‘Se tu não ganha, parece que nem passou pela Seleção’: Marcelo desabafa sobre ingratidão no Brasil
Ex-lateral critica cobrança no país e afirma que a falta de um título mundial apaga trajetórias de peso com a camisa amarelinha
A relação de Marcelo com a seleção brasileira começou muito antes de o lateral se tornar um dos principais jogadores de sua geração. Em entrevista ao podcast “Pod Boa”, o ex-jogador de Real Madrid e Fluminense relembrou uma trajetória construída desde as categorias de base e revelou uma sensação de ingratidão ao olhar para tudo o que viveu com a camisa amarelinha.
A frustração de Marcelo está diretamente ligada à dimensão de sua passagem pelas seleções. O ex-jogador acumulou convocações, participou de duas edições dos Jogos Olímpicos e disputou duas Copas do Mundo. Ainda assim, na avaliação dele, os resultados obtidos acabaram se sobrepondo ao restante da trajetória.
— Eu joguei duas Olimpíadas, eu estou na seleção desde 2015, desde o sub-15. Aí eu estou falando do sub-15, sub-16, sub-17, sub-18. Aí vou para o Real Madrid, pego o sub-20. Duas Olimpíadas. E parece que não serviu de p**** nenhuma, porque não ganhou.
O desabafo expõe uma percepção que Marcelo carrega ao recordar sua passagem pelo futebol de seleções. Pela equipe principal, foram 58 partidas em diferentes competições. O ex-lateral esteve nos Mundiais de 2014, disputado no Brasil, e 2018, na Rússia.
Nas Olimpíadas, Marcelo conquistou duas medalhas pelo Brasil. Em Pequim, em 2008, a seleção ficou com o bronze. Quatro anos depois, em Londres, a equipe terminou com a prata. O torneio olímpico de futebol masculino é disputado oficialmente por jogadores sub-23, com exceção de três atletas acima desse limite permitidos por equipe.
Marcelo destaca esforço dos brasileiros que atuam na Europa
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Ao explicar sua insatisfação, Marcelo também chamou atenção para um aspecto específico da rotina dos jogadores que atuam no futebol europeu: o esforço necessário para atender às convocações da seleção brasileira. O ex-lateral destacou as longas viagens, a sequência de compromissos e a disposição dos atletas para representar o país mesmo diante de uma logística desgastante.
— A gente vai, viaja 10 horas de voo. Estou falando dos brasileiros que jogam na Europa, são viagens de 10 horas, depois mais sete horas para jogar contra o Peru. Aí vai para o Equador, e aí volta e o caramba. Não é mais que obrigação pra gente, e a gente faz amarradão.
— Mas não tem esse bagulho de ‘Ah, tu disputou aqui o Mundial, valeu, obrigado pela força’. Tu escolheu os melhores, se tu me convocou, é porque está achando que eu sou um dos melhores. Mas não tem essa parada.
A fala de Marcelo não questiona o compromisso dos jogadores com a Seleção. Pelo contrário. Ele ressalta que vestir a camisa do Brasil continua sendo motivo de orgulho para quem recebe uma convocação. O ponto levantado pelo ex-lateral é a falta de reconhecimento que, segundo sua percepção, existe quando uma carreira pela equipe nacional não termina com o principal título possível.
A cobrança também ganha peso quando considerada a geração da qual Marcelo fez parte. O jogador conviveu com períodos de grande expectativa em torno do Brasil, mas não conquistou uma Copa do Mundo. Em 2014, esteve no elenco que alcançou a semifinal antes da acachapante derrota por 7 a 1 para a Alemanha. Em 2018, participou da campanha encerrada nas quartas de final diante da Bélgica.
Títulos acabam definindo a memória pela seleção, diz Marcelo
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Para Marcelo, esse cenário produz uma espécie de divisão na maneira como as trajetórias são lembradas. Na visão do ex-jogador, a conquista do Mundial acaba funcionando como uma espécie de marco definitivo para que um atleta seja reconhecido pela passagem pela seleção brasileira.
— Se você ganha um Mundial, aí sim. Se tu não ganha, aí tu nem passou pela Seleção. É o sentimento que eu tenho, não ter gratidão. Porque a gente vai com o maior prazer. A gente joga a pelada com prazer, imagina jogar na Seleção, cantando o hino.
O desabafo parte, portanto, de uma carreira que teve longa ligação com o futebol brasileiro em diferentes níveis. Marcelo não chegou à seleção principal como uma presença ocasional: passou pelas categorias de base, disputou competições internacionais e esteve em duas Copas do Mundo. No entanto, ao revisitar esse caminho, entende que a ausência de um título mundial acabou diminuindo o peso de tudo o que foi construído.
A passagem pelo Brasil também se insere em uma carreira marcada por conquistas em clubes. No Real Madrid, Marcelo se tornou um dos maiores vencedores da história da equipe, com cinco títulos da Champions League e diversos troféus nacionais. De volta ao futebol brasileiro, também conquistou títulos pelo Fluminense, incluindo a Copa Libertadores.