castro, Marcelo Cabral, Emerson Paixão e Henrique Soares. Foi o passo para que a história de Marivaldo rodasse o Brasil, até chegar à Fifa. Neste Fan Award, o rubro-negro competia com torcedores colombianos que distribuíram alimentos durante a pandemia e com James Anderson, filantropo escocês que doou milhões de libras para o desenvolvimento do futebol em sua região – seja ele amador, feminino ou de base.

Marivaldo ganhou numa votação popular, que certamente contou com o apoio da torcida do Sport. Mesmo assim, dos três concorrentes, é a história mais fácil de se identificar e de criar empatia pelo sacrifício pessoal. O Brasil pode não exportar mais o melhor jogador do mundo, como era frequente em décadas passadas. Ainda assim, permanece como um símbolo da paixão pelo futebol a outros cantos do planeta. Durante o anúncio, Marivaldo não precisou falar uma palavra em inglês para sua emoção ficar expressa a Ruud Gullit e a quem mais acompanhasse o evento.

Se tantas vezes surgem acusações de que o “brasileiro não gosta de torcer, gosta de ganhar”, histórias como a de Marivaldo ou Sílvia Grecco dão outra resposta. Há muito de inclusão no futebol, há muito de identidade, há muito de senso de comunidade. O futebol é mais do que as pessoas vociferam nas redes sociais, afinal. Neymar certamente geraria mais dinheiro com o The Best, talvez garantisse mais atenção ao futebol brasileiro. A vitória de Marivaldo, por sua vez, enfatiza a paixão de quem vive o futebol no Brasil. Representa tanta gente que ama seu clube – mesmo sem caminhar 60 quilômetros para ir ao estádio. Marivaldo é o próprio futebol que o brasileiro deveria valorizar mais, e que o mundo reconhece.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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